A China reafirmou nesta segunda-feira (28) que está disposta a trabalhar com o Brasil, com outras nações da América Latina e do Caribe e com os países do BRICS para defender, em conjunto, o sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio (OMC), bem como a justiça e a equidade internacionais.
A declaração foi feita durante coletiva de imprensa do Ministério das Relações Exteriores da China, em Pequim. O porta-voz Guo Jiakun reiterou a posição chinesa e enfatizou que guerras tarifárias não têm vencedores e que práticas unilaterais não atendem aos interesses de nenhum país.
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Guo respondeu a uma pergunta da Folha de S.Paulo sobre a ameaça do governo de Donald Trump de impor tarifas de 50% ao Brasil, caso não seja interrompido o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — uma medida vista como interferência direta em assuntos internos e afronta à soberania nacional.
Cooperação em aviação entre Brasil e China
Guo também comentou sobre o que Brasília pode esperar de Pequim e do BRICS em termos de abertura de mercado para produtos como aviões.
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“A China atribui importância à sua cooperação orientada a resultados com o Brasil, incluindo a cooperação no setor de aviação. Estamos prontos para promover iniciativas relevantes com base em princípios de mercado e impulsionar o desenvolvimento nacional de ambas as partes”, afirmou.
A parceria entre Brasil e China na aviação tem avançado de forma significativa, combinando interesses comerciais, tecnológicos e ambientais. Nos últimos anos, os dois países firmaram acordos estratégicos que vão desde a certificação de aeronaves até a pesquisa em combustíveis sustentáveis.
Acordos técnicos e certificação de aeronaves
Em agosto de 2024, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e a Administração de Aviação Civil da China (CAAC, da sigla em inglês) assinaram a Revisão 1 dos Procedimentos de Implementação sobre Aeronavegabilidade (IPA), que facilita a validação mútua de certificações e normas técnicas. O acordo foi acompanhado por um “Roadmap de Cooperação”, que definiu prioridades como certificação de novas tecnologias, harmonização regulatória e capacitação técnica.
Embraer fortalece presença no mercado chinês
A Embraer, principal fabricante brasileira, também vem ampliando sua presença na China. Após obter certificação para os modelos E190-E2 e E195-E2 no país, a empresa fechou acordos para converter aeronaves comerciais em cargueiras com parceiros locais e busca integrar fornecedores chineses à sua cadeia de produção. Além disso, negociações estão em andamento para ampliar sua participação no mercado asiático.
Companhia brasileira negocia compra de aviões chineses
Pelo lado brasileiro, a Total Linhas Aéreas estuda a compra de até quatro aeronaves C919, produzidas pela estatal chinesa COMAC. Caso a negociação se confirme, a companhia se tornará a primeira operadora ocidental do modelo, com financiamento de até 80% fornecido pelo Banco de Desenvolvimento da China. A estratégia prevê reciprocidade: ao adquirir aviões chineses, a empresa pretende também impulsionar a venda de aeronaves da Embraer no mercado chinês.
Sustentabilidade é pilar da parceria
A sustentabilidade é outro eixo central dessa cooperação. Em 12 de maio deste ano, o Brasil assinou um Memorando de Entendimento com a CAFUC (Universidade de Aviação Civil da China) para pesquisa conjunta em Sustainable Aviation Fuel (SAF), em linha com o Plano Nacional de Combustível Sustentável de Aviação e os objetivos de descarbonização do setor.
A iniciativa ganhou impulso com o anúncio do investimento de US$1 bilhão da chinesa Envision Group na produção de SAF no Brasil, utilizando cana-de-açúcar como matéria-prima
Perspectivas para a aviação Brasil-China
Essa cooperação abre caminho para novas oportunidades. A entrada do C919 pode facilitar regulações futuras no Brasil, enquanto a integração entre a Embraer e fornecedores chineses tende a gerar projetos conjuntos e a fortalecer a indústria dos dois países. Além disso, os investimentos em combustíveis sustentáveis posicionam a parceria em sintonia com as metas globais de descarbonização do setor aéreo.
Com bases sólidas em acordos técnicos, interesses comerciais e inovação sustentável, Brasil e China consolidam uma relação que promete transformar não apenas o mercado aeronáutico, mas também acelerar a transição para uma aviação mais verde e alinhada aos desafios globais.