CHINA EM FOCO

COP30: o diálogo entre grandes civilizações passa pelos grandes rios

Jornalista brasileiro radicado no país asiático traça um paralelo entre Yangtzé e o Amazonas e lança um olhar sobre os grandes rios que moldaram civilizações

COP30: o diálogo entre grandes civilizações passa pelos grandes rios.Jornalista brasileiro radicado no país asiático traça um paralelo entre Yangtzé e o Amazonas e lança um olhar sobre os grandes rios que moldaram civilizaçõesCréditos: Fotomontagem - Xinhua e Wikipedia
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Os grandes rios do mundo foram berços de grandes civilizações, devido à necessidade natural do ser humano de ter acesso à água e ao alimento para sua sobrevivência. Grandes rios também facilitam a navegação e, consequentemente, as trocas comerciais. Por isso, ao longo da história, os rios interligaram assentamentos humanos, promovendo intercâmbios e progresso conjunto entre diferentes civilizações.

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Complementaridade econômica e benefício mútuo como valores orientadores

Pouco se sabe a respeito do comércio entre os povos originais das Américas, mas existem evidências de que as trocas comerciais eram intensas.

A Trilha do Peabiru – uma rede de estradas com cerca de três mil quilômetros de extensão, ligando o litoral brasileiro aos Andes centrais e ao Pacífico – é um exemplo de que os povos da América pré-colombiana não apenas eram sociedades complexas e diversas, com sistemas únicos de organização política e econômica, como também faziam comércio entre si.

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Especificamente na Amazônia pré-colombiana, praticava-se o comércio fluvial através dos rios, com canoas transportando cargas e pessoas por longas distâncias, formando um sistema de intercâmbio mais vasto e integrado, através do qual os povos da bacia amazônica tinham acesso a bens que não existiam localmente.

Isso contradiz a visão hegemônica, criada pelos colonizadores, de que os povos americanos eram selvagens e primitivos, ao mesmo tempo em que nos mostra que os povos da América do Sul, assim como os da Ásia, se desenvolveram buscando um comércio regional baseado na complementaridade e no benefício mútuo.

A chegada dos europeus alterou radicalmente a estrutura do Novo Mundo, inserindo a América Latina em um sistema global de circulação econômica, mas tirando-lhe o protagonismo. Os povos latino-americanos deixaram de produzir para satisfazer suas próprias necessidades e passaram a atender a uma demanda externa.

Como resultado desse choque de civilizações, diversos povos originários da bacia amazônica desapareceram, e os que restaram tiveram que adotar o isolamento e a autossuficiência como estratégia para sobreviver.

Isso contrasta radicalmente com a realidade da bacia do Yangtzé, um dos berços da civilização chinesa, que ainda hoje mantém seu vigor econômico em profunda integração com toda a China e o mundo.

Assim como os grandes rios do Brasil, o Yangtzé nutriu o surgimento de uma civilização, mas não houve um colonizador para frear esse processo, pois a civilização chinesa, mesmo nos momentos mais difíceis, conseguiu, ainda que a um custo alto, preservar seus valores essenciais.

O Yangtzé favoreceu o comércio entre as diferentes cidades que surgiram às suas margens, trazendo progresso e contribuindo para forjar o espírito de unidade da nação chinesa.

Enquanto o comércio através do Yangtzé se desenvolveu orientado às necessidades do mercado chinês, integrando-se ao comércio internacional somente após consolidar sua posição dentro da China, o rio Amazonas testemunhou a ruína do comércio indígena antes de integrar-se ao mundo como exportador de uma importante matéria-prima: o látex, extraído da seringueira, uma árvore nativa da Amazônia.

Mais recentemente, o desenvolvimento do comércio entre a China e a América do Sul nos traz uma nova esperança de desenvolvimento.

Além de ser uma cooperação voltada ao benefício mútuo, as economias da China e dos países sul-americanos são altamente complementares, de modo que sua integração, através da Iniciativa Cinturão e Rota, unindo a antiga Rota da Seda à Trilha do Peabiru e a bacia do Yangtzé à bacia Amazônica, traz aos povos sul-americanos a oportunidade de, pela primeira vez desde a chegada de Cristóvão Colombo, reorientar a circulação econômica para priorizar seu próprio desenvolvimento e integrar mercados com base na complementaridade.

