MARCO HISTÓRICO

No aniversário da queda do Muro de Berlim, presidente alemão prega combate à extrema direita

Frank-Walter Steinmeier afirma que, desde a reunificação da Alemanha, democracia do país nunca esteve tão ameaçada

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier durante discurso sobre os 36 anos da queda do Muro de Berlim.Créditos: MARYAM MAJD / POOL / AFP
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De BERLIM | No aniversário de 36 anos da queda do Muro de Berlim, a Alemanha celebra neste domingo (9) um dos dias mais simbólicos de sua história sob o peso de uma preocupação crescente: o avanço da extrema direita. Em cerimônia no Palácio Bellevue, em Berlim, o presidente Frank-Walter Steinmeier fez um apelo contundente pela defesa da democracia e pelo combate ao extremismo. 

“Nunca na história do nosso país reunificado, a democracia e a liberdade estiveram tão atacadas”, afirmou Steinmeier. Segundo ele, essas conquistas estão hoje ameaçadas “por forças de extrema direita que atacam nossa democracia e ganham apoio na população”.

O discurso ocorre em meio a um cenário político tenso. Nas últimas semanas, o chanceler federal Friedrich Merz (CDU) foi alvo de protestos em todo o país após associar imigração a “problemas na paisagem urbana” e recusar-se a se desculpar. A fala foi interpretada como uma aproximação com a retórica do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que cresce de forma constante nas pesquisas e já lidera em alguns estados do leste alemão.

Milhares de manifestantes foram às ruas recentemente nas principais cidades alemãs, sob o lema “Nós somos as filhas”, em resposta à frase do chanceler — que, questionado sobre suas declarações, disse a jornalistas para “perguntar às suas filhas” o que achavam do tema. O movimento, liderado por jovens mulheres e ativistas, defendeu que o verdadeiro problema do país é o racismo, não a imigração.

Diante desse contexto, Steinmeier usou o discurso deste domingo para reafirmar os valores democráticos e alertar para o perigo de normalizar o extremismo. “Esperar que a tempestade passe e se abrigar em segurança não basta. Devemos agir. Podemos agir!”, declarou.

Sem mencionar a AfD, o presidente afirmou que não deve haver cooperação política com extremistas “nem no governo, nem nos parlamentos”, e classificou o banimento de partidos antidemocráticos como “a última medida de uma democracia que precisa se defender”.

Um dia de luz e sombra

O 9 de novembro é conhecido como um Schicksalstag — um “dia do destino” — na história alemã. A data reúne três acontecimentos que definiram o país:

  • 1918: a proclamação da República de Weimar, quando o social-democrata Philipp Scheidemann anunciou o fim do Império Alemão e a criação da primeira república do país;
  • 1938: a Noite dos Cristais (ou Reichspogromnacht), quando sinagogas e estabelecimentos judaicos foram incendiados em toda a Alemanha, marcando o início da perseguição sistemática aos judeus pelo regime nazista;
  • 1989: a queda do Muro de Berlim, símbolo do fim da Guerra Fria e da reunificação alemã.

“O 9 de novembro representa luz e sombra — os abismos mais profundos e as horas mais felizes da nossa história”, disse Steinmeier. Ele destacou que a data toca “o núcleo da identidade alemã” e lembra “tanto os caminhos para a liberdade quanto os horrores do antissemitismo e da violência”.

Friedrich Merz

Em mensagem oficial, o chanceler Friedrich Merz também comentou a importância do 9 de novembro. “Este dia nos lembra o quanto a história pode mudar rapidamente, o quanto a democracia vale e o quanto é importante defender nossa liberdade”, declarou. Merz disse que a data simboliza “a força da liberdade e o preço da sua perda”, e pediu que os alemães “protejamos essa liberdade, hoje e no futuro”.

Apesar do tom institucional, o chanceler enfrenta crescente isolamento político, inclusive dentro do próprio partido, após suas declarações sobre imigração. Integrantes da União Democrata-Cristã (CDU) e aliados na coalizão de governo alertam que a retórica de Merz fortalece justamente o discurso extremista que o país tenta conter.

Steinmeier, por sua vez, reforçou que há muito a ser feito para preservar a confiança nas instituições.

“Os extremistas de direita seduzem com o doce veneno da raiva. Prometem liderança autoritária e dizem que a Alemanha deve voltar a ser ‘grande’. Mas nós, democratas, temos muito a oferecer: temos o direito, a liberdade, a humanidade e o conhecimento sobre onde o ódio pode nos levar.”

*Com informações da AFP

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