Bolsonaro tem mais chances de golpe eleitoral do que Trump, diz Benjamin Teitelbaum

Autor de Guerra pela Eternidade, sobre a insurgência dos movimentos de ultradireita, diz que o clima de instabilidade social gerado por Bolsonaro torna uma incógnita o que pode acontecer com o país caso o ex-presidente Lula vença as eleições

Autor de Guerra pela Eternidade, livro que resumo um estudo sobre a insurgência do movimento de ultra-direita no mundo nos últimos tempos, Benjamin Teitelbaum, professor da Universidade de Colorado, nos Estados Unidos, acredita que Jair Bolsonaro (Sem partido) tem mais chances do que Donald Trump em ser sucedido em seu plano de minar a credibilidade no sistema de votação e aplicar um golpe eleitoral nas eleições de 2022 no Brasil.

“No caso de Bolsonaro, há uma tentativa mais séria e sincera de gerar um clima de desconfiança na população. O que ele está fazendo não é tentar encontrar uma abertura legal para rejeitar um resultado eleitoral negativo, mas sim criar um ambiente político, uma abertura política. Se você tem uma porção grande da população que não ratifica a legitimidade de um processo democrático, isso é um problema. Você pode alcançar um ponto em que não importa que eles estejam errados. Democracia exige confiança por parte da população. Se 40% da população rejeitar a legitimidade de um governo ou de uma eleição, isso cria oportunidades para o perdedor da eleição manobrar e recobrar o poder. Não sei exatamente como ele faria isso, mas trata-se de uma forma de criar oportunidades políticas”, disse o pesquisador à BBC Brasil.

Segundo Teitelbaum, tanto com Trump quanto Bolsonaro o objetivo é criar oportunidades para rejeitar o resultado eleitoral. Porém, o estadunidense teria feito isso de forma mais “improvisada”, que serviu como modelo para o plano estruturado pelo brasileiro.

“No caso de Bolsonaro, os anos de elogios dele ao golpe militar e o fato de a democracia brasileira ser relativamente jovem dão um significado diferente para a estratégia de semear dúvidas sobre o processo eleitoral. Há uma seriedade maior nisso. Me parece que é algo mais pensado da parte de Bolsonaro. E é mais plausível pensar que um líder brasileiro encontre uma maneira de, numa democracia relativamente jovem, rejeitar o resultado eleitoral”, diz.

Para o pesquisador, três caracterísiticas tornam mais viável a iniciativa patrocinada por Bolsonaro do que a que foi feita por Trump nos EUA: o fato de ser uma democracia mais recente; a postura ambígua das Forças Armadas; e a existência de “ambiente” para que autoridades e apoiadores do presidente defendam abertamente regimes e ideias antidemocráticas, como o fechamento do Supremo.

“No caso do Brasil, estamos lidando com uma democracia mais jovem e, ao mesmo tempo, com um processo eleitoral que é melhor que o dos Estados Unidos. Você tem mais pessoas votando e você conta os votos muito mais rapidamente. Então, há marcadores democráticos que apontam o Brasil como um caso menos problemático quanto ao risco de fraude eleitoral. Então, temos uma democracia mais jovem, um robusto padrão de participação democrática e temos um líder que tem falado sobre golpes e tomada de poder por militares há muito tempo e que transformou em hábito celebrar a ditadura militar e lançar dúvidas ao processo eleitoral. Donald Trump, quando ele começou a semear dúvidas sobre o processo democrático, não era como se isso fosse uma parte da sua persona por décadas, como foi para Bolsonaro. Então, há uma diferença na aura de seriedade e intencionalidade no caso de Bolsonaro, que não se tinha com Trump”.

Lula
Para Teitelbaun, o clima de instabilidade social gerado por Bolsonaro torna uma incógnita o que pode acontecer com o país caso o ex-presidente Lula vença as eleições.

“Vamos supor que Lula vença. Se uma fatia considerável da população não aceitar o resultado, não acreditar que ele foi legítimo, eu não sei o que isso significa hoje. Podemos olhar para o passado. Em outras democracias jovens, isso gerou conflito militar, insurgência civil, movimentos separatistas… Mas pode também gerar um cenário completamente novo. Não é possível prever o que acontecerá se uma fatia considerável da população decidir que democracia não funciona para eles, e acho que esse vai ser o resultado”, diz.

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O pesquisador ainda ressalta o fato que, diferentemente do que ocorreu nos EUA, tanto Bolsonaro quanto Lula representam um movimento anti-establishment, mas o petista, assim como Hillary Clinton, é visto com ódio por apoiadores da ultra-direita.

“De certa maneira, com relação a esse aspecto especificamente, você pode comparar Lula a Hillary Clinton. Você tem uma reação negativa de parte da sociedade. Há a pessoa perfeita para simbolizar tudo o que essa parcela da população odeia num governo. Lula cumpre bem esse papel. Há atualmente um movimento anti-establishment (antissistema). E Trump e Bolsonaro tiveram sorte de concorrerem contra pessoas que personificavam o establishment, o sistema. Não tenho certeza se Trump teria ganhado de Bernie Sanders quando se elegeu em 2016, porque Sanders não servia tão bem ao papel de personificar o sistema, um sistema visto como corrupto. Lula é muito popular e parece capaz de vencer Bolsonaro. Mas os ingredientes estão lá para que Bolsonaro use Lula como essa figura”.

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Plinio Teodoro

Jornalista, editor de Política da Fórum, especialista em comunicação e relações humanas.