O caos do Haiti: Papa Doc, terremoto e o assassinato de Moïse

Nação caribenha, a mais pobre das Américas, vive uma escalada de tragédias, tensões e violência que parece eterna. O atentado que tirou a vida de seu presidente nesta quarta-feira (07) é apenas mais um capítulo

O mar azul e morno do Caribe costuma remeter à ideia de paz e tranquilidade. Isso pode ser uma realidade até plausível para várias nações da região, mas não para o Haiti, que atravessa uma crise política e social que parece eterna.

Na manhã desta quarta-feira (7), o mundo foi surpreendido por mais uma notícia sinistra vinda do pequeno país que divide a Ilha Hispaniola com a vizinha República Dominicana: um atentado a tiros que tirou a vida do presidente Jovenel Moïse, ocorrido dentro da residência do chefe de Estado.

As últimas décadas no Haiti foram de ditaduras, convulsões sociais, tragédias naturais e turbulência política. No final da década de 1950, François Duvalier, conhecido como Papa Doc, assume o governo no país e em pouco tempo institui uma violenta ditadura, escorada em esquadrões da morte que espalhavam o terror entre cidadãos, os chamados Tonton Macoute.

Seu regime mesclou ritos religiosos locais, como o Vodu, com um fortíssimo culto a personalidade, que resultou num passe livre para que Papa Doc governasse como um tirano, eliminando cruelmente qualquer dissidente que cruzasse seu caminho.

Com a morte do ditador, em 1971, seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assume o poder e dá continuidade ao legado monstruoso do pai. Sem sustentação, foge em 1986 para o exílio na França, deixando um país ainda mais empobrecido, com níveis de analfabetismo absurdos e em meio a uma descontrolada epidemia de Aids.

As décadas seguintes foram marcadas por uma sucessão de golpes de Estado e eleições desrespeitas sistematicamente, que levaram à presidência desde um general, como Henry Namphy, até um ex-padre ligado à Teologia da Libertação, Jean-Bertrand Aristide, que ocupou a chefia do Executivo em três períodos diferentes, até ser deposto definitivamente em 2004.

Quando o Haiti parecia acostumar-se com a inércia política e social que se estendia por alguns anos, um fortíssimo terremoto sacudiu o país na tarde de 12 de janeiro de 2010. O sismo, de magnitude 7 na escala Richter, devastou completamente a nação, deixando um saldo de 300 mil mortos, um número igual de feridos e 1,5 milhão de desabrigados.

Os anos seguintes acentuaram o caos. Uma controversa Missão de Paz da ONU – MINUSTAH (2004 – 2017), que havia sido enviada a Porto Príncipe após a deposição de Aristide, comandada num período pelo Brasil, que prometia “pacificar” o país, passa a cometer uma série de violações contra a população local e é alvo de críticas de parte da comunidade internacional.

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Jovenel Moïse, que estava no poder desde 2017, foi assassinado a tiros nesta manhã dentro de casa, após manobrar para evitar as eleições nacionais, que deveriam ter sido realizadas ainda em 2020, já que seu mandato terminou em fevereiro deste ano. Por ora, a motivação para o crime e a dinâmica dos fatos ainda não estão claras.

Diante desse novo capítulo sangrento, o lindo país de mar azul e coqueiros envergados pelo vento segue seu destino infausto, sem qualquer sinal de paz e estabilidade no horizonte.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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