Nos Estados Unidos, um senador trumpista transformou um alerta de saúde pública em cena digna de ficção científica. John Kennedy, republicano da Louisiana — sem qualquer parentesco com a família de John F. Kennedy —, aproveitou uma audiência no Senado sobre contaminação da água para declarar que comer camarões congelados importados da Indonésia poderia deixar alguém parecido com o monstro do filme Alien.
Com direito a exibir no telão a imagem do chestburster — a criatura que explode do peito no clássico de 1979 —, Kennedy afirmou que a ameaça era real: os camarões estariam contaminados com césio-137, um isótopo radioativo.
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“Esta é uma fotografia do alienígena do filme Alien. É assim que você pode acabar ficando se comer alguns dos camarões congelados crus que estão sendo enviados aos Estados Unidos por outros países.”
Ele levou a comparação ao extremo.
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“O camarão estava radioativo. Não estou brincando. Ele tinha um isótopo chamado césio-137. Isso vai te matar. Mesmo que não te transforme no alien, se você comer essa coisa, garanto que vai crescer uma orelha extra.”
O senador ainda citou dados oficiais.
“A FDA e a NOAA descobriram que havia 26.460 pacotes de camarão para coquetel e 18.000 sacos de camarão cozido congelado sendo vendidos, novamente contendo o mesmo isótopo radioativo.”
E concluiu criticando a fiscalização feita no país.
“Como isso pôde acontecer nos Estados Unidos? … apenas cerca de 1%; em um bom dia, 2%. O Reino Unido inspeciona 50%. Até a China faz um trabalho melhor do que os Estados Unidos da América. Isso é inadmissível.”
Apesar do tom caricato, havia um fundo de verdade. A FDA realmente determinou o recall de lotes vendidos em redes como Walmart e Kroger após identificar traços de césio-137. A agência ressaltou, porém, que os níveis não eram suficientes para causar efeitos imediatos, apenas um risco de longo prazo ligado à exposição contínua, como aumento da chance de câncer.
No fim, a performance de Kennedy acabou roubando a cena. Afinal, não é todo dia que um senador norte-americano recorre a Alien para falar de camarão radioativo.
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Quem é John Kennedy
John Kennedy, senador republicano da Louisiana, é um dos aliados mais consistentes de Donald Trump no Senado. Conhecido por seu estilo populista e direto, recheado de frases de efeito, agrada a base trumpista com discursos que misturam humor, ironia e gafes que frequentemente viram notícia.
Durante os dois processos de impeachment contra Trump, votou pela absolvição do presidente. Em pautas centrais do trumpismo, segue a cartilha:
- Imigração: defende endurecer fronteiras e critica políticas democratas de acolhimento.
- Meio ambiente: rejeita regulações ambientais mais rígidas, alinhado ao setor de petróleo e gás da Louisiana.
- Economia: prioriza cortes de impostos e desregulamentação.
- Política externa: adota tom duro contra China e Rússia, ainda que com gafes pelo caminho.
Entre os deslizes mais notórios, em 2019 confundiu Ucrânia com Rússia ao comentar sobre interferência eleitoral, o que lhe rendeu críticas e piadas sobre alinhamento excessivo às narrativas de Trump.
Em outro episódio, declarou que “sem a fronteira, não teremos país, só um lugar onde as pessoas entram e saem como se fosse Walmart” — frase que viralizou pelo absurdo da comparação. Agora, entrou para o noticiário ao associar camarões radioativos a alienígenas no plenário do Senado, consolidando sua fama de político performático.
Alerta da FDA
A FDA descobriu que alguns lotes de camarão congelado importados da Indonésia pela empresa BMS Foods estavam contaminados com Césio-137, substância radioativa que pode trazer riscos à saúde em caso de consumo prolongado.
O primeiro recall atingiu a marca Great Value, vendida no Walmart, mas a lista se expandiu para outras, como Arctic Shores, Sand Bar, Best Yet, First Street e Great American, distribuídas em 17 estados, entre eles Califórnia, Flórida e Alabama. A FDA também emitiu alertas para produtos vendidos pela Kroger e pela AquaStar.
No total, mais de 40 mil pacotes foram retirados do mercado — cerca de 26 mil do Walmart e 18 mil da Kroger.
Segundo a agência, ninguém chegou a adoecer, já que os produtos foram identificados antes de chegarem às prateleiras. Os testes mostraram níveis de radioatividade 100 vezes acima do normal (68 Bq/kg), embora ainda abaixo do limite que obrigaria ação imediata.
Para reforçar a segurança, a BMS Foods foi incluída na lista vermelha da FDA, ficando proibida de exportar camarões aos EUA até regularizar suas condições de produção.
A franquia Alien
Lançado em 1979, o filme Alien: O Oitavo Passageiro, dirigido por Ridley Scott, mudou para sempre o cinema de ficção científica e terror. A trama acompanha a tripulação da nave Nostromo, que precisa lidar com uma criatura mortal após atender a um chamado em um planeta distante. O design do monstro, criado pelo artista suíço H. R. Giger, tornou-se um ícone cultural: uma mistura de horror biológico e futurismo, que inaugurou o termo "xenomorfo".
O sucesso do primeiro filme gerou uma das franquias mais influentes de Hollywood, com continuações marcantes. Aliens: O Resgate (1986), dirigido por James Cameron, trouxe uma abordagem mais voltada para a ação, enquanto Alien 3 (1992) e Alien: A Ressurreição (1997) expandiram o universo, ainda que de forma controversa.
Nos anos 2000, a criatura retornou em crossovers com a saga Predador, nos filmes Alien vs. Predador (2004) e Alien vs. Predador: Requiem (2007). Mais tarde, Ridley Scott retomou o comando com Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017), explorando as origens filosóficas e biológicas do monstro.
Além do cinema, a franquia se desdobrou em quadrinhos, videogames e romances, consolidando o Alien como um dos símbolos mais duradouros do medo ligado à ciência e ao espaço. A criatura também virou metáfora de ameaças invisíveis e incontroláveis — algo que explica por que ela continua sendo usada, até hoje, como referência pop em debates políticos e sociais.