É comum ouvir críticas à China que atribuem a competitividade do país a condições de trabalho próximas à escravidão. Um dos exemplos mais citados é o modelo “996” — expediente das 9h às 21h, seis dias por semana. Na prática, são 72 horas semanais, muito acima dos limites adotados na maior parte do mundo.
Desde 2021, essa escala "996" é proibida pelo governo chinês. A mudança ganhou força quando o Ministério de Recursos Humanos e Segurança Social e o Supremo Tribunal Popular atuaram de forma coordenada, divulgando casos reais de disputas trabalhistas para servir de exemplo.
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Nessas decisões, ficou claro que impor a jornada de 72 horas semanais é ilegal e que qualquer cláusula contratual ou norma interna que a exija não tem validade. O objetivo foi não apenas punir, mas também educar empresas e trabalhadores sobre os direitos previstos em lei.
A legislação trabalhista chinesa estabelece jornada padrão de até 8 horas diárias e 40 a 44 horas semanais. Horas extras são permitidas, mas com limites rígidos: no máximo 1 por dia em condições normais ou até 3 em situações excepcionais, respeitando um teto de 36 horas mensais — muito abaixo do exigido pelo "996".
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A fiscalização combina inspeções periódicas e visitas surpresa a empresas de setores com histórico de abusos, como tecnologia, manufatura e serviços. Denúncias de trabalhadores também motivam investigações, e empresas flagradas podem receber multas, ordens de ajuste imediato e até ter seus nomes expostos em listas negras oficiais.
Essa combinação de pressão legal e fiscalização ativa reduziu o "996" em várias companhias, sobretudo nas mais visadas pelo governo, embora ainda haja resistência no setor privado, especialmente na indústria de tecnologia.
Escala 996 avança nos EUA
Nos Estados Unidos de Donald Trump, o cenário é oposto. Startups, especialmente de inteligência artificial, vêm importando o modelo numa corrida para competir entre si e com a China. Reportagem da Wired mostra que, mesmo com a fama de “escravidão moderna”, diversas empresas no país têm adotado a jornada de 72 horas semanais. Algumas impõem o esquema; outras oferecem bônus para quem aceitar.
O empresário Adrian Kinnersley, dono de empresas de recrutamento e conformidade trabalhista, afirmou à revista estar surpreso com a adesão:
“Está se tornando cada vez mais comum. Temos vários clientes para os quais o primeiro filtro antes de chamar para entrevista é saber se o candidato está disposto a trabalhar no esquema 996.”
Efeito Elon Musk
No início da pandemia de Covid, o debate nos EUA girava em torno do cansaço extremo e da necessidade de mais flexibilidade. Até empresas de tecnologia, conhecidas por cobrar alto desempenho, passaram a defender o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Agora, o avanço do 996 marca uma inversão dessa tendência: volta-se a valorizar a dedicação total, mesmo que isso signifique sacrificar descanso e convívio social.
O movimento lembra o episódio de 2022, quando Elon Musk enviou um e-mail aos funcionários do X (antigo Twitter) exigindo “altíssimo desempenho” e “longas horas de trabalho com alta intensidade”, sob pena de demissão.
A mensagem, que repercutiu mundialmente, tornou-se símbolo da pressão extrema que algumas empresas estão dispostas a impor para acelerar resultados, mesmo à custa da saúde e do bem-estar de seus trabalhadores.
Subcultura da Geração Z
Algumas empresas não apenas encontram facilmente profissionais dispostos a adotar o 996, como incorporam essa rotina à própria identidade. Um exemplo citado pela Wired é a Rilla, startup de inteligência artificial que desenvolve softwares para empreiteiros gravarem conversas com clientes e receberem orientações sobre como negociar preços mais altos. Na empresa, quase todos os 80 funcionários seguem a jornada das 9h às 21h, seis dias por semana.
Para Will Gao, chefe de crescimento da Rilla, esse engajamento está ligado a uma subcultura forte entre jovens da Geração Z, que veem na dedicação extrema um caminho para o sucesso. Nascida, em geral, entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010, essa geração cresceu totalmente imersa no mundo digital, com internet, smartphones e redes sociais desde cedo.
Entre suas características estão familiaridade com tecnologia, capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, valorização da diversidade e inclusão, preferência por soluções rápidas e objetivas e busca por propósito no trabalho e na vida pessoal. Por terem crescido em um cenário de mudanças rápidas e inovação constante, são vistos como adaptáveis e criativos, mas também como impacientes e pouco tolerantes à burocracia.
Exemplos e críticas
Defensores do "996" comparam a rotina à disciplina de nomes como Steve Jobs, que passou anos obcecado em transformar a Apple em uma das empresas mais influentes do mundo, e Kobe Bryant, famoso por treinar horas a fio para se manter no topo do basquete. Para eles, longas jornadas são um investimento pessoal: quanto mais tempo e energia dedicados, maiores as chances de resultados extraordinários.
Críticos alertam que essa visão romantizada ignora os impactos na saúde física e mental. Jornadas tão extensas aumentam o risco de estresse crônico, burnout, distúrbios do sono, problemas cardiovasculares e isolamento social. Também podem violar leis trabalhistas, especialmente em países com limites claros para a jornada e exigência de pagamento de horas extras.
Apesar das críticas, especialistas afirmam que o "996" dificilmente desaparecerá a curto prazo. Ele está ligado a uma mentalidade de competição intensa e crescimento acelerado, típica do universo das startups e da tecnologia.
Para alguns empresários, adotar esse ritmo serve como filtro para identificar quem está disposto a se comprometer ao máximo. Tanto que já há empreendedores registrando domínios e criando plataformas de recrutamento para atrair profissionais interessados nesse tipo de rotina — transformando o "996", que nasceu como prática polêmica na China, em um nicho de mercado.
Na prática, startups dos EUA estão importando uma rotina que a própria China passou a considerar abusiva e prejudicial à saúde dos trabalhadores, numa corrida para manter ritmo de inovação e presença no mercado global.
Enquanto a China endurece regras para proteger seus profissionais, parte das empresas nos EUA vê no excesso de horas uma “vantagem competitiva” para enfrentar o gigante asiático.