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05 de novembro de 2018, 15h34

Boaventura de Sousa Santos: “A derrota da esquerda no Brasil não é alheia ao imperialismo americano”

Dessa vez, segundo ele, há um avanço da política externa estadunidense em várias frentes para frear a ameaça chinesa, que pode se consolidar como próximo país hegemônico.

Boaventura Sousa Santos

Em entrevista a Javier Martín del Barrio, no jornal espanhol El País, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, uma das maiores referências mundiais, diz que a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições presidenciais brasileiras está atrelada a uma nova investida do “imperialismo americano” – termo que, segundo ele, deixou de ser usado na mídia, mas ainda existe, “embora andassem distraídos na primeira década do século”.

Ao comentar o otimismo do mercado financeiro com a derrota do PT, o sociólogo começa a descrever os motivos desse novo levante da extrema-direita relacionada à ação do sistema financeiro e da indústria do petróleo, que têm berço sobretudo nos Estados Unidos.

“Em vez da reação das pessoas, a primeira notícia da mídia é a reação dos mercados. A Bolsa é controlada por cinco grandes instituições financeiras, que movimentam 50 trilhões dos 90 trilhões (de dólares) do PIB mundial e têm, portanto, um poder enorme de chantagem sobre os sistemas políticos nacionais. A derrota da esquerda no Brasil não é alheia ao imperialismo americano”, diz.

Segundo Boaventura, até 2009, o foco dos Estados Unidos estava concentrado no Iraque, o que abriu a janela de oportunidades para que as forças progressistas chegassem ao poder no Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador e Chile. Foi quando, segundo o sociólogo, eles descobriram que estavam perdendo a América Latina para a China.

“A China se juntou à Rússia, Índia, Brasil e África do Sul, os BRICS. Esse projeto, ao contrário do que poderíamos imaginar, era um aviso temível para os Estados Unidos. Tinha que ser neutralizado a qualquer preço porque colocaria em questão o mais sagrado do império americano, o dólar. Em 1971, deixou de estar respaldado pelo padrão-ouro, mas os EUA entraram em acordo com a família real saudita para que o dólar fosse a única moeda de pagamento das transações petrolíferas”.

De acordo com o português, qualquer ameaça para acabar com o dólar como única referência do comércio mundial provoca uma reação brutal da Casa Branca. Dessa vez, segundo ele, há um avanço da política externa estadunidense em várias frentes para frear a ameaça chinesa, que pode se consolidar como próximo país hegemônico.

“Leio atentamente todos os documentos da CIA para ver o futuro com seus olhos. A grande ameaça para manter sua hegemonia mundial é a China. Em 2030 será a primeira economia. Vivemos um intervalo entre duas globalizações. Tivemos várias desde 1870, cada uma dominada por uma inovação tecnológica, do motor a vapor à Internet. As últimas sempre foram dominadas pelos Estados Unidos, mas vamos entrar em uma nova onda de inovação, estrelada pela inteligência artificial, a robótica e a automação, e nestas áreas – ao contrário das anteriores– a China está bem posicionada. Quem dominar a nova onda será o país hegemônico”.

Onda reacionária e fake news
Para Boaventura, estamos vivendo um ciclo reacionário, típico entre intervalos das globalizações – o que faz aumentar a rivalidade e a agressividade entre os países. Para ele, a face mais visível desse processo é a do ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, que assessorou a campanha e mantém contato com a equipe de Bolsonaro no Brasil.

“Não é coincidência que a sua organização, O Movimento, tenha se instalado em Bruxelas. O seu objetivo é conseguir uma maioria de eurocéticos nas eleições europeias de maio e, assim, destruir democraticamente a UE”, diz o sociólogo.

Para ele, essa onda reacionária difere das outras, pois tenta acabar com a distinção entre ditadura e democracia a partir da disseminação das chamadas fake news. “A democracia liberal não sabe defender-se dos antidemocratas, de antissistemas como Trump ou Bolsonaro, que se aproveitam do sistema. A opinião pública é destruída com notícias falsas que transformam o adversário em inimigo; com o adversário se discute, o inimigo se destrói”.

Tomando espaços
Segundo Boaventura, essa crise tem suas causas no processo de distanciamento tanto de partidos quanto de setores da igreja das classes mais pobres.

“A Igreja Católica tinha uma forte base na América Latina com a teologia da libertação. João Paulo II a liquidou e esse vazio está sendo ocupado pela chamada teologia da prosperidade das igrejas evangélicas de influência norte-americana. Os ricos recebem a bênção de Deus, os pobres não são abençoados, são demonizados, culpados por sua pobreza. Houve um abandono das classes populares pelas elites, sejam elas políticas ou eclesiásticas”.

Em seu novo livro, Esquerda do Mundo, Uni-vos, o sociólogo propõe uma nova frente de ação para enfrentar a onda reacionária ultra-liberal que se organiza internacionalmente. “A esquerda tem que acabar com seus dogmatismos e isolacionismo e estar ciente de que neste ciclo reacionário as forças esquerdistas são as que melhor podem defender a democracia liberal, porque a direita se entregou totalmente (a esquerda, parcialmente) aos poderes financeiros”, diz ele, citando Portugal como exemplo.

“Portugal demonstrou que o neoliberalismo era uma mentira. Com soluções contrárias a essa ideologia, o Governo deu um respiro às classes populares. A economia cresce, o investimento chega, o desemprego cai. Se isso tivesse acontecido em outro país, seria notícia mundial”.


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