A China ocupa uma posição central — e muitas vezes ambígua — no debate global sobre a poluição plástica. Historicamente, é um dos maiores produtores, consumidores e exportadores de plásticos do mundo. Ao mesmo tempo, tem implementado políticas cada vez mais rigorosas para enfrentar os impactos ambientais dessa cadeia produtiva.
Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, o tema central é “Combater a Poluição Plástica” (Beat Plastic Pollution, em inglês). A campanha global deste ano reforça a urgência de enfrentar a crise dos resíduos plásticos, que ameaça ecossistemas, compromete a saúde humana e gera custos econômicos altíssimos.
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Durante a coletiva de imprensa regular do Ministério das Relações Exteriores, realizada nesta quinta-feira (5), o porta-voz Lin Jian ressaltou o compromisso da China com o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental, embora não tenha abordado diretamente o tema da poluição plástica.
Ele enfatizou que, nas últimas duas décadas, desde a formulação da filosofia segundo a qual “verde é ouro”, o país tem buscado soluções eficazes para os desafios da governança ecológica, equilibrando crescimento econômico e preservação ambiental.
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“A China apresenta a maior redução da intensidade energética do mundo e melhorias notáveis na qualidade do ar. Somos responsáveis por um quarto de toda a área reflorestada recentemente no planeta e construímos o maior e mais dinâmico sistema de energia renovável do mundo, além da cadeia industrial mais ampla e completa de novas energias”, destacou Lin.
O porta-voz também sublinhou a contribuição chinesa para a transição verde em escala global. Segundo ele, a China mantém projetos de cooperação em energia limpa com mais de 100 países e regiões, promovendo o fluxo livre de tecnologias e produtos verdes de alta qualidade.
Atualmente, o país fornece mais de 80% dos componentes fotovoltaicos e 70% dos equipamentos de energia eólica utilizados no mundo. Essa liderança contribuiu para a queda de mais de 80% nos custos globais de construção de usinas solares e 60% nos de usinas eólicas, facilitando o acesso à energia limpa, especialmente em países em desenvolvimento.
“Compartilhamos um só planeta e pertencemos à mesma humanidade. A China seguirá comprometida com o desenvolvimento verde baseado na conservação ecológica e continuará atuando de forma responsável como facilitadora, ao lado da comunidade internacional, para implementar o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e construir um mundo limpo, belo e sustentável”, concluiu.
A crise da poluição plástica
De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), cerca de 11 milhões de toneladas de plástico são despejadas anualmente em ecossistemas aquáticos. Microplásticos já foram detectados em alimentos, no ar e até no corpo humano. Estima-se que o custo social e ambiental da poluição plástica possa atingir até US$ 600 bilhões por ano.
A campanha de 2025 ocorre em um momento estratégico: antecede uma nova rodada de negociações da ONU, marcada para agosto em Genebra, que busca estabelecer um tratado global juridicamente vinculante para pôr fim à poluição plástica. A expectativa é que ações coordenadas em nível internacional possam reduzir em até 80% a poluição por plástico até 2040.
O PNUMA destaca que a poluição plástica intensifica os impactos da tripla crise planetária: as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a poluição generalizada. Apesar da gravidade do problema, existem soluções viáveis já disponíveis, e o engajamento da sociedade é fundamental para reverter esse cenário.
Como a China tenta virar o jogo
A China lidera a produção global de plásticos, sendo responsável por cerca de 30% do total mundial. Ao mesmo tempo, figura entre os maiores geradores de resíduos plásticos mal gerenciados, sobretudo em áreas urbanas que crescem rapidamente.
Até 2017, o país era o principal destino mundial de resíduos plásticos recicláveis, importando toneladas de lixo de países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão — o que lhe rendeu a pejorativa alcunha de "lixeira do mundo".
Essa realidade começou a mudar em 2018, com a implementação da política National Sword, que proibiu a importação de resíduos plásticos. A medida provocou um forte impacto no sistema global de reciclagem, obrigando países exportadores a encontrar alternativas para lidar com seus próprios resíduos. Apesar do desequilíbrio inicial, a política marcou um ponto de inflexão importante na busca da China por soberania ambiental e no combate ao comércio internacional de lixo.
Desde 2020, o país também adota uma política nacional de restrição ao uso de plásticos descartáveis, com metas progressivas e abrangentes. Entre as principais medidas estão:
- Proibição de sacolas plásticas em grandes cidades (em vigor desde 2021);
- Redução gradual do uso de plástico em embalagens de e-commerce e delivery;
- Proibição de canudos e utensílios plásticos descartáveis em restaurantes e hotéis;
- Incentivo à substituição por materiais biodegradáveis, com apoio estatal, subsídios e políticas de incentivo à inovação.
Essas ações integram uma estratégia mais ampla de transição ecológica, buscando compatibilizar o crescimento econômico com um novo modelo de produção e consumo mais sustentável.
Liderança chinesa em inovação, tecnologia e indústrias
A China ocupa posição de vanguarda no desenvolvimento de tecnologias de reciclagem química e mecânica. Inovações recentes incluem o uso de sensores ópticos, inteligência artificial e sistemas robóticos para a triagem automatizada de resíduos em escala industrial, aumentando significativamente a eficiência e a qualidade do processo.
