Neste domingo (16), a China enviou navios militares para as Ilhas Diaoyu, disputadas, mas sob controle japonês, após uma série de provocações da nova primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, sobre a questão de Taiwan.
A nova chefe de governo sugeriu que uma ação militar chinesa para reunificar Taiwan poderia representar uma “ameaça à sobrevivência” do Japão, implicando que o país poderia agir em defesa do governo rebelde de Taipei contra Pequim.
Pequim reagiu com dureza:
- convocou o embaixador japonês a conceder explicações;
- emitiu múltiplas notas oficiais de protesto;
- alertou cidadãos chineses a evitarem viagens ao Japão;
- companhias aéreas da China passaram a oferecer reembolso integral de passagens;
- a Guarda Costeira chinesa passou a patrulhar as Ilhas Diaoyu.
As falas de Takaichi foram interpretadas como “aventureirismo militar”, “ressurreição do militarismo” e “golpe contra a paz regional”.
“A China está altamente preocupada com isso e pede ao lado japonês que trate o assunto com seriedade, investigue e contenha tais declarações. Reiteramos nosso apelo para que o Japão encare corretamente a raiz do problema, corrija e retire de imediato as declarações injustificadas e pare de confundir certo e errado, desviar a atenção e culpar a China”, afirmou Lin Jian durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (14), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.
O rompimento de Takaichi
A nova primeira-ministra japonesa assumiu o governo após uma série de crises internas na liderança do partido LDP, que governa o país há 68 anos. O crescimento da extrema direita japonesa fez com que o novo governo adotasse uma postura mais militarista e radical, remontando aos tempos imperiais do Japão e rompendo o pacto pós-Segunda Guerra Mundial, em que Tóquio reconhecia uma postura pacifista frente aos seus vizinhos.
Em 1995, o então primeiro-ministro do Japão publicou a “Declaração de Murayama”, que reconheceu erros japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, um dos sinais mais importantes para a reaproximação política entre Tóquio e vizinhos vitimados no conflito, como China, Coreia, Singapura e outros países do Sudeste Asiático.
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Um vídeo resgatado pela imprensa japonesa relembra que, em 1994, a então deputada Sakai Takeichi criticou Murayama por sua postura, afirmando que o então primeiro-ministro errou ao reconhecer que o Império Japonês cometeu erros em seu passado.
Três décadas depois, Takaichi ensaia um rompimento total com a política de neutralidade japonesa e volta-se novamente contra os vizinhos regionais. Esta é uma das pautas centrais da extrema direita japonesa: negar os crimes cometidos pelo Império e poder voltar à postura expansionista na Ásia.
A postura belicista foi alvo de protestos: neste sábado (15), cidadãos japoneses protestaram contra as falas de Takeichi sobre Taiwan, exigindo sua renúncia:
Pressão em Taiwan
Outro fator que intensifica as tensões contra a China no Pacífico está na primeira venda de armamentos dos EUA para Taiwan desde a posse de Donald Trump em seu segundo mandato.
O Departamento de Estado dos EUA aprovou um pacote de US$ 330 milhões em peças sobressalentes e serviços de suporte para aeronaves da Força Aérea de Taiwan (RoCAF).
O objetivo declarado é manter a “prontidão operacional” da frota. Taiwan opera F-16 desde o fim dos anos 1990 e deve se tornar o maior operador estrangeiro do modelo.
Washington reduz a venda de equipamentos avançados a Taiwan por receio de vazamento tecnológico, dada a complexidade política da ilha e o reconhecimento internacional majoritário de Pequim como o governo legítimo da China. Mesmo assim, os EUA seguem armando Taipei no contexto da disputa interna chinesa.
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As Ilhas Diaoyu
As Ilhas Diaoyu — conhecidas no Ocidente como Senkaku — são um pequeno arquipélago no Mar da China Oriental cuja soberania é motivo de disputa entre a China e o Japão. Do ponto de vista da República Popular da China (RPC), a história é clara: as ilhas sempre fizeram parte do território chinês desde a dinastia Ming (século XIV), sendo utilizadas por pescadores chineses e registradas em mapas e documentos oficiais.
Após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, o Japão anexou as ilhas em 1895, em um momento de agressão imperialista, desconsiderando os direitos históricos chineses.
Com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, a China esperava a devolução de seus territórios ocupados, conforme estabelecido na Declaração do Cairo (1943) e na Declaração de Potsdam (1945). No entanto, os Estados Unidos, durante a ocupação pós-guerra, passaram a administrar as ilhas e, em 1972, transferiram o controle administrativo ao Japão, num movimento considerado ilegítimo por Pequim.
A China defende uma solução pacífica, mas firme, exigindo que o Japão reconheça os fatos históricos e as normas do direito internacional. Para Pequim, a integridade territorial é inegociável, e a soberania sobre as Ilhas Diaoyu é uma questão de justiça histórica e dignidade nacional.
Em maio, o Japão afirmou que a China violou seu espaço territorial por conta da passagem de um helicóptero militar chinês sobre as ilhas.