CHINA EM FOCO

Trocas Culturais promovem os BRICS na China — por Rafael Henrique Zerbetto

Não poderia haver local mais adequado que Zhangjiajie, na província de Hunan, para sediar um evento como esse

Apresentações culturais de minorias étnicas durante a cerimônia de abertura da exposiçãoCréditos: Rafael Henrique Zerbetto
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Na manhã do dia 16 de novembro, foi inaugurada em Zhangjiajie, cidade turística da província chinesa de Hunan, a terceira edição da Exposição Fotográfica sobre Patrimônio Mundial da China (Zhangjiajie), organizada sob orientação da Comissão Nacional da China para a UNESCO, em conjunto com a Aliança Internacional de Turismo de Montanha, a Fundação Chinesa para a Paz e o Desenvolvimento e a Associação Chinesa de Parques Nacionais e Locais Turísticos.

BRICS em destaque

A Associação de Artes Visuais do BRICS não apenas atuou como co-organizadora da exposição deste ano, como também sediou um evento paralelo: a Conferência Internacional de Artes Visuais de Zhangjiajie da Associação de Artes Visuais do BRICS 2025.

A Associação foi fundada em 30 de março de 2023, durante o Seminário de Governança e Fórum de Intercâmbio Cultural do BRICS, realizado em Yangzhou, na província chinesa de Jiangsu.

Criada conforme diretrizes de cooperação estabelecidas por consenso pelos líderes do BRICS, a Associação foi cofundada pelo Grupo Internacional de Comunicação da China (CICG) e pela Associação de Fotógrafos da China, em parceria com instituições acadêmicas e artísticas dos demais membros do bloco, visando promover a confiança e a amizade entre os povos desses países.

Fotógrafos amadores e profissionais dos países do BRICS contribuíram para a exposição, que contou com um setor exclusivo para fotografias dos países do bloco, com imagens que revelam a rica herança cultural dos cinco membros fundadores e também de países que ingressaram mais tarde, como Egito, Etiópia e Indonésia.

As fotos do Brasil apresentadas no evento incluíram dançarinos de frevo no Carnaval de Recife, panoramas de capitais brasileiras, cenas de cidades históricas de Minas Gerais e do Nordeste, uma rua enfeitada para a procissão de Corpus Christi, as cataratas do Iguaçu e os biomas brasileiros, com destaque para a Amazônia, que recentemente sediou a COP30.

Para o chinês Wang Weiguang, que foi diplomata no Brasil durante 45 anos, tendo morado em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a exposição foi uma oportunidade de mostrar ao público internacional as belezas e a riqueza cultural do Brasil, do qual se recorda com saudade.

Convidados para o evento, diversos fotógrafos de países membros do BRICS compareceram à cerimônia de abertura, visitaram a exposição e, a convite do governo local, conheceram as belas paisagens de Zhangjiajie em busca de inspiração para seus trabalhos fotográficos.

“Sou muito grato pelo convite para conhecer essas maravilhosas belezas naturais. É um lugar que eu quero visitar novamente! Eu também tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e reencontrar velhos amigos”, declarou o sul-africano Johann Andre van der Walt, que reside em Shenzhen, na província de Guangdong, no sul da China.

Lentes que nos ligam ao mundo

Coube à indiana Maitri Sharma a honra de discursar em nome da Associação de Artes Visuais do BRICS na abertura do evento, apresentando suas considerações sobre como a linguagem fotográfica pode ajudar os países membros do bloco a mostrar seu patrimônio cultural imaterial ao mundo.

Maitri Sharma discursa na abertura da exposição

Na visão de Maitri, as imagens são o caminho mais poderoso para preservar e compartilhar tradições culturais no mundo digital de nossos dias, pois, embora o texto seja capaz de descrever, são as imagens que nos permitem sentir. “Quando você vê fotos do Carnaval no Rio de Janeiro, no Brasil, é como se pudesse ouvir o som da bateria, sentir o ritmo e a alegria que contagiam as pessoas nas ruas”.

Maitri acredita que as tradições culturais russas, transmitidas de geração em geração, o contraste de cores, luzes e sombras em festivais religiosos como o Diwali indiano, a caligrafia e as danças tradicionais chinesas, e os rituais das tribos africanas — tudo isso, eternizado em imagens — nos mostra uma cultura viva, que hoje pode ser acessada de forma rápida, fácil e democrática por pessoas do mundo todo graças ao avanço tecnológico que nos interconecta.

