GUERRA FRIA

Ela passou por programa de lavagem cerebral da CIA e hoje processa os EUA

Além das invasões, intervenções e guerras, os EUA cometeram uma série de violações aos direitos humanos durante a Guerra Fria

Memorial Allan InstituteCréditos: wikipédia
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Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a CIA investiram pesadamente em pesquisas tecnológicas, bélicas, sociais e psiquiátricas. Entre elas estava o ultrassecreto Projeto MK-Ultra, um programa de experimentos de controle mental conduzido em diversos países — incluindo o Canadá — entre as décadas de 1950 e 1960.

Uma das vítimas foi Lana Pointing. Ela tinha apenas 16 anos quando foi internada no Instituto Memorial Allan, em Montreal. Antes disso, era uma adolescente comum, lidando com adaptações sociais após a mudança para uma nova cidade. Suas novas amizades, vistas como inadequadas pelos pais, acabaram sendo interpretadas como “comportamento problemático”. Em 1958, um juiz ordenou sua internação compulsória por “desobediência”. A mansão que abrigava o hospital — antiga residência de um magnata escocês do setor naval — se tornaria seu lar forçado durante um mês.

Décadas depois, Pointing se tornou uma das autoras de uma ação coletiva movida por vítimas canadenses dos experimentos. Em 13 de novembro, um juiz rejeitou o recurso do Hospital Royal Victoria, abrindo caminho para que o processo avance na Justiça.

Os experimentos secretos do MK-Ultra buscavam desenvolver técnicas de manipulação mental, investigando os efeitos de substâncias alucinógenas, privação sensorial, hipnose, eletrochoques e métodos intensivos de lavagem cerebral — sem consentimento dos envolvidos. Mais de 100 instituições nos EUA e no Canadá participaram do programa, entre elas hospitais, prisões e até escolas.

No Canadá, o psiquiatra Ewen Cameron ganhou notoriedade por suas práticas extremas. Ele submetia pacientes a doses elevadas de drogas, longas sessões de eletrochoque e repetição contínua de mensagens gravadas, em um processo que chamava de psychic driving (“direção psíquica”). “A frase se repetia sem parar: ‘Você é uma boa menina, você é uma menina má’”, lembra Pointing sobre uma das gravações que era obrigada a ouvir milhares de vezes.

A doutoranda Jordan Torbay explica que a técnica tinha como objetivo “manipular a mente dos pacientes por meio de estímulos verbais repetitivos, apagando padrões de pensamento e substituindo-os por novos comandos”. Durante sua internação, Pointing também recebeu drogas como amital sódico, desoxina e gás nitroso, este último conhecido como “gás hilariante”.

A verdade sobre o MK-Ultra só começou a emergir na década de 1970, após investigações do Congresso americano e vazamentos de documentos. Desde então, vítimas tentam processar os governos dos EUA e do Canadá. Poucas receberam indenização — e as que receberam ganharam valores inferiores a 100 mil dólares, sem qualquer admissão formal de culpa por parte da CIA ou do governo americano.

Por décadas, Pointing conviveu com a sensação de que havia “algo errado” com ela, sem compreender suas origens. Só recentemente teve acesso aos registros que revelaram sua participação forçada nos experimentos. Hoje, aos 80 anos, afirma que depende de diversos medicamentos para lidar com sequelas psicológicas e pesadelos recorrentes que associa ao período no Allan.

Embora o nome de Cameron tenha se tornado sinônimo dos experimentos do MK-Ultra, a pesquisa de Torbay indica que o psiquiatra não sabia, à época, que seu trabalho estava sendo financiado pela CIA. A revelação, no entanto, não diminui a gravidade dos métodos utilizados — nem o trauma deixado nas vítimas.

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