Grandes rios produzem riqueza cultural

A diversidade cultural da Amazônia se manifesta na cultura dos povos indígenas que a habitam, sendo uma região com gigantesca diversidade étnica e linguística que desenvolveu técnicas únicas de manejo sustentável da floresta e tradições culturais e religiosas.

Já a cultura Chu, nascida às margens do Yangtzé, é marcada por belos utensílios e peças cerimoniais em laca, que possuem semelhanças com a cerâmica dos povos indígenas da bacia amazônica. Além disso, ornamentos corporais em jade desenvolvidos pela cultura Chu são parecidos com miçangas, colares e outros bens produzidos por indígenas do Brasil.

Em Jingzhou, uma cidade histórica às margens do Yangtzé, em Hubei, que foi capital do antigo reino Chu, diversas instituições se dedicam à conservação e ao restauro de relíquias arqueológicas.

Graças às antigas peças de seda conservadas em Jingzhou, sabemos como as pessoas se vestiam no período dos Reinos Combatentes, enquanto o minucioso trabalho de conservação de antigos textos escritos em bambu nos permite recuperar informações valiosas da história da China.

Muitos desses tesouros antigos foram encontrados em tumbas úmidas, às vezes até mesmo cheias de água por conta da baixa profundidade do lençol freático, e, mesmo assim, os pesquisadores conseguem recuperar essas peças extremamente danificadas para revelar um pedaço da história.

Enquanto os rios amazônicos facilitaram o comércio de cerâmica, ferramentas de pedra, matérias-primas como madeiras e corantes, alimentos e remédios — como guaraná, castanhas e folhas de coca — e itens como dentes, garras e peles de animais, pelo Yangtzé eram transportados arroz, sal, especiarias, chá, recursos minerais e objetos de seda, laca e porcelana.

Mas há uma diferença fundamental entre as culturas desenvolvidas ao longo dessas duas bacias hidrográficas: enquanto as da Amazônia desenvolveram-se como sociedades tribais descentralizadas, aquelas ao longo da bacia do Yangtzé integraram-se em uma única civilização, dando origem a um império unificado com complexos sistemas legal, administrativo e burocrático.

COP30: uma plataforma para intercâmbio entre civilizações

A 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) foi a primeira realizada na Amazônia, enfatizando a importância das florestas tropicais para o equilíbrio climático do planeta num momento decisivo: os países signatários do Acordo de Paris se comprometeram a apresentar, até o final deste ano, seus planos de redução de emissões de gases de efeito estufa, o que torna 2025 crucial para a definição do rumo da ação climática da próxima década.

Em um mundo com uma população de oito bilhões de pessoas, a produção sustentável de alimentos é um dos problemas mais importantes e urgentes. Na Amazônia pré-colombiana, a Terra Preta de Índio, um solo extremamente fértil criado por povos indígenas há mais de 2.500 anos, através da adição de carvão vegetal, ossos, cerâmica e lixo orgânico ao solo natural, revela uma prática sustentável para recuperar solos degradados, aumentar a produtividade agrícola e sequestrar carbono.

Já na bacia do Yangtzé, a irrigação foi a fórmula encontrada para aumentar a produção de alimentos, sendo o projeto mais emblemático o sistema de irrigação de Dujiangyan, na província de Sichuan, construído em 256 a.C. e ainda em funcionamento.

O rio Minjiang, mais longo afluente do Yangtzé, após descer rapidamente as montanhas Minshan, estancava no planalto de Chengdu, causando inundações. Para resolver o problema, o declive foi aproveitado para dividir o fluxo em dois canais, com parte da água sendo desviada para irrigação, o que tornou Sichuan a região agrícola mais produtiva da China.

A troca de experiências entre essas duas bacias hidrográficas é promissora também no campo da proteção ambiental. O Amazonas e o Yangtzé são os lares de duas famosas espécies de cetáceos ameaçadas de extinção: o boto-cor-de-rosa, famoso por sua cor, e o boto do Yangtzé, o único cetáceo sem nadadeira dorsal.

