“A China é o maior poluidor do mundo.” A frase, repetida à exaustão durante a COP30, que ocorre em Belém (PA) até 21 de novembro, parte de um dado real — mas contado pela metade. A potência asiática aparece no topo dos rankings de emissões totais de dióxido de carbono (CO2), mas essa métrica isolada ignora fatores como população, papel econômico e esforço em energia limpa.
Sob uma análise mais ampla, a China é simultaneamente um dos maiores emissores e uma das principais forças da transição energética global. O país lidera a produção de energia solar, eólica e baterias elétricas, além de ter reduzido pela metade sua intensidade de carbono desde 2005 — ou seja, hoje emite menos CO2 por cada unidade de riqueza gerada.
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Grande parte de suas emissões está ligada à produção de bens exportados para países ricos, que terceirizam sua pegada de carbono ao consumir produtos “made in China”.
Essa escala industrial, que torna a China uma gigante poluidora, também a coloca no centro das soluções climáticas. Enquanto enfrenta o desafio de reduzir emissões, o país é o maior investidor mundial em energia limpa, produzindo 70% dos equipamentos eólicos e 80% dos painéis solares do planeta — o que reduziu o custo global dessas tecnologias em até 80% na última década.
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A liderança da China
Durante a cerimônia de abertura da COP30, realizada na segunda-feira (10), o presidente da conferência e diplomata brasileiro André Corrêa do Lago afirmou que os países ricos perderam o entusiasmo em combater a crise climática, enquanto a China avança rapidamente na produção e no uso de tecnologias de energia limpa.
Corrêa do Lago, que lidera as negociações climáticas das Nações Unidas, provocou: mais países deveriam seguir o exemplo da China, em vez de reclamar por estarem sendo superados.
“De certa forma, a redução do entusiasmo do Norte Global mostra que o Sul Global está se movendo. Esse movimento vem acontecendo há anos, mas só agora tem a visibilidade que merece.”
Ele destacou que a China, embora seja o maior emissor de gases de efeito estufa, também é o maior produtor e consumidor de energia de baixo carbono.
“A China está apresentando soluções que servem para todos, não apenas para ela. Os painéis solares estão mais baratos, tão competitivos [em comparação com a energia fóssil] que agora estão em toda parte. Se você está pensando em mudanças climáticas, isso é algo bom”, afirmou.
Reação de Pequim
Em resposta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, destacou nesta quarta-feira (12) que, dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, a governança climática global entra em uma fase crucial. Ele observou que a China participa ativamente dos esforços internacionais e apoia firmemente o Brasil na presidência da COP30.
Jiakun destacou que o representante especial do presidente Xi Jinping, o vice-primeiro-ministro Ding Xuexiang, participou da Cúpula do Clima de Belém e apresentou os princípios orientadores do 20º Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), reforçando a necessidade de transformar compromissos em ações concretas e aprofundar a cooperação global.
“A mudança climática diz respeito ao futuro comum da humanidade. Do Sul ao Norte Global, de países em desenvolvimento a desenvolvidos, todos estamos no mesmo barco. Cooperação e esforços conjuntos são a única escolha correta”, declarou Jiakun.
O porta-voz lembrou que a China adotou a neutralidade de carbono como estratégia nacional, criando o maior e mais dinâmico sistema de energia renovável do mundo. Hoje, o país é responsável por 70% dos equipamentos eólicos e 80% dos componentes fotovoltaicos globais, o que ajudou a reduzir o custo da energia solar em 80% e da eólica em mais de 60% no mundo.
Na Cúpula do Clima das Nações Unidas, o presidente Xi anunciou as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) da China para 2035, abrangendo todos os setores econômicos e gases de efeito estufa — a primeira meta absoluta de redução do país. “Isso demonstra nossa firme determinação e máximo esforço”, disse Jiakun.
Ele concluiu reforçando que a China seguirá trabalhando com todos os países “de acordo com o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, para alcançar resultados equilibrados e contribuir para uma governança climática global mais justa e eficaz”.
Régua da poluição
A ideia de que “a China é o maior poluidor” vem de levantamentos de instituições como o Global Carbon Project, a Agência Internacional de Energia (IEA) e o Banco Mundial.
