De BERLIM | O chanceler alemão Friedrich Merz comentou nesta quarta-feira (19), pela primeira vez, a crise desencadeada por sua fala depreciativa sobre Belém (PA), afirmando não ver prejuízo à relação entre Alemanha e Brasil. Em Berlim, ao lado do premiê sueco Ulf Kristersson, Merz citou o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva ao responder a uma pergunta sobre as críticas que vem recebendo sobre a declaração em questão.
“Eu disse que a Alemanha é um dos países mais bonitos do mundo, e isso o presidente Lula provavelmente também aceitará.”
Veja vídeo [em alemão]:
Ele acrescentou que conversará com Lula na Cúpula do G20 em Joanesburgo, na África do Sul, no próximo fim de semana, de forma “totalmente despreocupada”, insistindo que o episódio não afetou a diplomacia bilateral. Antes disso, o porta-voz do governo, Stefan Kornelius, havia afirmado que Merz não pediria desculpas.
Te podría interesar
A manifestação pública do chanceler coincidiu com o anúncio, no Brasil, de que a Alemanha destinará 1 bilhão de euros ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Facility – TFFF), principal iniciativa lançada por Lula durante a COP30 para financiar a proteção das florestas tropicais.
Alemanha anuncia 1 bilhão de euros após polêmica
Em Belém, a ministra Marina Silva comunicou o investimento ao lado de Lula:
“Tivemos a alegria que a Alemanha fez o anúncio do seu aporte (...) na ordem de 1 bilhão de euros para o TFFF.”
O presidente reforçou:
"A Alemanha acaba de anunciar 1 bilhão de euros para o TFFF. Um fundo que vai transformar a proteção das florestas tropicais e garantir renda para quem cuida delas. Um passo gigante para o clima e para quem vive da floresta."
O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, também confirmou o aporte, tentando amenizar o mal-estar. Segundo ele, o chanceler fez uma “fala mal colocada”, e se referia apenas ao cansaço da comitiva após uma longa viagem — não ao Brasil ou ao povo brasileiro.
Com o anúncio alemão, o volume comprometido ao TFFF já ultrapassa US$ 6,5 bilhões. O fundo, administrado pelo Banco Mundial, pretende captar US$ 25 bilhões em aportes públicos capazes de mobilizar até US$ 125 bilhões em investimentos privados, destinando 20% dos recursos a povos indígenas.
O que Merz disse sobre Belém
A crise começou quando Merz, falando a empresários em Berlim após uma visita à COP30, relatou que perguntou a jornalistas de sua equipe se alguém gostaria de permanecer em Belém — e que ninguém teria levantado a mão. Ele prosseguiu: “Eles estavam todos felizes por termos retornado à Alemanha, principalmente daquele lugar onde estávamos.”
Em seguida, arrematou: “Vivemos em um dos países mais bonitos do mundo.”
A reação brasileira foi imediata. O Senado aprovou um voto de censura, classificando a fala como marcada por “tom xenófobo e preconceituoso”.
O governador do Pará, Helder Barbalho, afirmou:
“Um discurso preconceituoso do chanceler alemão Friedrich Merz revela mais sobre quem fala do que sobre quem é falado.”
O prefeito de Belém, Igor Normando, também criticou:
“Cada um dá o que tem e, infelizmente, o Chanceler Alemão destila preconceito e arrogância na sua fala (…) nós continuaremos tratando com respeito e alegria todos que nos visitam.”
Lula respondeu com ironia e defesa da capital paraense:
“Ele devia ter ido num boteco no Pará, devia ter dançado no Pará, devia ter provado a culinária do Pará, porque ia perceber que uma Berlim não oferece pra eles 10% da comida, 10% da qualidade que oferece o Estado do Pará.”
Repercussão dentro da Alemanha
As falas de Merz também provocaram desconforto interno. Organizações ambientais e setores da política alemã afirmaram que o chanceler reforçou estereótipos negativos e prejudicou a imagem do país.
Martin Kaiser, diretor do Greenpeace Alemanha, declarou:
“Acredito que muitos membros das ONGs alemãs e da delegação sentiram uma vergonha alheia com a declaração de Friedrich Merz (…) O Sr. Friedrich Merz deve pedir desculpas ao povo de Belém.”
Schneider, por sua vez, buscou afastamento da fala:
“O Brasil é um país maravilhoso, com um povo acolhedor e bom anfitrião. Pena que não poderei ficar mais tempo após a COP. Teria algumas ideias, por exemplo, pescar com os meus amigos da Amazônia.”
Cooperação climática
Mesmo cercado pela controvérsia, o aporte bilionário alemão reforça o papel estratégico do TFFF para transformar a proteção das florestas tropicais em ativo econômico global.
Lula deixou Belém na noite de quarta-feira rumo a Brasília e segue posteriormente para compromissos em São Paulo, antes de embarcar para a Cúpula do G20, na África do Sul — onde terá o primeiro encontro presencial com Merz desde o episódio.