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'Violência': a última palavra de Charlie Kirk e o eixo de sua militância

Ativista aliado de Trump é morto em evento nos EUA; episódio gera comoção internacional e expõe riscos da radicalização da extrema direita

'Violência': a última palavra de Charlie Kirk e o eixo de sua militância.Ativista aliado de Trump é morto em evento nos EUA; episódio gera comoção internacional e expõe riscos da radicalização da extrema direitaCréditos: Reprodução X - Últimos momentos de vida de Charlie Kirk
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A morte do ativista de extrema direita Charlie Kirk, aliado próximo de Donald Trump e diretor executivo da Turning Point USA (TPUSA), a principal organização juvenil conservadora do país, repercutiu em várias partes do mundo.

Kirk nasceu em 1993, nos subúrbios de Chicago. Filho de uma conselheira de saúde mental e de um arquiteto, largou a faculdade ainda cedo para se dedicar à militância política. Em 2021, casou-se com Erika Frantzve, ex-Miss Arizona e ativista cristã. O casal teve dois filhos, em 2022 e 2024, que sempre foram mantidos longe da exposição pública.

Nos Estados Unidos, Trump gravou um vídeo do Salão Oval da Casa Branca em um pronunciamento no qual descreveu o assassinato como um momento sombrio para o país. Chamou Kirk de “campeão da liberdade” e “inspiração para milhões”, ressaltando seu papel central entre jovens conservadores.

Sem apresentar provas, Trump acusou a “radical left” (esquerda radical) de criar um clima de hostilidade política que teria alimentado a violência. Anunciou ainda que concederá a Kirk, postumamente, a Presidential Medal of Freedom, a mais alta condecoração civil do país. O presidente pediu orações pela família, lembrando Kirk como um homem de fé. 

Enquanto isso, o FBI coordena uma ampla caçada para identificar e capturar o autor do disparo durante o evento em Utah. A agência está oferecendo uma recompensa de 100 mil dólares a quem oferecer informações que levam à prisão dos responsáveis pelo assassinato de Kirk.

Reação de lideranças globais

Lideranças da extrema direita mundial também se manifestaram. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chamou Kirk de “amigo corajoso de Israel” e afirmou que ele foi “assassinado por falar a verdade e defender a liberdade”.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, classificou o episódio como “chocante” e um “crime atroz”, descrevendo o assassinato como uma ferida profunda para a democracia.

Na Hungria, o premiê Viktor Orbán responsabilizou o que chamou de “progresso-liberalismo” — a esquerda progressista — por alimentar uma retórica de ódio que teria consequências diretas no espaço público.

Outros líderes, embora não alinhados à ultradireita, também se pronunciaram. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, de centro-liberal, destacou que “não há justificativa para violência política” e que ataques assim ameaçam diretamente a democracia.

Já o chefe de governo do Reino Unido, Keir Starmer, trabalhista de centro-esquerda, defendeu o debate aberto e sem medo, reforçando que a violência não pode ser usada como forma de disputa ideológica.

Essas reações mostram que a morte de Kirk ultrapassou o debate interno dos Estados Unidos e repercutiu globalmente, sendo interpretada como mais um alerta sobre os riscos da radicalização política e da ascensão da extrema direita.

Reação da extrema direita bolsonarista

Nomes ligados ao bolsonarismo também reagiram à morte de Charlie Kirk. Direto dos EUA, de onde conspira contra o Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e notório traidor da Pátria, publicou uma longa homenagem. Lembrou encontros pessoais com Kirk nos EUA e destacou sua influência entre jovens conservadores. 

Eduardo chamou o extremista de “brilhante” e “corajoso”, exaltando seu papel na criação de um império político voltado à juventude de direita. Fez ainda um paralelo pessoal, dizendo que a tragédia o levou a refletir sobre sua própria família. 

“Atividade política sendo de direita é algo perigoso, mas não há vida sem sacrifício”, escreveu em tom vitimista.

Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), uma espécie de gêmeo ideológico de Kirk por sua postura provocadora nas redes e defesa de pautas ultraconservadoras ligadas à religião, ao combate à chamada “ideologia de gênero” e à oposição a políticas de direitos humanos, também se manifestou.

Em inglês, prestou homenagem ao ativista da extrema direita, a quem elevou à condição de mártir. Em tom messiânico e megalomaníaco, Nikolas descreveu a morte de Kirk como um chamado à resistência política e religiosa, transformando a tragédia em combustível para sua própria narrativa extremista.

“De cada lágrima nasce a coragem; de cada injustiça se forja a resistência.”

O que aconteceu

Reprodução X

Charlie Kirk participava de um evento da série “The American Comeback Tour” (“A Volta da América”), organizada pela TPUSA. A turnê foi planejada para percorrer universidades em diferentes estados dos EUA com o objetivo de mobilizar jovens conservadores em torno de pautas como o direito às armas, críticas à chamada “ideologia de gênero” e defesa de Trump.

A primeira parada foi justamente na Utah Valley University (UVU), em Orem, perto de Salt Lake City — o local onde Kirk foi assassinado. Depois de Utah, a agenda previa passagens por instituições como a University of Minnesota (Minneapolis), a Virginia Tech (Blacksburg), a Utah State University (Logan), além de outras universidades já confirmadas: Montana State University (Bozeman), University of North Dakota (Grand Forks), Indiana University (Bloomington), Louisiana State University (Baton Rouge) e University of Mississippi (Oxford, conhecida como Ole Miss).

Na UVU, Kirk participava de um formato chamado “Prove Me Wrong Table” (“Mesa do Me Prove que Estou Errado”), que propunha debates abertos com estudantes sobre temas polêmicos da política norte-americana. O espaço estava decorado com slogans como “The American Comeback” e “Prove Me Wrong”, além de faixas, banners e os tradicionais bonés vermelhos com o lema MAGA — “Make America Great Again” (“Fazer a América Grande Novamente”), marca registrada da campanha de Trump.

Segundo autoridades locais, cerca de 3 mil pessoas participaram da atividade, entre apoiadores, curiosos e críticos. Mas a segurança foi alvo de críticas: não havia detectores de metal nem revistas rigorosas, o que pode ter facilitado a ação do atirador.

Foi nesse contexto que Kirk, vestindo uma camiseta branca com a palavra “Freedom” (“Liberdade”) estampada em preto, respondia a uma pergunta sobre tiroteios em massa quando foi atingido por um disparo à distância. O tiro interrompeu o evento de forma trágica e gerou comoção imediata em todo o país.

Vídeos que circulam nas redes mostram o ativista conservador de 31 anos sentado sob uma tenda em um pátio da universidade, até que um único disparo ecoou e acertou seu pescoço. No momento do ataque, ele respondia a uma pergunta sobre o número de tiroteios em massa nos EUA nos últimos anos. Suas últimas palavras foram: “Counting or not counting gang violence?” (“Contando ou não contando a violência de gangues?”, em tradução livre).

A ironia trágica é que a última palavra dita por Kirk foi justamente “violência”. Segundos depois, tombou para trás na cadeira, gravemente ferido. Foi levado ao hospital, mas não resistiu ao disparo.

Quantidade de tiroteios em massa nos EUA

Kirk não respondeu com precisão a última pergunta feita a ele. Nos Estados Unidos, o número de tiroteios em massa varia bastante de acordo com a definição adotada.

Pelo critério mais usado pela imprensa, o do Gun Violence Archive (GVA), considera-se tiroteio em massa qualquer caso com quatro ou mais pessoas baleadas, sem incluir o atirador. Nesse cálculo, entre 2015 e 2024 foram registrados cerca de 4,8 mil a 5 mil episódios. Só em 2023 houve mais de 650 registros e, em 2024, aproximadamente 500.

Em 2025, até o fim de agosto, o GVA contabilizou 309 tiroteios em massa, que deixaram ao menos 302 mortos e 1.354 feridos . Esse número está abaixo da média anual dos últimos dois anos, mas ainda indica a persistência do problema.

