O CÚMULO DO ABSURDO

A faxineira que morreu com um tiro na cabeça só porque errou uma porta

Caso de violência brutal e banal mostra como há seres humanos que cometem atrocidades “só porque a lei permite”. Um homicídio sem sentido, proposital e com amparo legal

María Florinda Ríos Pérez, morta com um tiro na cabeça porque errou a porta de uma casa.Créditos: Arquivo pessoal
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Quetzaltenango, a segunda maior cidade da Guatemala, ficara para trás havia três anos. Desde então, María Florinda Ríos Pérez, 32 anos, e o marido, Mauricio Velázquez, morando como imigrantes nos EUA, acordavam antes das quatro da manhã para cruzar Indianápolis em busca de contratos de limpeza. Na última quarta-feira (5), o destino era Whitestown, um subúrbio de ruas largas e casas geminadas onde o silêncio da madrugada costuma ser absoluto. O casal carregava um papel com o endereço, um molho de chaves e a rotina de quem sustenta quatro filhos à distância.

A casa que procuravam era nova no roteiro. Nunca tinham pisado ali. O GPS indicou o número, mas o terreno era maior do que imaginavam: a residência principal ficava na frente; a que precisavam limpar, nos fundos, quase invisível da rua. María desceu do carro, aproximou-se da porta da frente e tentou a primeira chave. Nada. A segunda. Ainda nada. O terceiro giro foi interrompido por um estampido seco. A bala atravessou a madeira maciça e alojou-se na cabeça dela. Mauricio correu, mas só conseguiu ampará-la enquanto o sangue escorria pela varanda.

Às 6h57, viaturas chegaram para atender uma chamada de “possível invasão”. Encontraram o corpo de María nos braços do marido, que gritava em espanhol. Nenhum dos dois havia cruzado o limiar da porta. A polícia isolou a cena, recolheu a arma – que permaneceu dentro da casa – e encaminhou o caso à promotoria do condado de Boone. Até agora, ninguém sabe quem atirou. A polícia classifica a investigação como “complexa, delicada e em andamento”, recusando-se a divulgar nomes para evitar “informações incorretas” que circulam na internet.

“Deveria ter chamado a polícia primeiro, em vez de atirar assim, sem motivo algum”, disse Mauricio Velázquez, entre lágrimas, à WTTV, por meio de um intérprete. “Peço justiça porque a pessoa que fez isso, acredito, não está bem da cabeça.”

Rudy Ríos Pérez, irmão de María, relatou ao The New York Times que o casal só percebeu o engano depois do disparo: a casa correta era a vizinha de trás, separada por um quintal que não aparecia no mapa. “Eles estavam ali para trabalhar, só isso”, disse ele.

O Ministério das Relações Exteriores da Guatemala emitiu nota oficial: María, natural de Quetzaltenango, “faleceu em um ato violento quando se preparava para cumprir suas tarefas”. O consulado em Chicago já presta assistência consular, jurídica, migratória e documental à família.

O promotor Kent Eastwood, do condado de Boone, admitiu ao portal The Indianapolis Star que a legislação estadual de legítima defesa transforma o caso em um labirinto jurídico. A lei permite força letal para “prevenir morte, ferimentos graves ou repelir um intruso” – mesmo que o suposto intruso esteja apenas tentando abrir uma porta com chave errada, do lado de fora, antes do amanhecer.

Casos semelhantes já expuseram a fragilidade dessa doutrina. Em 2023, Ralph Yarl, 16 anos, levou dois tiros em Kansas City, Missouri, por tocar a campainha da casa errada; Andrew Lester, o atirador de mais de 80 anos, declarou-se culpado e morreu antes da sentença. No mesmo ano, Kaylin Gillis, 20 anos, foi morta em Nova York ao entrar por engano no estacionamento de uma propriedade rural; o dono da casa cumpre 25 anos de prisão.

Em Whitestown, a porta perfurada permanece como testemunha muda. A chave que María carregava não serve mais para nada. O contrato de limpeza, cancelado. A vida, interrompida por um erro de endereço e uma bala que a lei talvez considere “razoável”.

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