Ela elogiou a iniciativa de Zhangjiajie em promover essa exposição e defendeu a realização de exposições fotográficas, festivais de cinema e trocas culturais entre os países do BRICS como uma forma não apenas de cada nação mostrar suas tradições culturais, mas também de promover o aprendizado conjunto, mostrando que o mundo é feito de diversidade, não de divisão.

Suspenso na neblina

Não poderia haver local mais adequado que Zhangjiajie, na província de Hunan, para sediar um evento como esse, destinado à promoção do patrimônio cultural humano. Conhecida pelas suas deslumbrantes paisagens naturais, Zhangjiajie faz parte da região de Wulingyuan, declarada patrimônio mundial da UNESCO em 1992 devido à excepcional beleza de seus desfiladeiros e pilares cercados por densas florestas.

As impressionantes colunas do Parque Nacional de Zhangjiajie, insspiraram o cenário do filme Avatar, de James Cameron

O Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie, criado em 1982, é o mais antigo da China, ocupando uma área superior a 4.800 hectares, com milhares de pilares de quartzito e arenito que inspiraram as montanhas flutuantes de Pandora no filme Avatar (2009), de James Cameron.

O sucesso do filme colocou Zhangjiajie na rota do turismo internacional, impulsionando o desenvolvimento da cidade, gerando empregos para a população local e favorecendo a preservação do patrimônio natural, cultural e étnico da região. Em homenagem ao filme, um dos pilares do parque nacional foi renomeado “Avatar Hallelujah”.

Outro local famoso de Zhangjiajie é a montanha Tianmen (Porta do Céu), um imponente portal de rocha esculpido pela natureza no topo da montanha, acessível por uma escadaria com 999 degraus — número que, na tradição chinesa, representa longevidade.

A montanha Tianmen, uma das belezas naturais de Zhangjiajie

Essas paisagens incríveis, que muitas vezes parecem flutuar entre as nuvens, têm inspirado fotógrafos e outros artistas do mundo todo a produzir suas obras. Mais recentemente, a grande ponte de vidro de Zhangjiajie e outras estruturas construídas pelo homem, como o espelho d’água da montanha Tianmen, têm servido como novas fontes de inspiração.

Leyenda

Zhangjiajie também tem se tornado referência em esportes radicais, com atividades como tirolesa, bungee jumping e escalada em rocha, além de competições de asa-delta e parapente, paraquedismo, corridas de aviões ultraleves e torneios de ciclismo. Essas práticas criam novos caminhos para a criação artística, o que se refletiu em algumas obras apresentadas na exposição.

Abstraindo a beleza de Zhangjiajie, o fotógrafo chinês Li Ge levou à cidade sua exposição Suspenso na Neblina, que explora luzes e sombras em silhuetas de árvores e paisagens para criar trabalhos abstratos com profunda inspiração na cultura tradicional chinesa, chegando a sobrepor tais imagens a obras de caligrafia para evidenciar a relação entre claro e escuro, passado e presente, homem e natureza.

Um rico patrimônio cultural

Além da natureza deslumbrante, Zhangjiajie conserva um patrimônio cultural rico e único das etnias han, tujia, miao e bai, que se manifesta na culinária local, na arquitetura e no vestuário dos grupos étnicos, e em tradições e ritos transmitidos de geração em geração.

Apresentações culturais de minorias étnicas durante a cerimônia de abertura da exposição

Das três minorias étnicas locais, a tujia é a mais numerosa. As “pontes de vento e chuva”, características da arquitetura dessa etnia, são uma atração particularmente importante da região. A dança da mão oscilante, realizada em festivais, e a antiga tradição das noivas chorarem por um mês antes do casamento para expressar agradecimento aos pais são características dos tujia.

Já os miao se distinguem pelos bordados coloridos com padrões complexos que representam sua história e mitologia, e por seus belíssimos trabalhos de joalheria em prata, que incluem coroas, braceletes e colares usados pelas mulheres. Os animados festivais dessa etnia, como o Ano Novo Miao e o Festival da Colheita, também atraem muitos turistas à região.

A etnia bai, que significa “branco” em chinês, recebeu esse nome devido à predileção por trajes predominantemente brancos, por acreditarem que a cor traz boa sorte. Suas casas, com três paredes fechadas e uma frente aberta voltada para um pátio, e sua cerimônia do chá servido em três rodadas — amargo, doce e para reflexão — são características dessa etnia.

A coexistência entre os han e essas três etnias minoritárias em Zhangjiajie cria uma cena cultural tão viva e impressionante quanto as famosas paisagens naturais do lugar.

Esse caldo cultural tão rico valida as palavras de Maitri na abertura da exposição: as imagens são o meio mais poderoso de preservar e compartilhar tradições culturais.

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