A Alemanha iniciou um dos maiores rearranjos de sua política de defesa desde o fim da Guerra Fria. O governo decidiu reconstruir seu sistema de defesa e anunciou um novo modelo de alistamento militar obrigatório, que deverá começar a valer em 2026.
A mudança busca ampliar de forma expressiva o contingente das Forças Armadas e preparar o país para cenários de conflito até o fim da década, em meio ao agravamento das tensões militares na Europa.
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O governo pretende identificar todos os homens a partir de 18 anos nascidos desde 2008. Eles deverão realizar exames médicos e responder a um questionário que permitirá mapear quem pode ser convocado. A meta é chegar a mais de 260 mil militares na ativa e formar uma reserva de 200 mil, totalizando cerca de 460 mil soldados.
O sistema é voluntário desde 1º de julho de 2011, quando o governo de Angela Merkel suspendeu o serviço militar compulsório, mantendo apenas um modelo totalmente voluntário para as Forças Armadas (Bundeswehr).
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No entanto, o Ministério da Defesa considera o número atual de recrutas insuficiente. Caso as metas anuais não sejam cumpridas, o Parlamento poderá autorizar um recrutamento compulsório. O projeto será avaliado pelo Bundestag.
A proposta é apresentada em meio ao avanço da guerra na Ucrânia. Reportagens da BBC, Frankfurter Allgemeine Zeitung e Welt indicam que o governo vê um risco crescente no continente. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, diz que o país deve estar pronto até 2029. O Exército já inaugurou uma unidade para proteger infraestrutura crítica e instalou sua primeira brigada no exterior desde a Segunda Guerra.
O plano oferece incentivos, como salário médio de 2,6 mil euros e apoio para obtenção de carteira de motorista. Questões como recusa ao uso de armas e participação feminina permanecem indefinidas. O governo afirma que o serviço obrigatório será usado apenas como último recurso. A expectativa é que o projeto seja votado até o fim de 2025 e entre em vigor no início de 2026.
Crise econômica
Enquanto amplia seus planos de defesa, a economia alemã continua sem força para reagir. As projeções apontam que o PIB deve crescer só 0,2% este ano e 0,9% em 2026, depois de dois anos de recessão.
Mesmo com esse pequeno avanço, a Alemanha permanece atrás de seus parceiros europeus e distante de uma trajetória sustentável de recuperação, prejudicada pela baixa produtividade e pela falta de investimentos em inovação.
O governo aposta em um fundo especial de até 500 bilhões de euros para infraestrutura, digitalização e projetos climáticos. Porém, especialistas alertam que parte desses recursos pode acabar usada apenas para cobrir rombos do orçamento, reduzindo o impacto real sobre o crescimento. A pressão por gastos sociais, o envelhecimento populacional e o custo cada vez maior da previdência continuam drenando recursos.
Além disso, o país enfrenta distorções estruturais, como desigualdade patrimonial alta e um sistema de heranças que favorece grandes fortunas. Discussões sobre mudanças tributárias e sobre medidas para ampliar investimentos privados seguem travadas no Parlamento, enquanto decisões pendentes do Tribunal Constitucional podem obrigar o governo a reorganizar regras fiscais que já pressionam a economia.