De BERLIM | O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou, durante cerimônia no Palácio do Planalto nesta quarta-feira (26), que teve uma conversa com Friedrich Merz sobre o ataque promovido pelo chanceler alemão à cidade de Belém (PA), que gerou repercussão negativa tanto no Brasil quanto na Alemanha.
A conversa se deu no último sábado (22), em reunião paralela à Cúpula do G20, em Joanesburgo, na África do Sul. Duas semanas antes, após retornar da COP30 em Belém, Merz, durante um evento em Berlim, disparou falas depreciativas sobre a capital paraense, afirmando que sua equipe e jornalistas alemães teriam ficado felizes de deixarem "aquele lugar". A declaração foi considerada xenofóbica e um desrespeito ao Brasil e aos brasileiros.
Te podría interesar
Dias depois, Lula reagiu afirmando que Merz deveria ter conhecido melhor a cidade de Belém, desfrutando a cultura local. Já em Joanesburgo, o presidente brasileiro teve uma reunião com o chanceler alemão e tratou do assunto.
Ao detalhar a conversa nesta quarta-feira, Lula alfinetou Merz, se referindo a ele como "aquele rapaz da Alemanha".
Te podría interesar
"Aquele rapaz da Alemanha que falou mal de Belém, eu encontrei com ele. Falei: 'Companheiro, nossa cabeça pensa onde nossos pés pisam. Só que você foi pisar no Brasil e sua cabeça não saiu de Berlim. Você não conheceu Belém. Não foi dançar um carimbó, comer uma maniçoba...", iniciou Lula.
"Então, faça como eu. Quando eu viajo para Berlim, não fico querendo comer feijoada, acarajé. Eu quero comer joelho de porco, eu quero comer linguicinha frita na carroça, salsicha, chucrute. Quando você voltar para o Brasil, fique no Brasil que você vai ver que é um lugar muito bom", emendou o presidente.
Veja vídeo:
Merz: "Vou explorar mais"
No último sábado, Friedrich Merz já havia se pronunciado sobre o encontro com Lula. Ele afirmou, através das redes sociais, que da próxima vez em que estiver em Belém, "vai explorar mais" a cidade, seguindo a sugestão do presidente brasileiro.
"Foi um prazer revê-lo hoje, Presidente @LulaOficial. Na próxima vez que estiver em Belém, explorarei mais – desde os passos de dança à gastronomia local e à floresta tropical. Espero fortalecer ainda mais nossa relação de parceria e amizade", escreveu o chanceler alemão.
1 bilhão de euros após polêmica
A fala de Merz sobre o encontro com Lula veio dias após a Alemanha anunciar que destinará 1 bilhão de euros ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Facility – TFFF), principal iniciativa lançada por Lula durante a COP30 para financiar a proteção das florestas tropicais.
O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, ao lado de Lula em Belém, confirmou o aporte, tentando amenizar o mal-estar causado por Merz. Segundo ele, o chanceler fez uma “fala mal colocada”, e se referia apenas ao cansaço da comitiva após uma longa viagem — não ao Brasil ou ao povo brasileiro.
Com o anúncio alemão, o volume comprometido ao TFFF já ultrapassa US$ 6,5 bilhões. O fundo, administrado pelo Banco Mundial, pretende captar US$ 25 bilhões em aportes públicos capazes de mobilizar até US$ 125 bilhões em investimentos privados, destinando 20% dos recursos a povos indígenas.
O que Merz disse sobre Belém
A crise começou quando Merz, falando a empresários em Berlim após uma visita à COP30, relatou que perguntou a jornalistas de sua equipe se alguém gostaria de permanecer em Belém — e que ninguém teria levantado a mão. Ele prosseguiu: “Eles estavam todos felizes por termos retornado à Alemanha, principalmente daquele lugar onde estávamos.”
Em seguida, arrematou: “Vivemos em um dos países mais bonitos do mundo.”
Lula, dias depois, respondeu com ironia e defesa da capital paraense:
“Ele devia ter ido num boteco no Pará, devia ter dançado no Pará, devia ter provado a culinária do Pará, porque ia perceber que uma Berlim não oferece pra eles 10% da comida, 10% da qualidade que oferece o Estado do Pará.”
Repercussão dentro da Alemanha
As falas de Merz também provocaram desconforto interno. Organizações ambientais e setores da política alemã afirmaram que o chanceler reforçou estereótipos negativos e prejudicou a imagem do país.
Martin Kaiser, diretor do Greenpeace Alemanha, declarou:
“Acredito que muitos membros das ONGs alemãs e da delegação sentiram uma vergonha alheia com a declaração de Friedrich Merz (…) O Sr. Friedrich Merz deve pedir desculpas ao povo de Belém.”
Schneider, por sua vez, buscou afastamento da fala:
“O Brasil é um país maravilhoso, com um povo acolhedor e bom anfitrião. Pena que não poderei ficar mais tempo após a COP. Teria algumas ideias, por exemplo, pescar com os meus amigos da Amazônia.”