O país também lidera a produção global de materiais biodegradáveis, como PLA (ácido polilático) e PBAT (tereftalato adipato de polibutileno), amplamente utilizados em embalagens, sacolas e utensílios descartáveis. Uma das metas mais ambiciosas do governo é eliminar o uso de sacolas plásticas não biodegradáveis nas principais cidades até 2025, estimulando a transição para alternativas sustentáveis.
Além disso, a China é atualmente o maior fabricante mundial de equipamentos para triagem e reciclagem de resíduos sólidos. O parque industrial do país tem passado por um processo acelerado de modernização para dar conta do enorme volume de resíduos domésticos e industriais gerados anualmente.
Cidades como Xangai, Shenzhen e Hangzhou vêm se destacando pela implementação de sistemas inteligentes de gestão de resíduos, que utilizam lixeiras automatizadas, reconhecimento facial e recompensas digitais para incentivar o descarte correto. Essas iniciativas integram a estratégia nacional de construção de uma “civilização ecológica”, conceito central nas diretrizes ambientais promovidas por Xi Jinping desde 2007.
Participação ativa nas negociações da ONU
A China é protagonista nas negociações para um tratado global contra a poluição plástica. A próxima rodada ocorrerá entre 5 e 14 de agosto de 2025, em Genebra, durante a segunda parte da 5ª sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC-5.2).
Durante as rodadas anteriores, como a realizada em Busan (Coreia do Sul), a China defendeu o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, pressionando países ricos a contribuírem com financiamento e transferência de tecnologias para apoiar os países em desenvolvimento.
“Verde é ouro”: da filosofia à política de Estado
A expressão “verde é ouro” (que em chinês significa “montanhas verdes e águas límpidas são montanhas de ouro e prata”) foi popularizada por Xi Jinping em 2005, quando ele ainda era secretário provincial do Partido Comunista da China (PCCh) na província de Zhejiang. Desde então, a frase se tornou um símbolo da virada ecológica da China, orientando tanto o discurso quanto as ações práticas do Estado chinês em matéria ambiental.
Política de Estado
O princípio de que desenvolvimento econômico e preservação ambiental são compatíveis foi incorporado oficialmente aos Planos Quinquenais, em especial a partir do 13º (2016–2020). Em 2018, o conceito foi elevado a princípio constitucional, consolidando o compromisso do PCCh com uma civilização ecológica. As metas passaram a incluir descarbonização progressiva, reflorestamento em larga escala e fortalecimento da economia verde, com estímulo à inovação tecnológica e à eficiência energética.
Governança ecológica
Com o objetivo de tornar o combate à degradação ambiental mais efetivo, a China criou tribunais especializados em questões ambientais, reformulou suas leis de proteção ecológica e ampliou a capacidade de fiscalização remota por meio de monitoramento via satélite, drones e plataformas de big data. O controle passou a ser mais centralizado, mas também mais técnico, com foco na responsabilização de autoridades locais e empresas poluidoras.
Reflorestamento em massa
A China conduz, desde os anos 1980, o maior programa de reflorestamento do mundo, mas os resultados mais significativos ocorreram após a adoção da filosofia “verde é ouro”. Desde os anos 2000, a cobertura florestal do país aumentou cerca de 10%, representando aproximadamente um quarto do total global de áreas reflorestadas nas últimas décadas. O reflorestamento tem sido estratégico tanto para combater a desertificação quanto para compensar emissões de carbono.
Transição energética
Guiada pela nova filosofia, a China emergiu como líder global em tecnologias de energia limpa. O país é hoje o maior produtor e instalador de painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos, além de ser pioneiro em soluções de armazenamento de energia e redes inteligentes. A meta de atingir o pico das emissões de carbono até 2030 e neutralidade até 2060 depende fortemente da consolidação desse setor.
Diplomacia ambiental
A filosofia “verde é ouro” também passou a orientar a política externa ambiental da China. O país assumiu papel ativo nas negociações climáticas da ONU, lançou o Fundo Sul-Sul para o Clima, voltado ao apoio de nações em desenvolvimento, e incorporou metas ambientais à Iniciativa do Cinturão e Rota, por meio da chamada Rota da Seda Verde, que promove projetos de infraestrutura com menores impactos ecológicos.
Esse conjunto de ações tem gerado avanços concretos, mas também enfrenta contradições e críticas — como a manutenção da dependência do carvão, os impactos ambientais de megaprojetos e os desafios de implementação local. Ainda assim, a filosofia “verde é ouro” representa uma mudança estrutural no modelo de desenvolvimento chinês, que busca associar prosperidade econômica à sustentabilidade ambiental em uma escala inédita.
China constrói soluções sustentáveis
A China foi protagonista da expansão global da poluição plástica, mas hoje se reposiciona como um agente estratégico na construção de soluções sustentáveis. Suas ações domésticas — que vão da restrição ao plástico descartável à inovação tecnológica em reciclagem — já influenciam profundamente cadeias produtivas globais e o ritmo da transição ecológica em diversos setores.
No cenário internacional, sua participação ativa nas negociações multilaterais será determinante para o futuro ambiental do planeta. O desafio, no entanto, é complexo e urgente: equilibrar o crescimento econômico acelerado com uma transição ecológica efetiva, inclusiva e duradoura.
O mundo observa com atenção os próximos passos da China — e que tipo de liderança ela escolherá exercer diante da crise ambiental. O impacto de suas decisões não se restringirá a seu território: servirá de referência para o Sul Global e testará os compromissos reais das grandes potências industriais do século XXI.