Nos últimos anos, o debate político nos Estados Unidos passou a ser moldado por uma nova geração de influenciadores digitais — criadores de conteúdo que disputam, em tempo real, a atenção e a formação política da juventude. Nesse cenário, enquanto a extrema direita encontrou em Charlie Kirk seu principal embaixador, a esquerda tem em Hasan Piker o rosto mais influente dessa cena.
Conhecido como HasanAbi, Piker desembarcou nesta semana na China. Sua passagem pela potência asiática rapidamente se tornou assunto nas redes sociais, despertando curiosidade e controvérsia tanto entre usuários chineses quanto internacionais.
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A abordagem policial na Praça Tiananmen
Durante a viagem, um episódio ampliou ainda mais os holofotes sobre Hasan Piker. Ele viralizou ao ser abordado por agentes de segurança enquanto fazia uma transmissão ao vivo na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, na manhã de terça-feira (11).
Imagens exibidas em seu canal na Twitch — que reúne mais de 3 milhões de seguidores — e reproduzidas no YouTube mostram Piker e outros influenciadores caminhando em direção à cerimônia diária de arriamento da bandeira, realizada diante do Portão de Tiananmen e do retrato de Mao Zedong.
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Durante a transmissão, um policial se aproxima. Surpreso, Hasan pergunta: “Roger, você viu isso? O que é isso?”, tentando entender se o homem era um guia turístico ou um agente de segurança.
O policial pede para ver uma foto, e o grupo explica que não registrou nada. “Eu só estava segurando a câmera, não fiz nada”, responde Hasan.
O agente insiste em checar o celular, tentando acessar o histórico ou a prévia da câmera. Um dos influenciadores mostra o aparelho, enquanto um tradutor alerta: “Por favor, certifiquem-se de que vocês têm permissão para gravar antes de ir.”
Hasan então contextualiza para a audiência: “A China é muito grande, e assim é o governo. Muita coisa passa por inspeção. Não estamos só andando por aí.”
A repercussão e a crítica à Newsweek
Após o episódio viralizar, Hasan criticou o tratamento dado pela imprensa ocidental — especialmente a Newsweek — que transformou a abordagem em um suposto “incidente internacional”.
“Foi um momento breve. Conversamos com o policial e ficou tudo bem. Por que isso está na Newsweek?”
A revista relatou que Piker teria sido abordado após exibir um meme gerado por inteligência artificial com o rosto de Mao Zedong. Segundo o texto, os policiais exigiram ver o celular e interromperam a transmissão por cerca de dez minutos como exemplo do rígido controle estatal em locais sensíveis como Tiananmen.
A Newsweek também mencionou críticas de que Hasan seria “pró-PCCh”, lembrando que ele já havia defendido a China em transmissões anteriores. A revista afirmou ter tentado ouvi-lo.
Comparações com os EUA e críticas ao sensacionalismo
Hasan também rebateu o sensacionalismo em torno da abordagem na China, comparando a repercussão com episódios muito mais graves que já viveu nos Estados Unidos e na Europa. Ele lembrou que foi atingido por projéteis da polícia americana e francesa em coberturas de protestos — e que nenhuma dessas situações ganhou destaque na imprensa.
“Já levei tiro da polícia americana e da francesa. Nunca virou notícia. Um minuto com um policial chinês virou escândalo internacional.”
O streamer ironizou o comportamento de seus críticos, dizendo que, nos EUA, seus haters defendem a polícia quando ele é agredido, mas passam a “defender a China para atacá-lo” quando um episódio menor acontece em Pequim. Para Hasan, a interação em Tiananmen foi mínima: “Foi literalmente um cara perguntando o que estava no meu celular. Nada aconteceu.”
Ele também recordou que foi detido pela polícia de fronteira dos Estados Unidos — a CBP (U.S. Customs and Border Protection), órgão responsável pelo controle migratório em aeroportos — ao desembarcar em Chicago, em maio deste ano. Mesmo sendo cidadão estadunidense e participante do Global Entry, programa que agiliza a entrada de viajantes de “baixo risco”, ele foi levado para uma sala de inspeção secundária.
Segundo Hasan, os agentes fizeram perguntas incomuns sobre suas posições políticas, incluindo críticas a Donald Trump e comentários sobre o conflito Israel–Gaza. Ele relatou ter sido interrogado por cerca de duas horas e disse ter se sentido intimidado por causa de suas opiniões.
A CBP e o Departamento de Segurança Interna dos EUA — o DHS (Department of Homeland Security) — negaram qualquer motivação política e classificaram a inspeção como “rotineira”.
O caso gerou debate nacional sobre liberdade de expressão, abuso de poder em fronteiras e os limites das abordagens feitas a cidadãos americanos críticos ao governo.
Patriotismo, distorções e perseguição de haters
Outro trecho recortado por detratores envolve uma discussão sobre patriotismo. Durante a live em Tiananmen, Hasan afirmou: “Eu não tenho patriotismo no geral. Não sou patriótico, ponto.”
Ele comentou que não sente nenhum tipo de patriotismo — nem pelos Estados Unidos, nem por qualquer país — enquanto observava a cerimônia de arriamento da bandeira, assistida por turistas de várias partes da China.
