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26 de março de 2020, 19h42

Caso Cambridge Analytica: As reuniões secretas do Reino Unido com os Bolsonaros

Na primeira parte desta série sobre o envolvimento britânico nos assuntos internos brasileiros, foi revelado que o Ministério das Relações Exteriores e da Commonwealth do Reino Unido (FCO) excluiu seu registro de correspondência e reuniões, sobre as eleições brasileiras com as empresas de comunicações estratégicas SCL e Cambridge Analytica. Neste segundo artigo, mais solicitações de liberdade de informação mostraram reuniões anteriormente não reveladas entre representantes do governo do Reino Unido, Jair Bolsonaro, sua família e aliados, meses antes da controversa vitória do candidato de extrema direita nas eleições de 2018. Parte três irá vir a seguir.

Por John McEvoy, Daniel Hunt e Nathália Urban

Várias solicitações de liberdade de informação revelaram detalhes básicos de reuniões e correspondências anteriormente nunca divulgadas antes entre autoridades britânicas e Jair Bolsonaro, durante e após a campanha eleitoral brasileira em 2018, incluindo quando o atual primeiro-ministro britânico Boris Johnson era secretário de Relações Exteriores. As reuniões, sugerem uma tendência contínua do apoio britânico a movimentos e governos de extrema direita na América Latina.

Os autores têm informações em primeira mão de que os funcionários do Foreign and Commonwealth Office (FCO) já tiveram algum nível de contato com Bolsonaro em 2014, e não há dúvida de que, em abril de 2018, o governo do Reino Unido sabia sim de suas opiniões extremas e declarações públicas horríveis.

Em 1993, Bolsonaro afirmou que era “a favor de uma ditadura” no Brasil; em 1999, ele disse que também era “a favor da tortura” e que 30 mil pessoas precisavam ser mortas para o Brasil funcionar; em 2002, ele disse a um repórter “se eu ver dois homens se beijando na rua, eu vou bater neles”; em 2010, ele disse que seria “incapaz de amar um filho homossexual”; em 2012, ele elogiou Adolf Hitler como “um grande estrategista”; em 2017, ele alegou que “daria carta branca para a polícia [brasileira] matar” e afirmou que “onde há terras indígenas, há riquezas por baixo” e em 2018, ele prometeu que ” iria varrer do mapa os bandidos vermelhos”.

Leia também: O que o governo do Reino Unido esconde sobre seu envolvimento em assuntos internos do Brasil

Em virtude dessa reputação, um dos autores desse artigo aconselhou pessoalmente o ex-embaixador britânico no Brasil, Alex Ellis, contra o encontro com Jair Bolsonaro em 2014.

Hoje, Bolsonaro é extremamente impopular, enfrenta protestos em seu país e indignou o mundo novamente por conta de sua reação a pandemia do Coronavírus, enquanto seu comportamento se mostra cada vez mais errático, ele claramente representa uma ameaça à segurança da população brasileira.

Uma solicitação de liberdade de informação apresentada em julho de 2019, revelou reuniões entre autoridades britânicas e os membros da campanha presidencial de Bolsonaro nos meses que antecederam a eleição presidencial de 2018.

Em 10 de abril de 2018, seis meses antes da eleição, o embaixador do Reino Unido Vijay Rangarajan se reuniu com Jair Bolsonaro, seu filho e congressista Eduardo Bolsonaro e um conselheiro sem nome. Da parte do Reino Unido, pelo menos um nome foi totalmente omitido. Embora tenham sido solicitadas atas completas da reunião sob a Lei da Liberdade de Informação, o FCO não forneceu nada além de um esboço incompleto das reuniões.

No entanto, de maneira reveladora, em 9 de abril de 2018, a então secretária-chefe do Tesouro, Liz Truss, viajou para o Brasil em uma visita oficial para discutir “livre comércio, mercados livres e oportunidades de negócios pós-Brexit”. Em 10 de abril, dia da reunião com a campanha de Bolsonaro, a diplomata britânica Chetna Patel twittou que estava “encantada” por receber Truss no Brasil, marcando o embaixador Rangarajan no tweet. Ao que parece, Truss e Rangarajan, estavam juntos em São Paulo no dia da reunião do embaixador com o comitê de campanha do Bolsonaro. Até o momento da publicação, o escritório da Truss não respondeu ao direito de resposta oferecido sobre a reunião.

“Ao deixarmos a União Europeia e estabeleceremos uma política comercial independente”, disse Truss antes de sua visita ao Brasil, “seremos capazes de negociar novos acordos comerciais com grandes parceiros comerciais, como Brasil e Chile”. Truss, ex-funcionária da Shell, também visitou o Centro de Pesquisa Shell para Inovação em Gás em São Paulo, “onde o Reino Unido colaborou …com vários projetos”.

