Há um clima crescente de hostilidade envolvendo cidadãos chineses e japoneses. A situação se agravou a ponto de a Embaixada da China em Tóquio orientar seus funcionários a evitarem sair às ruas.
Segundo a diplomacia chinesa, essa recomendação é uma medida de cautela diante do comportamento “irresponsável” de alguns políticos e veículos da mídia japonesa, que estariam distorcendo fatos e alimentando tensões.
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Durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (14), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, destacou que diplomatas chineses têm sido alvo de ataques extremos e ameaçadores de figuras da direita japonesa, bem como de usuários nacionalistas nas redes sociais. Lin expressou preocupação com essas declarações e pediu ao Japão que tratasse a questão com seriedade, investigando e tomando medidas para conter tais atitudes.
“A China está altamente preocupada com isso e pede ao lado japonês que trate o assunto com seriedade, investigue e contenha tais declarações. Reiteramos nosso apelo para que o Japão encare corretamente a raiz do problema, corrija e retire de imediato as declarações injustificadas, e pare de confundir certo e errado, desviar a atenção e culpar a China”, afirmou Lin.
China convoca embaixador japonês em Pequim
Além disso, em uma ação diplomática rara, a China convocou o embaixador japonês em Pequim para um protesto formal em resposta às declarações provocativas da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre Taiwan.
O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Sun Weidong, convocou o diplomata japonês na noite de quinta-feira (13), uma medida que, segundo a mídia japonesa, é incomum nos últimos anos, dada a gravidade da situação.
Lin Jian explicou que as declarações errôneas e provocativas de Takaichi sobre Taiwan foram o principal motivo da convocação. Ele ressaltou que essas palavras não apenas interferem gravemente nos assuntos internos da China, mas também violam o direito internacional, as normas das relações internacionais e o princípio de "Uma Só China", que fundamenta as relações entre os dois países.
Segundo Lin, essas afirmações prejudicam a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial e comprometem os alicerces políticos que sustentam a relação entre China e Japão.
Resposta firme da China
Em tom firme, Lin Jian reiterou a posição da China sobre a soberania e a integridade territorial do país, afirmando que ninguém deve esperar concessões em relação a esses princípios.
"Quando se trata da soberania e integridade territorial da China, ninguém deve esperar concessões", declarou Lin.
Ele também afirmou que qualquer tentativa de interferir na reunificação de Taiwan com a China será enfrentada com uma resposta resoluta.
"Qualquer um que desafiar a linha de fundo da China será derrotado", concluiu, destacando que os mais de 1,4 bilhões de cidadãos chineses estão preparados para defender suas reivindicações com firmeza.
Essa escalada diplomática reflete o aumento das tensões entre China e Japão, que, apesar de décadas de relações diplomáticas, continuam lidando com feridas históricas profundas e disputas territoriais.
Entenda a tensão
As relações entre China e Japão sempre foram marcadas por memórias traumáticas da Segunda Guerra Mundial, mas, nas últimas décadas, os dois países vinham mantendo uma convivência pragmática, embora cheia de altos e baixos.
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Esse equilíbrio, porém, foi abalado pelas recentes declarações da nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que sugeriu que uma ação militar chinesa contra Taiwan poderia representar uma “ameaça à sobrevivência” do Japão — expressão de forte peso histórico e jurídico.
Pequim reagiu com dureza e acusou Takaichi de fazer comentários “provocativos”, violar o princípio de Uma Só China e interferir nos assuntos internos chineses.
A diplomacia chinesa afirmou que o Japão revive retórica militarista do século 20 e alertou que qualquer tentativa de intervenção japonesa no Estreito de Taiwan seria considerada “agressão”, com direito à autodefesa chinesa garantida pela Carta da ONU.
O episódio ocorre em meio ao 80º aniversário da vitória chinesa contra a agressão japonesa, o que intensifica a sensibilidade histórica.
A tensão se ampliou após um encontro informal de Takaichi com autoridades de Taiwan durante a cúpula da APEC e se agravou quando o cônsul chinês em Osaka fez uma postagem agressiva contra a premiê — removida depois.
A China exige que Tóquio se retrate imediatamente. Sem isso, Pequim promete consequências mais severas, deixando claro que a crise diplomática entre os dois países atingiu seu ponto mais tenso dos últimos anos.
