segunda-feira, 21 set 2020
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Clarin admite fake news em que acusou ministro de Cristina Kirchner de tráfico de drogas

A acusação contra Aníbal Fernandez – que não tem parentesco com Alberto Fernández e nem com Cristina Fernández de Kirchner – não surgiu na época do crime. Ela foi feita exatamente a uma semana da eleição para o governo da província de Buenos Aires em 2015

Por Rogério Tomaz Júnior*

Caiu definitivamente esta semana uma das “fake news” mais sórdidas contra um dos políticos mais importantes da Argentina nas últimas décadas.

Anibal Fernandez, que foi chefe da Casa Civil no governo de Cristina Kirchner, ministro de Justiça e Direitos Humanos no mesmo governo, ministro do Interior no governo Néstor Kirchner, foi acusado de ser traficante de drogas e de ter participado de um assassinato de três pessoas ocorrido em 2008, um caso conhecido como “Crime triplo de General Rodriguez”.

Mas aqui a história começa a ficar estranha. A acusação contra Aníbal – que não tem parentesco com Alberto Fernández e nem com Cristina Fernández de Kirchner – não surgiu na época do crime. Ela foi feita exatamente a uma semana da eleição para o governo da província de Buenos Aires em 2015.

Aníbal era favorito para vencer a eleição na província que é um histórico reduto peronista. A última vitória antiperonista havia ocorrido em 1987. Mas o candidato da então presidenta Cristina Kirchner acabou perdendo a disputa para a macrista María Eugenia Vidal por apenas 378 mil votos e uma diferença de 4% (39 a 35%) – nas eleições das províncias da Argentina não existe segundo turno.

Essa derrota pode ter causado, inclusive, a derrota na eleição presidencial do candidato apoiado pelo governo da presidenta Cristina Kirchner, Daniel Scioli, que foi derrotado pelo Maurício Macri por apenas 700 mil votos: 51,4% contra 48,6%. Caso Scioli – hoje embaixador da Argentina no Brasil – tivesse tirado de Macri pouco mais de 350 mil votos, teria vencido a eleição e a história do país seria outra.

A farsa
Nas semanas anteriores àquela eleição, a deputada Elisa Carrió e o jornalista Jorge Lanata produziram uma série de entrevistas com criminosos que acusaram Aníbal Fernández de possuir vínculos com o narcotráfico e com o triplo assassinato de General Rodríguez.

Uma das entrevistas conduzidas por Lanata ocorreu no apartamento da deputada, embora ela não aparecesse no programa. Carrió, soldada de Macri, era o braço político da operação. Telespectadores argentinos identificaram o apartamento da parlamentar por conta do mobiliário do local, sempre exibido nas redes sociais de “Lilita”, que foi obrigada a reconhecer que cedeu a sua própria casa para a armação.

O jornalista Jorge Lanata

Um dos entrevistados, Martin Lanatta, que não é parente do jornalista, contou da prisão que Aníbal era o famoso traficante conhecido na Argentina apenas pelo apelido “La Morsa”.

A “revelação”, somada às outras acusações que Lanata levou ao ar no seu programa “Periodismo para todos”, líder de audiência da Argentina e exibido por um canal do grupo Clarín, foi usada em peças oficiais das campanhas de Maurício Macri e María Eugenia Vidal na reta final da acirrada disputa na qual o peronismo concorreu na província dividido com dois nomes – o outro era Felipe Solá, atual chanceler do governo de Alberto, que obteve 19,2% dos votos naquele pleito.

O fim da farsa

O Clarín, que é a Globo da Argentina, mas tem ainda um domínio maior no país do que a Globo tem no Brasil, publicou no domingo (13) uma longa reportagem reconstituindo uma operação de combate ao narcotráfico ocorrida em 2003.

E lá no 13º parágrafo – sim, no 13º parágrafo, quase no final da matéria – o Clarín informou, quase sem querer, que o homem conhecido como “La Morsa” não era o Aníbal Fernandez, mas um ex-espião argentino, Julio Cesar Pose. “Numerosas fontes sustentam que Pose é ‘La Morsa’, apelido que se atribuiu a Aníbal Fernández para incriminá-lo no tráfico de efedrina”, é tudo o que o império midiático disse.

Foi o suficiente para até o presidente Alberto ir ao Twitter e apontar o fim da farsa. “Na Argentina parte da justiça, da política e da mídia combinaram difamar e perseguir opositores. Quando suas mentiras caem os mesmos que faziam isso se corrigem de passagem. Resulta que Aníbal Fernández não era ‘la Morsa’. Enfim…”, publicou o mandatário poucas horas após a divulgação da reportagem.

Eu costumo dizer que a mídia da direita argentina consegue ser ainda mais canalha do que a brasileira, mas a discussão está em aberto. Mas, sem nenhuma dúvida, a direita argentina é a mais cinematográfica da América Latina para produzir seus factoides contra a esquerda.

Mais detalhes no vídeo:

*Rogério Tomaz Júnior é jornalista brasileiro residindo em Mendoza, onde faz mestrado em Estudos Latinoamericanos na Universidade Nacional de Cuyo e escreve o livro “Conversando com Eduardo, viajando com Galeano”, a ser publicado em 2021.

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