CRIMES SEXUAIS

Caso Epstein: e-mails mostram que Trump “sabia sobre as garotas”

Democratas divulgam mensagens em que o criminoso sexual já morto afirma que presidente dos EUA “passou horas” com uma de suas vítimas; Casa Branca nega e chama acusação de “farsa política”

Créditos: Casa Branca
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Um novo e explosivo capítulo da longa novela envolvendo Jeffrey Epstein, milionário e ex-amigo de Donald Trump condenado por tráfico sexual de menores, voltou a abalar Washington e causar estrago no campo republicano.

Getty Images - Epstein e Trump em Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, 1997

Epstein foi encontrado morto em sua cela em Nova York em agosto de 2019, onde aguardava julgamento por acusações federais de tráfico sexual de menores. Sua morte foi classificada oficialmente como suicídio por enforcamento, embora até hoje seja cercada por teorias de conspiração e suspeitas de encobrimento devido às conexões do financista com figuras poderosas da política, da economia e da realeza.

Nesta quarta-feira (12), deputados democratas divulgaram mais de 20 mil páginas de documentos do espólio de Epstein, como parte de uma investigação do Comitê de Supervisão da Câmara dos Estados Unidos.

Entre o material, há e-mails inéditos em que o próprio Epstein afirma que Trump passou horas em sua casa com uma de suas vítimas — um trecho que reacende o debate sobre o quanto o presidente republicano sabia sobre os crimes do financista.

As mensagens, trocadas entre 2011 e 2019, foram escritas anos após a primeira condenação de Epstein e expõem bastidores de uma relação marcada por poder, silêncio e impunidade.

O que dizem os e-mails

Segundo os democratas, os e-mails — escolhidos entre milhares de páginas — levantam novas dúvidas sobre a ligação entre Epstein e Trump. Em uma das mensagens, Epstein escreveu: “O cachorro que não latiu é Trump. A vítima passou horas em minha casa com ele e nunca foi mencionada.”

Em outro e-mail, de 2019, ele afirmou: “É claro que ele sabia sobre as garotas, porque pediu a Ghislaine que parasse.”

As revelações vieram à tona no momento em que o governo federal reabre após semanas de paralisação, reacendendo o caso no centro do debate político em Washington.

Casa Branca reage e nega tudo

A Casa Branca chamou o vazamento de “narrativa falsa” criada para “difamar Donald Trump”. A porta-voz Karoline Leavitt afirmou que a vítima citada nos e-mails seria Virginia Giuffre, que morreu em abril deste ano, aos 41 anos, em um caso classificado oficialmente como suicídio.

Giuffre foi uma das principais denunciantes do esquema de exploração sexual de Epstein e afirmava ter sido aliciada por Ghislaine Maxwell quando era adolescente e trabalhava no clube Mar-a-Lago, propriedade de Trump em Palm Beach.

Anos antes de morrer, Virginia havia declarado que “nunca viu Donald Trump participar de nenhum abuso”, embora reconhecesse que ele frequentava os mesmos círculos sociais de Epstein.

“Essas histórias são tentativas de má-fé para distrair o público das conquistas históricas do presidente Trump. Qualquer americano com bom senso vê que isso é uma farsa”, afirmou Leavitt.

Trump também nega envolvimento. Ele diz ter rompido a amizade com Epstein há mais de 20 anos e garante que o expulsou do clube Mar-a-Lago por “comportamento inadequado com funcionárias”.

O que foi entregue ao Congresso

Os e-mails foram enviados ao Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA junto com um lote mais amplo de documentos do espólio de Epstein, requisitado oficialmente como parte da investigação sobre o caso que envolve o financista e sua cúmplice Ghislaine Maxwell, condenada em 2021 a 20 anos de prisão por tráfico sexual e aliciamento de menores.

De acordo com o relatório do comitê, a equipe técnica removeu nomes e informações que pudessem identificar as vítimas. Contudo, o acervo completo de mais de 20 mil páginas ainda não foi divulgado, o que gera dúvidas sobre o contexto integral das mensagens.

Não se sabe se os e-mails revelados são trechos isolados ou parte de conversas mais longas. Enquanto democratas afirmam que o material traz “novas evidências sobre a relação entre Epstein e pessoas poderosas”, republicanos acusam o partido rival de manipular os documentos para criar impacto político.

A briga política e o impacto no MAGA

Republicanos reagiram acusando os democratas de politizar o caso. “Os democratas continuam a escolher documentos de forma irresponsável para gerar cliques, sem base nos fatos”, disse uma porta-voz republicana do Comitê de Supervisão.

Apesar de alegarem proteger as vítimas, os próprios republicanos foram os primeiros a citar publicamente Virginia Giuffre, cujo nome aparecia suprimido.

A divulgação ocorreu horas antes da posse da deputada democrata Adelita Grijalva (Arizona), cuja assinatura pode forçar uma votação para exigir que a administração Trump libere todos os materiais sobre o caso — medida que a Casa Branca tenta barrar.

O episódio gerou forte repercussão dentro do movimento MAGA (“Make America Great Again”), base política mais fiel de Trump. Influenciadores e apoiadores exigiram a divulgação integral dos arquivos de Epstein, alegando que “o povo tem direito de saber quem estava envolvido”.

Nas redes, figuras influentes do trumpismo expressaram frustração com o silêncio da campanha, lembrando que o próprio Trump, durante discursos em 2023 e 2024, havia prometido “revelar toda a verdade sobre o caso Epstein” caso voltasse ao poder.

Agora, com os novos e-mails vindo à tona, parte da base passou a pressionar o ex-presidente a cumprir a promessa, exigindo transparência total e a liberação dos nomes presentes nos registros.

Para analistas em Washington, o vazamento chega em um momento delicado: Trump lidera as primárias republicanas e tenta conter divisões internas no partido, enquanto democratas veem no escândalo uma oportunidade para enfraquecer sua narrativa de outsider moralizador.

O histórico Trump–Epstein

Nos anos 1990 e 2000, Trump e Epstein frequentavam os mesmos círculos sociais em Nova York e Palm Beach. A amizade teria acabado por volta de 2004, segundo versões divergentes — uma delas afirma que os dois brigaram por causa de um imóvel de luxo.

Em 2011, quando chamou Trump de “o cachorro que não latiu”, o magnata republicano ainda era estrela de reality show e celebridade de tabloides.

Em 2019, Epstein foi novamente preso após reportagens do Miami Herald reacenderem o escândalo e revelarem o acordo judicial de 2008, que o livrou de acusações federais. Poucos meses depois, morreu em sua cela, em um episódio classificado como suicídio — mas cercado de suspeitas de encobrimento.

O que está em jogo

O vazamento reacende uma pergunta central: o que poderosos sabiam — ou fingiram não saber — sobre os crimes de Jeffrey Epstein?

Enquanto democratas pressionam pela divulgação integral dos arquivos, republicanos falam em “uso político” contra Trump. O caso continua a dividir Washington e expor as rachaduras internas do Partido Republicano, especialmente entre o establishment e os seguidores mais radicais do trumpismo.

Mesmo seis anos após a morte de Epstein, o escândalo segue como ferida aberta da elite americana, em que dinheiro, poder, sexo e silêncio ainda se misturam — e o desfecho está longe de um ponto final.

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