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03 de novembro de 2019, 14h46

A história de preconceito que revoltou a Argentina e chegou ao presidente eleito

O fenótipo indígena e o boné virado para trás despertaram o racismo do eleitor que fez a foto e a divulgou nas redes sociais

Por Rogério Tomaz Jr.*

Ainda no domingo (27), durante a votação na Argentina, a foto abaixo começou a circular em grupos de Whatsapp e logo foi para Twitter e Facebook, já com o repúdio merecido diante da legenda preconceituosa: “Se você vota em Moreno não leve coisas de valor”.

O jovem na imagem é Braian Gallo, presidente de uma mesa de votação na escola Eugenio Asconape, do povoado Cuartel V, que fica a 40 quilômetros da cidade de Buenos Aires.

O fenótipo indígena e o boné virado para trás despertaram o racismo do eleitor que fez a foto e a divulgou nas redes sociais. Uma outra frase que circulou com a imagem era mais explícita: “Me dá a identidade [para votar] e também o celular”.

Como todo prejuízo, o ataque a Braian tinha ódio sobrando e informação faltando.

A mãe foi a primeira a defendê-lo. Veronica Sagitario lembrou que seu filho esteve durante todo o dia “cumprindo com sua obrigação cívica e moral”, sentado durante 14 horas “atendendo pessoas que não conhecia, mas sempre muito cordial”. Indignada, acrescentou: “Não entendo porque há pessoas tão, mas tão sem vida que querem sujar os outros. Senhores, graças a Deus meu filho nunca foi ladrão e sempre foi muito humilde”.

A prefeita eleita do município de Moreno, Mariel Fernández, que não é parente do futuro presidente, se somou às respostas em defesa do jovem, informando que Braian era do seu bairro e que tinha relação de parentesco com ele.

“Oxalá consigamos que outros jovens tenham a sua responsabilidade, o seu compromisso social, o seu compromisso com o trabalho e o seu compromisso político para transformar a realidade que não gostamos. Te parabenizo e estou muito orgulhosa de você”, disse Mariel, que ainda lembrou que Braian se animou a ser presidente de mesa, “quando outros nem se apresentam, porque não querem ou se assustam”.

Braian Gallo e Alberto Fernandez (Reprodução)

“O boné não muda nada”
A infame peça chegou ao conhecimento de Alberto Fernández, que bateu duro no preconceito e ainda encontrou o jovem na segunda-feira. “Isso que te aconteceu é produto de uma política que te converte em perigoso e o policial que mata pelas costas vira um herói”, disse o vencedor da eleição na véspera.

O presidente eleito lembrou que seu filho – que é drag queen e foi vítima da estupidez de Eduardo Bolsonaro – também sofreu preconceito por andar de bermuda e boné.

Durante a conversa com Braian e sua família, que durou 25 minutos, Alberto pediu o boné e o pôs na cabeça, também com a aba para trás. “Para que todos entendam como é a história. O boné não muda nada”, disse, enquanto abraçava o jovem que é pai do pequeno Mateo, esposo de Ailén, funcionário de uma cooperativa e voluntário de um clube que realiza projetos sociais com crianças de Moreno.

Mais detalhes na reportagem do Página 12

*Rogério Tomaz Jr. é jornalista, morou em Montevidéu, está escrevendo o livro “Conversando com Eduardo, viajando com Galeano”, que será publicado em 2020.


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