Reunindo quase cinco mil pessoas no Parque da Mooca, em São Paulo, no úlitmo final de semana (29), o Movimento Brasil Livre firmou um compromisso que vai muito além da política institucional.
Entre declarações sobre “missão geracional e civilizacional”, a presença de Curtis Yarvin, o escritor que se tornou referência intelectual da nova direita americana, funcionou como eixo simbólico do evento. Israel Russo, coordenador do movimento, e outras lideranças celebraram sua participação como se ela marcasse a entrada do MBL em uma rota global.
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Curtis Yarvin, conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug, despontou como um dos pensadores centrais do neorreacionarismo (NRx) com textos longos, densos e irônicos publicados no blog Unqualified Reservations — especialmente as séries “Open Letter to Open-Minded Progressives” e “An Open Letter to Humanity”, que se tornaram leitura obrigatória para quem frequenta subculturas políticas da internet.
Em seus escritos, Yarvin rejeita o liberalismo, desacredita a democracia constitucional e apresenta o Iluminismo como uma narrativa histórica fracassada. Nesse conjunto de negações — que Nick Land, pensador aceleracionista, chegou a batizar de "iluminismo das trevas" — ele constrói um sistema próprio, em que as instituições modernas não são apenas imperfeitas, mas estruturalmente incapazes de produzir ordem.
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O conspiracionismo da "Cathedral"
É nesse ponto que surge a noção de Cathedral, talvez seu conceito mais difundido. A Cathedral é descrita como uma rede informal, mas extremamente poderosa, formada pela mídia, pelas universidades e pela burocracia pública, responsável por definir consensos e moldar imaginários.
Não se trata, assim, de uma instituição física; a Cathedral seria uma espécie de engrenagem cultural que, para Yarvin, estabiliza o progressismo como única visão possível do mundo. A força do conceito não está no rigor empírico, mas no apelo simbólico: fornece uma explicação totalizante para a sensação difusa de que o “sistema” opera segundo interesses invisíveis.
A partir disso, Yarvin propõe uma alternativa radical: substituir o Estado democrático por um modelo corporativo, em que o poder é concentrado em um executivo forte — um CEO soberano, capaz de decidir sem mediações. Ele chama isso de neocameralismo, um arranjo no qual os cidadãos deixam de ser eleitores e passam a funcionar como acionistas. A política, nesse desenho, é administrada como empresa; a legitimidade decorre da eficiência, não da participação.
Glosando Yarvin, escreve Land em seu livro The Dark Enlightenment (2012):
Seu despertar para a neorreação vem com o reconhecimento (hobbesiano) de que a soberania não pode ser eliminada, enjaulada ou controlada. Utopias anarcocapitalistas jamais podem se condensar a partir da ficção científica; poderes divididos se unem como um Exterminador do Futuro em pedaços, e as constituições têm exatamente tanta autoridade real quanto o poder interpretativo soberano lhes permite ter. O Estado não vai a lugar nenhum porque — para aqueles que o governam — não vale a pena abrir mão dele e, como instanciação concentrada da soberania na sociedade, ninguém pode obrigá-lo a fazer nada. Se o Estado não pode ser eliminado, argumenta Moldbug, ao menos pode ser curado da democracia (ou do mau governo sistemático e degenerativo), e a maneira de fazer isso é formalizá-lo. Essa é a abordagem que ele chama de “neocameralismo”.
Para um neocameralista, um Estado é uma empresa que possui um país. Ele deve ser administrado, como qualquer outra grande empresa, dividindo sua propriedade lógica em ações negociáveis, cada uma rendendo uma fração precisa do lucro estatal. (Um Estado bem administrado é muito lucrativo.) Cada ação dá direito a um voto, e os acionistas elegem um conselho responsável por contratar e demitir gestores. Os clientes dessa empresa são seus moradores. Um Estado neocameralista administrado de forma lucrativa atenderia, como qualquer empresa, seus clientes com eficiência e eficácia. Má governança é sinônimo de má gestão.
Essa arquitetura teórica tem como alvo dois pilares do Iluminismo: a democracia representativa e o igualitarismo político. Yarvin argumenta que a modernidade criou um “vírus moral”, a ideia de que todos devem governar. Para ele, governar é tarefa de poucos, e a estabilidade nasce da autoridade concentrada — não do debate, não da disputa, não da fricção democrática. É por isso que suas influências vão de Thomas Carlyle a James Burnham, passando por autores monarquistas e críticos do liberalismo do século XIX, sempre combinadas com uma linguagem digital de subcultura, típica da blogosfera dos anos 2000.
No espaço digital, essas ideias se espalharam com velocidade. A estética fragmentada de Yarvin e sua escrita que mistura história, programação, filosofia política e sarcasmo fizeram dele um autor influente entre jovens intelectuais conservadores, libertários radicais e comunidades online que enxergam na democracia um mecanismo exaurido.
Sua relação com governos estabelecidos, a exemplo do trumpismo, é evidente tanto no campo simbólico quanto estratégico. Embora nunca tenha sido assessor assessor de Trump, as ideia de Yarvin circularam entre figuras próximas ao atual presidente americano como Steve Bannon e o investidor bilionário Peter Thiel, ajudando a formar um clima intelectual que normalizou a crítica total à democracia liberal que era, até ontem, ainda defendida retoricamente por membros do próprio MBL como forma de distinção ao golpismo radical dos bolsonaristas.
Assim, nos Estados Unidos, parte da alt-right e do ecossistema MAGA encontrou nos textos do autor um vocabulário para traduzir o ressentimento contra instituições culturais e científicas. Ainda que não seja nova, a tese conspiratória de que o Estado estaria capturado por uma elite progressista, compatível com a narrativa trumpista da “pátria sequestrada”, desembarca agora oficialmente no Brasil em meio a um discurso abertamente antidemocrático e a estética integralista que marcou o festival do MBL.
Ao dar palco a Curtis Yarvin e tratá-lo como guru de uma missão global, geracional e civilizacional, o festival do MBL não está só importando um nome da moda na nova direita americana. Está importando, junto, um roteiro elaborado de desmontagem da democracia sob a linguagem da gestão e da eficiência.
A questão, para o debate público brasileiro, é direta: até que ponto essa agenda será assumida como programa político – e quanto da nossa própria experiência democrática se está disposto a sacrificar em nome desse novo iluminismo às avessas.