A provável presença de Truss em uma reunião com a campanha de Bolsonaro em abril de 2018 ganhou importância em virtude da consistente falta de transparência do governo do Reino Unido em torno de sua visita. Oito meses após a apresentação de uma solicitação de liberdade de informação em agosto de 2019, o Gabinete Britânico não parece estar mais proximo de revelar qualquer informação sobre as atividades da Truss em 2018, no Brasil.

Desregulamentação ambiental

Com base em seus esforços anteriores, Truss parece ser uma das diplomatas favorecidas pelo governo ao negociar acordos comerciais que minam a democracia e a ação climática global. De fato, Truss agora trabalha no mesmo Departamento de Comércio Internacional, que foi pego secretamente fazendo lobby no “governo brasileiro em nome da BP e da Shell” em 2017 em relação à desregulamentação ambiental.

De acordo com um anúncio de vaga de emprego do Departamento de Comércio Internacional publicado em 2018 pelo FCO, os principais objetivos do departamento no Brasil eram “promover negócios do Reino Unido no Brasil”, “impulsionar o sucesso comercial do Reino Unido” e, principalmente, “liderar esforços no Brasil para melhorar o acesso ao mercado, removendo barreiras de comércio “. As “qualificações desejáveis” do candidato em potencial incluíam “acesso ao mercado / lobby político” e “política comercial”.

Nos últimos anos, Truss recebeu doações de mais de £ 8.000 do American Enterprise Institute (AEI), o instituto foi descrito pelo Greenpeace como “um ferrenho opositor ao protocolo de Kyoto, assim como à maioria das outras regulamentações ambientais”, e no seu conselho de administração e curadores incluía o CEO da ExxonMobil, Lee Raymond.

A doação, de longe a maior dos últimos anos, foi para Truss falar no Fórum Mundial anual da AEI em 2019, “uma reunião altamente secreta organizada pela think tank neoconservador mais influente de Washington”. Nos últimos anos, a AEI apoiou o impeachment ilegítimo de Dilma Rousseff, promoveu a ascensão de Bolsonaro e liderou a força de trabalho da Lava Jato, agora amplamente desacreditada.

Enquanto estava no Brasil, Truss também se reuniu com representantes do Instituto Millenium, a think tank de direita que nega a existência de uma emergência ambiental, e foi co-fundada pelo Ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes.

Mais tarde, Truss nomeou as conselheiras Nerissa Chesterfield, do Instituto de Assuntos Econômicos Think Tank (IEA), e Sophie Jarvis, do Instituto Adam Smith, vinculado ao Instituto Millenium. Ambas as organizações fazem parte da Atlas Network, uma organização internacional libertária financiada pela família Koch que fez campanha pela expulsão de Dilma Rousseff e pelo golpe de 2016. O governo do Reino Unido identifica Adam Smith como uma ferramenta fundamental de influência do país no exterior, um meio de promover economia de mercado livre e pequeno governo nos países em desenvolvimento e permite “a projeção de um poder suave (soft power) e a capacidade do Reino Unido de diretamente influenciar políticas nesses países”.

Durante a eleição, a equipe de Bolsonaro e seus filhos usavam camisetas estampadas com a cara de Margaret Thatcher, que é elogiada pelas tais think tanks libertárias como um exemplo para o mundo.

A solução preferida de Truss para a quebra do clima no Brasil parece semelhante à do governo Bolsonaro. Em outubro de 2019, Truss foi questionada pela parlamentar do Partido Nacional Escocês, Martyn Day, sobre o “desmatamento ilegal [que] ocorre na floresta amazônica [brasileira] – algo que o Acordo de Paris se propõe explicitamente a combater e reduzir”.

Truss respondeu: “Acredito que o livre comércio e o livre negócio nos ajudam a alcançar nossos objetivos ambientais por meio de melhor tecnologia, mais inovação e mais engenhosidade”.

Se Truss participou de reuniões com a campanha Bolsonaro em abril de 2018 em uma viagem para promover o comércio no Reino Unido, por que o governo do Reino Unido se recusou a revelar mais detalhes, quanto mais reconhecer sua presença lá?

A atarefada embaixada de Rangarajan

Outras reuniões do Reino Unido e correspondência com o comitê de campanha de Bolsonaro também foram reveladas.

Em 29 de junho de 2018, Rangarajan enviou uma carta a Jair Bolsonaro sobre “Parceiros Estratégicos”. Detalhes retidos.

