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14 de outubro de 2019, 13h28

Carta solidária com os povos curdos e do Norte da Síria resistentes

“Manifestamos a nossa solidariedade com a luta dos povos curdos e do Norte da Síria e gritamos a nossa ira contra esta nova onda de agressão capitalista-patriarcal”, diz um trecho do documento

Donald Trump - Foto: Reprodução

No início de outubro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a retirada de soldados americanos do Norte da Síria, abandonando antigos aliados no combate ao grupo terrorista Estado Islâmico. A decisão coloca em risco um povo sem país: os curdos.

Há hoje cerca de 35 milhões de curdos espalhados por uma região que inclui partes do Irã, do Iraque, da Turquia e da Síria. Sem a proteção militar dos EUA, cerca de 2 milhões de curdos na Síria receiam uma invasão turca vinda do Norte.

Os curdos querem formar uma nação independente. Por isso, são considerados terroristas pelo governo da Turquia. A tensão na região motivou um grupo de acadêmicos e ativistas a divulgar uma carta em solidariedade aos povos curdos e do norte da Síria.

Veja abaixo a íntegra da carta:

Face à retirada das tropas norte-americanas na Síria, acordada entre os presidentes Donald Trump (EUA) e Recep Tayyip Erdoğan (Turquia), e perante a iminente invasão militar do Curdistão Sírio (também chamado Rojava) e dos povos livres desse território que esse acordo permite, consideramos necessário e urgente manifestar o seguinte:

  1. A comuna de Rojava é o primeiro esforço no Médio Oriente de um projeto político anticapitalista baseado numa confederação democrática; tem como fundamento uma visão alternativa de organização da vida; assentada numa autonomia não estatal, na autodeterminação, na democracia direta e no combate ao patriarcado. A autonomia do Rojava é a utopia de um mundo possível, onde diariamente se constrói a interculturalidade, uma relação diferente e virtuosa entre gêneros e o respeito pela mãe-terra. O Rojava mostra-nos que não podemos resignar-nos à barbárie dos dias que correm.
  2. O primeiro resultado desta luta pela autonomia foi a contenção do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) e do seu fundamentalismo. Agora, o referido acordo debilita os esforços das milícias curdas, atentando contra os notáveis sucessos que as YPG (Unidades de Proteção Popular) e as YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres) obtiveram até hoje, ao enfrentarem com êxito os ataques terroristas do Estado Islâmico no Sul da Síria, vendo-se obrigadas a proteger e libertar o Norte devido ao redobrado assédio levado a cabo pela Turquia.
  3. A guerra contra a autonomia do Rojava, face ao fracasso do Estado sírio, tem sido sistematicamente orquestrada desde há anos; os ataques e invasões territoriais têm sido o pão-nosso de cada dia. Com a retirada das forças militares norte-americanas das raias turco-sírias, a ameaça sobe de nível: a hostilidade do Estado turco contra o esforço de construção de um mundo democrático converte-se na possibilidade concreta de um extermínio étnico.

Portanto, nós, subscritores desta carta – acadêmicos, estudantes, ativistas, organizações sociais, coletivos, povos organizados e em resistência – manifestamos a nossa solidariedade com a luta dos povos curdos e do Norte da Síria e gritamos a nossa ira contra esta nova onda de agressão capitalista-patriarcal levada a cabo pelo Estado turco, sob o silêncio e a cumplicidade da União Europeia e de organismos internacionais como a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a ONU (Organização das Nações Unidas), que continuam a dar mostras de que só consideram válidos os Direitos Humanos quando estes obedecem à lei do mercado.

Defender Rojava significa defender todos os coletivos e pessoas que lutam diariamente contra a barbárie capitalista, não só no Médio Oriente, mas em todos os lugares do Mundo. Esta carta é um grito de ira, indignação e solidariedade com xs nossxs irmãxs curdxs, que lutam por outras formas de vida possíveis.

Viva a vida! Morra a morte!

Rojava não está só!

John Holloway, Sergio Tischler, Fernando Matamoros Ponce, Calos Figeroa, Jerome Baschet, oam Chomsky, Sylvia Marcos, Jean Robert, David Harvey, Arjun Appadurai, Etienne Balibar, Teodor Shanin, Barbara Duden, Michael Hardt, Marina Sitrin, Carole Pateman, Donna Haraway, Raquel Gutierrez, Boaventura de Sousa Santos, Federica Giardini, Dora Maria Hernandez Holguin, Francesca Gargallo, Giacomo Marramao, Alfonso Garcia Vela, Roberto Xavier Ochoa Gabaldón, Vittorio Sergi, Aldo Zanchetta, Lucia Linsalata, Kathleen Bryson, David Graeber, Edith Gonzales, Gustavo Esteva, Raul Zibechi, Alexandros Kioupkiolis, Paolo Vernaglione Berardi, Anna Rosa, Antonio Lucci, Luigi Sonnefeld, Fabio Milana, Mina Lorena Navarro, Scott Crow, Umberto Franchi, Imanol Antonio García Verges, Luis Menéndez Bardamo, Elaine Santos, Arturo Escobar, Joan Martinezalier, Viviana Asara, Ines Duran Matute, Jill Rease, Alberto Bonnet, Sergio Uribe, Paola Rafanelli, Juan Miguel Ortiz Reparaz, Esther Patricia King Davalos, Francisco Javier Villanueva Vázquez, Daniele Fini, Giuseppe Lo Brutto, Cecilia Zeledón, Màrgara Millán, Luisa Riley, Raúl Ornelas, Daniel Inclán, Rita Laura Segato, Raffaele K. Salinari, Philippe Corcuff, Roberto Giovannini, Angela Micheli, Maurizio Pallante, Larisa de Orbe, Jorge Alonso Sánchez, Evelyn Fox Keller, Balam Pineda Puente, Dalia Morales, Juan Wahren, Mercedes Escamilla e Juan Carlos Mijangos Noh.


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