APESAR DOS PESARES

Após ataque de Merz ao Brasil, Alemanha anuncia 1 bilhão de euros para fundo lançado por Lula

Maior potência econômica da Europa investirá valor expressivo no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo governo brasileiro no âmbito da COP30

O ministro do Meio Ambiente alemão, Carsten Schneider, com Lula e Marina Silva ao anunciar investimento da Alemanha no TFFF.Créditos: Ricardo Stuckert
Escrito en GLOBAL el

De BERLIM | Em meio à crise diplomática aberta pelas declarações depreciativas do chanceler alemão Friedrich Merz sobre a cidade de Belém (PA), a Alemanha anunciou um aporte de 1 bilhão de euros ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Facility – TFFF), principal aposta do governo Lula na COP30 para financiar a preservação das florestas tropicais.

O anúncio ocorreu nesta quarta-feira (19), em Belém, durante coletiva da ministra Marina Silva ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Tivemos a alegria que a Alemanha fez o anúncio do seu aporte (...) na ordem de 1 bilhão de euros para o TFFF”, disse Marina.

"A Alemanha acaba de anunciar 1 bilhão de euros para o TFFF. Um fundo que vai transformar a proteção das florestas tropicais e garantir renda para quem cuida delas. Um passo gigante para o clima e para quem vive da floresta", declarou, por sua vez, o presidente Lula. 

O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, também confirmou o investimento — gesto que veio acompanhado de uma tentativa de desarmar o mal-estar criado por Merz. Segundo Schneider, o chanceler fez uma “fala mal colocada” ao comentar sua passagem pelo Brasil e estaria se referindo apenas ao “cansaço da delegação após uma longa viagem”, não ao país ou ao povo brasileiro.

Veja vídeo do anúncio do investimento da Alemanha no TFFF: 

Fundo quer alavancar até US$ 125 bilhões

Idealizado pelo Brasil e administrado pela Banco Mundial, o TFFF combinará recursos públicos e privados para remunerar países que preservam florestas tropicais. O modelo prevê sanções a quem ampliar a destruição, com monitoramento por satélite.

A meta é captar US$ 25 bilhões em aportes públicos de países investidores, capazes de atrair capital privado e gerar uma carteira estimada em US$ 125 bilhões. O fundo prevê ainda que 20% dos recursos sejam destinados a povos indígenas. Segundo Marina Silva, a robustez do desenho financeiro já começa a produzir resultados concretos.

Com o anúncio da Alemanha, o montante prometido ao TFFF ultrapassa US$ 6,5 bilhões.

A fala depreciativa de Merz

O avanço das negociações climáticas veio logo após a crise causada pela fala de Merz. Em um congresso empresarial em Berlim, o chanceler alemão relatou que nenhum jornalista de sua comitiva gostaria de permanecer em Belém, e que todos teriam ficado “felizes” por retornar à Alemanha “daquele lugar onde estávamos”.

A reação brasileira foi imediata. O Senado aprovou um voto de censura, classificando as falas como marcadas por “um tom xenófobo e preconceituoso”. O governador do Pará, Helder Barbalho, afirmou: “Um discurso preconceituoso do chanceler alemão Friedrich Merz revela mais sobre quem fala do que sobre quem é falado.” O prefeito de Belém, Igor Normando, também criticou: “Cada um dá o que tem e, infelizmente, o Chanceler Alemão destila preconceito e arrogância na sua fala (…) nós continuaremos tratando com respeito e alegria todos que nos visitam.”

Lula reagiu com ironia e defesa enfática da capital paraense:

“Ele devia ter ido num boteco no Pará, devia ter dançado no Pará, devia ter provado a culinária do Pará, porque ia perceber que uma Berlim não oferece pra eles 10% da comida, 10% da qualidade que oferece o Estado do Pará.”

Berlim recua — e não recua

Apesar da mediação de Schneider, ministro do Meio Ambiente da Alemanha, o governo alemão rejeitou a ideia de retratação. Em Berlim, o porta-voz Stefan Kornelius afirmou que Merz não pedirá desculpas pela declaração depreciativa sobre Belém e negou que tenha havido dano diplomático.

Segundo Kornelius, o chanceler não expressou “desagrado” ou “nojo”, apenas reiterou que considera a Alemanha “um dos países mais bonitos do mundo”. Ele afirmou ainda que “não é condenável que o chanceler alemão faça uma pequena distinção ao dizer que vive em um dos países mais bonitos do mundo”, acrescentando que o Brasil “certamente também pertence aos mais belos países do planeta”.

Ruídos internos na Alemanha

As falas de Merz também repercutiram negativamente dentro da Alemanha, onde o chanceler já vinha sendo criticado por discursos afinados com a retórica da extrema direita. Organizações ambientais reagiram com dureza. Martin Kaiser, diretor do Greenpeace Alemanha, declarou:

“Acredito que muitos membros das ONGs alemãs e da delegação sentiram uma vergonha alheia com a declaração de Friedrich Merz (…) O Sr. Friedrich Merz deve pedir desculpas ao povo de Belém.”

Schneider, por sua vez, buscou distanciamento:

“O Brasil é um país maravilhoso, com um povo acolhedor e bom anfitrião. Pena que não poderei ficar mais tempo após a COP. Teria algumas ideias, por exemplo, pescar com os meus amigos da Amazônia.”

Diplomacia climática continua

Mesmo cercado pela controvérsia, o anúncio do aporte alemão reforça o peso do TFFF na estratégia brasileira para transformar a proteção de florestas em ativo econômico global.

Se o chanceler Merz abriu uma crise, o governo alemão — ou parte dele — procurou ao menos impedir que o episódio contaminasse a cooperação ambiental entre os dois países.

O presidente Lula deixou Belém na noite de quarta-feira rumo a Brasília e segue, na quinta, para compromissos em São Paulo, antes de embarcar para a Cúpula do G20, na África do Sul.

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