O fragmento rapidamente viralizou e gerou forte reação de críticos, que interpretaram a fala como deslealdade aos EUA. A frase circulou sem contexto, sobretudo em perfis conservadores, alimentando ataques nas redes. Hasan, então, esclareceu que sua crítica não era dirigida especificamente ao patriotismo estadunidense, mas à ideia de patriotismo em sentido amplo.
Apesar de dizer que não sente emoção diante daquele tipo de ritual, Hasan destacou achar interessante ver pessoas que viajam de todo o país para acompanhar a cerimônia. Ainda assim, sua fala se tornou munição para adversários que já acompanham suas transmissões à procura de trechos polêmicos.
Ele expressa frustração com esse monitoramento constante: “É meu trabalho comunicar minhas opiniões, por isso é frustrante ver tudo ser distorcido.” Segundo Hasan, grupos pró-Israel e opositores políticos assistem a cada transmissão em busca de deslizes: “Eu sei que nunca vou ter uma vida normal. Mas é irritante.”
Assista
Quem é Hasan Piker
Hasan Piker nasceu em 1991 em New Brunswick, Nova Jérsei. De origem turca, passou boa parte da infância e adolescência em Istambul, antes de retornar aos EUA para estudar. Formou-se em Ciência Política e Comunicação pela Rutgers University e faz parte da geração millennial, marcada pela transição para a vida digital.
Hasan iniciou a carreira no canal progressista The Young Turks (TYT), apresentado por seu tio Cenk Uygur. Ali desenvolveu o estilo rápido, opinativo e irreverente que mais tarde o transformaria em um dos maiores streamers políticos do mundo.
Seu conteúdo — transmitido na Twitch e no YouTube — mistura política internacional, cultura pop, economia, eleições, humor e memes. Suas lives de muitas horas atraem milhões de jovens que buscam entender política de forma direta e acessível. Hasan se define como socialista democrático e oferece uma narrativa alternativa à mídia tradicional.
A disputa pela juventude: Hasan Piker x Charlie Kirk
O sucesso de Hasan o colocou lado a lado de influenciadores que moldam a política entre jovens nos EUA. Do outro lado, estava Charlie Kirk, fundador da Turning Point USA e um dos principais nomes da extrema direita trumpista.
Apesar de ideias opostas, os dois representavam polos centrais de uma nova mídia política — um ambiente guiado por lives, cortes de vídeo e disputas narrativas. Eles já haviam debatido diversas vezes e tinham um novo encontro marcado na Dartmouth College.
A rivalidade permaneceu no campo das ideias até 10 de setembro de 2025, quando Charlie Kirk foi assassinado durante um evento na Utah Valley University, em Orem, Utah.
Hasan soube da morte ao vivo, no meio de uma transmissão rotineira. A reação — silêncio, hesitação e incredulidade — viralizou em minutos. Para a audiência, era o fim abrupto de uma das disputas mais emblemáticas da política online.
A morte de Kirk abalou profundamente a direita trumpista, que perdeu seu principal porta-voz entre jovens, e reconfigurou o ecossistema digital. Durante anos, a oposição entre Kirk e Piker estruturou debates, polêmicas e cortes que circularam entre milhões de usuários.
O episódio também revelou o novo funcionamento da política mediada por influenciadores: acontecimentos dramáticos surgem sem aviso, e figuras públicas precisam reagir diante de todos — sem edição ou preparo.
Críticas a Donald Trump e o papel de Hasan na política digital
Hasan é um crítico frequente de Donald Trump, contestando sua retórica anti-imigração, sua política externa e seu estilo populista. Embora vote nos democratas como “menor dos males”, afirma não ser liberal, mas sim parte de uma esquerda independente.
Sua linguagem direta, seu alcance e seu formato de transmissão contínua fazem de Hasan um dos principais antagonistas do trumpismo na esfera digital.
Por que Hasan Piker importa
A trajetória de Hasan mostra como a política mudou. Hoje, ela é disputada não apenas por partidos e jornais, mas por influenciadores que falam com milhões de pessoas em tempo real, de dentro de seus estúdios improvisados.
A relação — e o contraste — entre Hasan Piker e Charlie Kirk ajuda a entender como os EUA se dividem, se comunicam e se radicalizam na era das redes sociais.
Hasan Piker e seu estilo fashion
Embora mais conhecido pelo conteúdo político, Hasan também chama atenção pelo estilo. Ele mistura streetwear despojado, peças retrô, jaquetas de couro, camisões, acessórios marcantes e looks que variam entre o casual e o refinado.
Durante a abordagem policial na China, Hasan vestia a jaqueta Tang da Adidas, inspirada em cortes tradicionais chineses e lançada exclusivamente no mercado local. A peça, não vendida fora da China, se tornou objeto de desejo entre fashionistas e colecionadores, reforçando a fusão entre cultura pop, moda e política que compõe sua imagem pública.
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Fotos de Hasan circulam nas redes com combinações variadas — calças largas, camisetas gráficas, sobreposições e peças mais ousadas. Seu corpo atlético, barba marcada e postura confiante também contribuem para que seu visual se torne parte de sua marca pessoal.
Usar moda como linguagem visual ajuda Hasan a criar identidade, engajar o público e se destacar em um ambiente em que a estética pesa tanto quanto a opinião política.
Embora não seja um “ícone fashion” tradicional, sua presença visual influencia milhares de jovens que consomem política e estilo como partes de uma mesma cultura digital.