O Global Carbon Budget 2024 mostra que a China é responsável por 30% das emissões globais de CO2, seguida por EUA (14%), Índia (7%) e União Europeia (6%).
A IEA confirma a liderança e aponta que, em 2024, as emissões chinesas ligadas à energia cresceram 0,4% em relação a 2023, com 79% vindos de combustíveis fósseis, ainda que o ritmo esteja desacelerando com a expansão das renováveis.
Já o Banco Mundial mostra que, em 2022, cada cidadão chinês emitiu 8 toneladas de CO2 por ano, enquanto um estadunidense emitiu 14 toneladas. Ou seja, a China emite mais no total, mas menos por pessoa.
Além disso, os EUA continuam sendo os maiores responsáveis históricos pelo aquecimento global, com 25% de todas as emissões acumuladas desde a Revolução Industrial, mais que o dobro da contribuição chinesa.
Assim, a frase “a China é o maior poluidor do mundo” é verdadeira apenas sob o ângulo das emissões totais anuais. Quando se observa o quadro completo, o país aparece como grande emissor e protagonista da transição energética global.
Plano para conter o aquecimento global
Enquanto isso, os 194 países reunidos em Belém buscam um acordo para limitar o aquecimento global a 1,5°C, como prevê o Acordo de Paris. A meta é eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e garantir apoio financeiro aos países mais pobres, os mais afetados pela crise climática.
Os planos nacionais atuais levariam o planeta a um aquecimento de 2,5°C, segundo cientistas. Por isso, países vulneráveis exigem novas metas e compromissos mais ambiciosos.
O Brasil, país-sede, tem papel central ao defender a implementação de metas já assumidas, como triplicar a energia renovável até 2030 e dobrar a eficiência energética global. Ao mesmo tempo, tenta garantir que os fundos climáticos prometidos cheguem aos países em desenvolvimento — promessa que há anos não se cumpre plenamente.
Apesar dos esforços diplomáticos, divergências persistem entre países ricos e pobres, sobretudo sobre o fim do uso de combustíveis fósseis, tema que deve dominar os primeiros dias da conferência.
Promessas que não saíram do papel
Uma das promessas mais emblemáticas — o Compromisso Global do Metano, firmado na COP26 (Glasgow, 2021) — já mostra sinais de esgotamento. O acordo, assinado por 159 países, previa reduzir em 30% as emissões até 2030, mas dados da empresa Kayrros mostram que as emissões de vários signatários aumentaram.
Entre EUA, Austrália, Kuwait, Turcomenistão, Uzbequistão e Iraque, houve um crescimento médio de 8,5% nas emissões entre 2020 e 2024. Nos Estados Unidos, o aumento foi de 18% no setor de petróleo e gás.
O metano é 80 vezes mais potente que o CO2 e responsável por cerca de um terço do aquecimento global recente. Reduzi-lo seria o “freio de emergência” mais rápido para conter o aumento das temperaturas — mas, sem medidas obrigatórias, a promessa ficou no discurso.
“Apesar das promessas, as emissões continuam altas. O tempo está acabando”, alertou Antoine Rostand, presidente da Kayrros, ao The Guardian.
Liderança do Sul Global
Enquanto isso, países do Sul Global, liderados por Brasil, China, Índia e África do Sul, cobram ações concretas, financiamento e justiça climática. Essas nações defendem que a transição verde não pode repetir as desigualdades do passado, em que os países ricos prosperaram poluindo e agora impõem metas duras às economias em desenvolvimento.
A China, em particular, tem se posicionado como porta-voz das demandas do Sul Global, pedindo que as metas climáticas sejam acompanhadas por transferência de tecnologia, apoio financeiro e respeito às diferentes realidades nacionais.
O país asiático argumenta que o combate ao aquecimento global deve se basear no princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas — ou seja, todos devem agir, mas com pesos proporcionais à sua capacidade e à sua contribuição histórica para o problema.
Para essas nações, não há mais espaço para promessas vazias: o planeta precisa de resultados concretos, cooperação efetiva e um novo equilíbrio climático que una desenvolvimento e sustentabilidade.