Outros levantamentos adotam critérios mais restritivos. É o caso do banco de dados da Mother Jones, revista progressista reconhecida pelo jornalismo investigativo e pelo trabalho com dados, especialmente no tema da violência armada nos Estados Unidos. 

Nesse levantamento, entram apenas ataques públicos com múltiplas mortes, deixando de fora casos ligados a gangues ou à violência doméstica. Com essa régua mais estreita, o total de episódios cai drasticamente: em vez de milhares por década, são apenas algumas dezenas.

Já o FBI utiliza a categoria de “atirador ativo” (active shooter), que inclui incidentes em locais públicos, mesmo que não envolvam múltiplas vítimas fatais. Por essa métrica, a média é de 20 a 40 episódios por ano, o que equivale a algo entre 200 e 400 casos na última década. 

Pela definição do FBI, Kirk é considerado uma das vítimas desse tipo de ocorrência: um ataque em espaço público, durante um evento universitário, em que um agressor armado dispara contra pessoas em meio a uma atividade coletiva.

Dependendo da definição, os últimos dez anos registraram dezenas, centenas ou milhares de tiroteios em massa. Mas, para a pergunta feita a Charlie Kirk no evento em Utah, o parâmetro mais usado e divulgado é o do GVA, que aponta um total próximo de 5 mil tiroteios em massa na última década — incluindo os 309 já registrados em 2025.

Violência como guia político

Assim como “violência” foi sua última palavra em vida, também foi o eixo que guiou parte da sua agenda política.

Considerado um dos ativistas ultraconservadores mais influentes dos Estados Unidos, Kirk moldou o movimento juvenil da direita radical e tornou-se referência para jovens cristãos conservadores. No momento do ataque, respondia a perguntas sobre política de gênero e armas, temas centrais de sua atuação.

Pautas defendidas por Kirk

Controle de armas – Defensor ferrenho da Segunda Emenda, dizia que mortes por armas eram um “custo inevitável” para garantir liberdades constitucionais. Defendia a presença de armas até em escolas.

Identidade de gênero – Atacava direitos LGBTQ+ e incentivava denúncias contra professores acusados de propagar “ideologia de gênero”. Em 2021, fundou a TPUSA Faith, braço religioso da Turning Point.

Imigração – Apoiado em Donald Trump, endossava a teoria conspiratória da Great Replacement, segundo a qual imigrantes substituiriam brancos nos EUA. Em 2023, afirmou em seu podcast que comunidades judaicas promoviam “ódio contra brancos”.

Mudanças climáticas – Negava o consenso científico sobre o aquecimento global e ridicularizava preocupações ambientais. Em 2024, no Reino Unido, chamou o tema de “bobagem e absurdo”.

De onde vem a influência de Kirk

A retórica de Kirk representava, para seus apoiadores, uma convocação a uma espécie de “guerra cultural”. Ele se apresentava como alguém em luta contra a esquerda radical, consolidando-se como missionário político da extrema direita ao lado de Trump.

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O ativismo cristão juvenil que influenciou Kirk tem raízes nos anos 1980, com a Teen Mania Ministries, fundada em 1986. A organização mobilizava multidões de jovens evangélicos em eventos e campanhas contra a cultura pop e os direitos LGBTQ+.

Adolescente durante o auge da Teen Mania, Kirk não participou diretamente, mas absorveu o caldo cultural do movimento. Esse ambiente de fervor religioso e combate cultural ajudou a pavimentar o terreno para novas formas de ativismo conservador.

Em 2012, ao lado de Bill Montgomery, fundou a Turning Point USA (TPUSA), voltada para mobilizar estudantes em defesa de pautas conservadoras. A organização cresceu, criou divisões como a TPUSA Faith, investiu em comunicação digital e se consolidou como protagonista nas guerras culturais americanas.

Hoje, a TPUSA é a maior organização conservadora juvenil dos EUA, com enorme capacidade de mobilização. Sua trajetória mostra como a militância cristã ultraconservadora migrou da evangelização em arenas lotadas para a disputa política nas redes sociais e universidades.

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