Na bacia do Yangtzé, a população de botos tem aumentado graças ao trabalho da Reserva Natural do Boto do Yangtzé, criada em 1992, em Tian’e-zhou, um braço do Yangtzé na província de Hubei, para desenvolver pesquisas e promover a proteção do rico ecossistema local, incluindo a proteção dos botos por realocação e a reprodução em cativeiro.

A população local de botos evoluiu de cinco, em 1990, para cerca de 80 atualmente, com mais de oito nascimentos de animais registrados anualmente, sendo essa a única experiência de sucesso no mundo em proteção de uma espécie por realocação.

Em 2016, a base conseguiu realizar a reprodução de botos em cativeiro, e, em 2023, ela realizou com sucesso a primeira devolução de animais para o Yangtzé, estabelecendo um ciclo completo de preservação, reprodução em cativeiro e reintrodução à natureza. Botos que se envolvem em acidentes, como colisões com embarcações, ou ficam presos no gelo durante o inverno, são resgatados e tratados por especialistas até terem condições de voltar à natureza.

Conhecer o maravilhoso trabalho de proteção do boto do Yangtzé me fez pensar na importância da preservação dos botos da Amazônia, também ameaçados de extinção, mas vítimas da caça ilegal e da contaminação dos rios pelo garimpo. Sendo a Amazônia uma região muito vasta e selvagem, é difícil fiscalizar o cumprimento das leis, enquanto a pobreza e a baixa escolaridade das populações ribeirinhas acabam agravando o problema.

A lição que o Brasil pode tirar disso é que a preservação ambiental precisa avançar de mãos dadas com o desenvolvimento econômico e social, pois o povo precisa de educação ambiental para entender a importância de conservar o meio ambiente e de oportunidades profissionais que lhe permitam viver em harmonia com a natureza.

Apesar da grande ânsia utilitarista que caracterizou a transformação do espaço urbano no Brasil, as políticas brasileiras de preservação ambiental sempre se basearam no conceito de intervenção mínima, e o plantio de árvores prioriza as espécies nativas para recriar o ecossistema original. Essa experiência nos ensina que é importante preservar e reflorestar áreas ao redor de rios e respeitar a geografia, evitando intervir na natureza.

Já na China, o reflorestamento muitas vezes atende a outros critérios, como, por exemplo, plantar espécies mais adequadas para aquele tipo de solo, ou que crescem mais rápido, ou que demandam menos água, o que trouxe excelentes resultados no combate à desertificação em Xinjiang e na Mongólia Interior, mas também efeitos indesejados, como o excesso de pólen durante a primavera em Beijing.

Juntos contra a mudança climática

Por maior que seja a diversidade de civilizações humanas, e por mais distantes que estejam geograficamente, todas elas dividem um mesmo lar, o planeta Terra, e precisam enfrentar juntas o aquecimento global.

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Em termos de redução de emissões de carbono, a China chegou à COP30 com as metas mais ambiciosas e os resultados mais animadores: o país não apenas atingiu seu pico de emissões seis anos antes do prazo, como caminha rapidamente rumo à neutralidade de carbono — o que é impressionante para um país conhecido como “fábrica do mundo”, por sua enorme capacidade industrial.

Grande parte do sucesso da China em reduzir drasticamente suas emissões vem da rápida mudança em sua matriz energética, que já foi extremamente dependente da queima de carvão, mas recentemente desenvolveu seu potencial de produzir energia renovável, especialmente solar e eólica, adotando soluções inovadoras que também ajudam outros países a cumprir suas metas de emissão.

Um bom exemplo é o desenvolvimento tecnológico que resultou em painéis solares e geradores eólicos mais baratos e eficientes, tornando-os acessíveis aos países em desenvolvimento, inclusive o Brasil. A China também aumentou a eficiência da distribuição de energia elétrica ao desenvolver a tecnologia de transmissão em Ultra-Alta Tensão, usada no Brasil para levar a eletricidade gerada na Usina de Belo Monte aos grandes centros consumidores.

A COP30 na Amazônia, um dos ecossistemas mais ameaçados pela crise climática, nos lembra que cuidar do planeta é uma responsabilidade comum de todos os povos da Terra, sendo os intercâmbios entre civilizações o caminho para o sucesso no enfrentamento da mudança climática e na construção de uma Comunidade com Futuro Compartilhado para a Humanidade.

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