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15 de dezembro de 2019, 13h25

Argentina: Filhos de desaparecidos políticos na ditadura integram gabinete de Fernández

Ministérios do Interior e do Meio Ambiente, e a chefia do Instituto Nacional contra a Discriminação, Xenofobia e Racismo, serão comandados por filhos de perseguidos pelo regime militar (1976-1983)

Reprodução

Por Opera Mundi 

O novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, que tomou posse na última terça-feira (10/12) nomeou três filhos de desaparecidos políticos pela ditadura militar do país (1976-1983) para cargos de destaque em seu gabinete.

O Ministério do Interior será ocupado por Eduardo Wando de Pedro, deputado há oito anos que já desempenhou o cargo de secretário-geral da Presidência no fim do segundo mandato da atual vice-presidente Cristina Kirchner. Muito próximo da vice-mandatária, Wado de Pedro foi um dos responsáveis pela reaproximação de Fernández com Cristina.

Eduardo Wado de Pedro nasceu em novembro de 1976. Seu pai, Enrique de Pedro, assassinado em 1977 por agentes da ditadura, foi estudante de Direito, integrante da Juventude Universitária Peronista e membro do grupo guerrilheiro Montoneros. Um ano depois, em 1978, sua mãe, Lucila Révora, foi sequestrada também pelos militares. Wado de Pedro ficou sob a guarda dos agentes da ditadura até que um sacerdote conseguiu fazer com que a criança fosse entregue a sua tia, Estela Révora.

Por sua vez, o novo ministro do Meio Ambiente será Juan Cabandié, nascido em março de 1978 dentro das dependências da Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA), um dos maiores centros clandestinos de detenção de tortura das ditaduras da América Latina.

Seus pais, os dois considerados desaparecidos pela ditadura, eram militantes da Juventude Peronista e foram sequestrados em 1977. Seu pai, Damián Abel Cabandié, foi capturado com 19 anos quando estava na rua onde morava com Alicia Elena Alfonsín, mãe de Juan, sequestrada quando tinha 17 anos e estava grávida de cinco meses. No final de dezembro de 1977, Alicia foi transferida para a ESMA quando deu a luz a Juan.

Em 2003, Juan, desconfiado de sua história, procurou as Avós da Praça de Maio, grupo argentino que luta para encontrar parentes que desapareceram nas mãos dos militares durante a ditadura do país. No ano seguinte, em janeiro de 2004, foram realizados exames que comprovaram a real identidade de Juan.

De acordo com as Avós da Praça de Maio, poucos dias depois de Juan nascer, foi entregue a Luis Antonio Falco, policial membro da Polícia Federal, e para a mulher de Falco, Teresa Perrone, casal que foi denunciado para o grupo. Os pais de Juan continuam desaparecidos até hoje. Sua avó, Elena Opesso de Cabandié, o encontrou com a ajuda das Avós da Praça de Maio. Ele também ocupou o cargo de deputado no país e fez parte do grupo juvenil kirchnerista La Cámpora.

Maria Hilda Pérez e José María Laureano Donda são os pais da nova chefe do Instituto Nacional contra a discriminação, Xenofobia e Racismo (Inadi), Victoria Donda Pérez. Ambos foram sequestrados em 1977. Maria, grávida de cinco meses, foi raptada em uma via pública. Por sua vez, o paradeiro de José nunca foi conhecido. Seu último contato com sua família foi em maio do mesmo ano. O casal já tinha uma filha chamada Eva, que ficou aos cuidados da mãe de Maria Hilda. Segundo algumas testemunhas, Maria foi vista na ESMA, onde deu a luz a uma menina, Victoria.

Em 2004, Victoria Donda Pérez descobriu que era filha do casal. No ano de 2003, as Avós da Praça de Maio receberam uma denúncia de uma menina que tinha sido registrada como filha de um membro das forças de segurança apelidado de Azic e que havia trabalhado na ESMA. Com exames de DNA foi confirmado que Victoria era filha de Maria Hilda e José, ambos continuam desaparecidos.


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