Em 24 de agosto de 2018, Rangarajan recebeu informações do futuro ministro da Economia de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, na presença do cônsul geral Simon Wood. Detalhes retidos.

Em 20 de setembro de 2018, Rangarajan enviou a Paulo Guedes uma carta sobre a reunião deles em agosto. Detalhes retidos.

Em 15 de outubro de 2018, Rangarajan e Paulo Guedes tiveram uma conversa por telefone. Detalhes retidos.

Jair Bolsonaro seria eleito em 28 de outubro de 2018 em um segundo turno contra o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, de centro-esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT), o candidato escolhido para ser substituto do ex-presidente Lula da Silva.

Pós-eleição

Os laços do governo britânico com o governo Bolsonaro foram mantido desde sua eleição.

Em 14 de novembro de 2018, Rangarajan se reuniu novamente com o presidente eleito Jair Bolsonaro, o vice-presidente eleito Hamilton Mourão, o general Augusto Heleno (chefe do Gabinete de Segurança Institucional, ou GSI), dois dos filhos não especificados de Bolsonaro e outros indivíduos não identificados. Detalhes retidos.

Em 19 de agosto de 2019, quando a Amazônia brasileira queimou, o ministro do Comércio do Reino Unido, Conor Burns, esteve no Rio de Janeiro para conhecer o governador do estado, Wilson Witzel. Sob o governo de Witzel, o Rio sofre uma campanha de terror policial; as mortes cometidas pela polícia em 2018 totalizaram 8,9 por 100.000 habitantes – superior à taxa total de homicídios de praticamente qualquer estado dos EUA naquele ano. Witzel foi eleito em outubro daquele ano e, durante 2019, os assassinatos policiais no Rio ainda atingiram um novo recorde – um total de 1.810 pessoas foram mortas, ou seja cinco vítimas por dia.

Documentos obtidos sob a Lei de Liberdade de Informação (FOI) podem revelar que Burns elogiou a “ambição de Witzel por reduzir a violência” no Rio e prometeu que o “Reino Unido estava pronto para trabalhar junto em uma série de tópicos, incluindo segurança [ênfase adicionada]”. A cooperação de segurança entre o Reino Unido e o Brasil, revelaram mais tarde os documentos, que incluíam câmeras biométricas de reconhecimento facial.

Bolsonaro, entretanto, provou ser um presidente lucrativo para os interesses do Reino Unido. Em 2018, a Shell e a BP – com quem o embaixador do Reino Unido no Brasil se reuniu mais de vinte vezes desde 2017 – já haviam acumulado 13,5 bilhões de barris de petróleo no Brasil, mais do que a própria empresa estatal do país, a Petrobras, e por apenas uma fração do custo.

As empresas britânicas também investiram pesadamente em biocombustíveis. A BP possui a maior usina de biocombustível do Brasil, e a Shell possui muitos investimentos, como a joint venture Raízen de biocombustíveis. Apesar de retratada como ecológica, a produção de biocombustíveis é de fato responsável pelo desmatamento e poluição e seu uso pesado de recursos contribuiu para a crise hídrica de São Paulo em 2014, que causou escassez em massa para a população em geral.

Em 20 de março de 2020, o site Mongabay informou que a gigante mineradora britânica Anglo American fez mais de 300 pedidos de permissão para explorar 18 territórios indígenas na Amazônia, alguns dos quais abrigam povos isolados. Esta é a tentativa mais recente de uma disputa transnacional para explorar a região desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder, e o Presidente acabou de enviar um projeto de lei ao Congresso que autorizará a exploração de terras indígenas, algo que já era alardeado muito antes de sua eleição. Por esse motivo, Bolsonaro está sendo acusado de genocídio.

Essas novas e alarmantes divulgações sobre as relações entre o Reino Unido e o Brasil devem ser consideradas no contexto mais amplo da política externa do Reino Unido na América Latina. Emily Bell, professora sênior de estudos britânicos na Université de Savoie, observa que o poder suave internacional (soft power) do Reino Unido agora é exercido “cada vez mais através de grandes empresas que promovem interesses econômicos e políticos britânicos através do imperialismo corporativo”.

O conteúdo das discussões entre autoridades do Reino Unido e a campanha de Bolsonaro nos meses que antecedem outubro de 2018 merece ser examinado minuciosamente.

Não apenas a colaboração do governo do Reino Unido com a ascensão da extrema-direita brasileira lança uma sombra inequívoca à pretensão de apoiar os “direitos humanos” no exterior – é uma questão para os brasileiros preocupados com a manutenção e soberania de seus próprios recursos naturais.

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Versão original inglês no Brasil Wire


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