3 Mitos sobre a China disseminados no Japão
Em meio à escalada diplomática entre China e Japão, usuários dos dois países passaram a trocar ataques e ofensas nas redes sociais.
Nesse ambiente tenso, o programa Media Unlocked, do jornal estatal China Daily, publicou nesta quinta-feira (13) um vídeo dedicado a desmontar os mitos propagados por Takaichi, por parte da mídia e pela direita nacionalista do Japão.
Mito 1 — “A China é ingrata em relação ao Japão”
Verdade: a narrativa de “gratidão” ignora crimes históricos amplamente documentados
Setores da direita japonesa afirmam que o Japão “ajudou” a China no passado e que Pequim teria respondido com ingratidão. Essa leitura contraria o consenso historiográfico sobre a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937–1945).
O período foi marcado por:
- invasão e ocupação militar de grandes regiões chinesas;
- massacres sistemáticos, incluindo o Massacre de Nanjing, com estimativas de 200 mil a 300 mil mortos;
- trabalho forçado, que afetou milhões de civis;
- programas de guerra biológica e experimentação humana, como os da Unidade 731, responsáveis por vivissecções, torturas e disseminação de patógenos.
Apesar dessas atrocidades, o Japão não pagou reparações de guerra diretas à China após 1945. Muitos criminosos de guerra foram libertados ou nunca julgados devido a negociações políticas conduzidas pelos Estados Unidos no início da Guerra Fria.
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A narrativa de “ingratidão” desconsidera esse contexto histórico documentado por pesquisas acadêmicas, arquivos militares e organismos internacionais.
Mito 2 — “Os japoneses de hoje não podem ser responsabilizados pelo passado”
Verdade: a crítica não é à população, mas ao Estado japonês e ao revisionismo histórico persistente
É correto afirmar que a população japonesa atual não tem responsabilidade pessoal pelos crimes cometidos entre as décadas de 1930 e 1940. No entanto, a crítica levantada por países vizinhos — especialmente China e Coreia do Sul — recai sobre o Estado japonês e certos grupos políticos, devido a práticas contemporâneas consideradas revisionistas.
Entre os pontos sensíveis estão:
- declarações de autoridades que relativizam ou negam crimes de guerra;
- livros escolares que suavizam episódios como o Massacre de Nanjing ou o sistema das “mulheres de conforto”, escravizadas sexualmente pelo Exército Imperial;
- visitas oficiais ao Santuário Yasukuni, onde estão homenageados criminosos de guerra condenados;
- narrativas que apresentam o Japão como vítima, minimizando sua responsabilidade histórica no Leste Asiático.
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Para especialistas em memória histórica, esses episódios alimentam tensões porque sugerem que a responsabilização sobre os crimes do passado não foi plenamente assumida pelo Estado japonês — o que reacende desconfianças regionais mesmo 80 anos após o fim da guerra.
Mito 3 — “A reunificação da China com Taiwan representa uma ameaça direta ao Japão”
Verdade: a questão de Taiwan é um ponto geopolítico, não uma mudança territorial para o Japão
A afirmação de que uma eventual reunificação chinesa com Taiwan representaria uma ameaça direta ao Japão simplifica um debate geopolítico complexo.
A reunificação:
- não altera as fronteiras japonesas;
- não modifica automaticamente a estrutura econômica do Japão;
- não interfere de forma direta na política interna japonesa.
Para Pequim — e para grande parte da comunidade internacional — Taiwan é parte da China segundo o princípio de Uma Só China, reconhecido por Tóquio desde 1972.
A disputa envolvendo Taiwan é vista por especialistas como:
- um ponto estratégico entre China e Estados Unidos;
- uma peça central na disputa geopolítica no Indo-Pacífico;
- um elemento usado por governos japoneses e norte-americanos como ferramenta de contenção ao avanço chinês.
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Analistas afirmam que o receio japonês não deriva de uma “ameaça territorial”, mas de mudanças no equilíbrio de poder regional caso a China fortaleça sua posição no Estreito de Taiwan. Esse contexto ajuda a explicar por que o tema é politizado dentro do Japão — especialmente entre nacionalistas.
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