Coronavírus: “Estamos quase diante de uma pandemia”, diz infectologista

Em entrevista exclusiva para Fórum, o infectologista Marcos Caseiro falou sobre a disseminação do vírus pelo mundo, as possíveis origens da doença e ação do poder público com relação à crise que já culminou na morte de mais de 100 pessoas

A elevação do grau de risco global do novo coronavírus (2019-nCoV) para “alto” por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) gerou um novo alerta para a doença. Em conversa com a Fórum, o infectologista Marcos Montani Caseiro comentou sobre a alta transmissibilidade do vírus, as possíveis origens e as medidas que o poder público deve tomar para tentar impedir que a epidemia se transforme em uma pandemia.

Para Caseiro, o início da transmissão do tipo de coronavírus surgido na cidade Wuhan pode, sim, ter a ver com a ingestão de animais exóticos, como foi especulado sobre a sopa de morcego. Ele destaca, no entanto, que já se tem a noção de que a zoonose é transmitida também de forma interpessoal – ou seja, entre seres humanos.

“Não tenha dúvida que o caminho foi esse. O sequenciamento do vírus mostra que ele circula principalmente entre morcegos, mas não causa doenças aos morcegos. Uma parte do sequenciamento também mostra que ele chega em cobras, em najas”, afirmou. “O que parece é que ele tem origem nos morcegos. Certamente o contato foi nesse nível, teria a ver com essa alimentação de morcegos”, completou.

Mutações

O infectologista conta que os coronavírus são muito comuns na natureza e muitas vezes não conseguem atingir os seres humanos por não terem receptores compatíveis com as células do corpo humano. No entanto, por se tratarem de vírus RNA, passam por muitas mutações, e podem acabar conseguindo afetar seres humanos com o tempo. “Ele vai acumulando mutações. Algumas delas podem propiciar que eles encontrem novos receptores que antes não encontravam no homem”, disse.

OMS

Caseiro ainda avalia que a posição tomada pela OMS foi prudente. “No momento em que você parte de transmissão local de grau 2 para disseminação para outros países em menos de um mês, isso já é um critério de uma emergência sanitária internacional”, afirma. “A gente está diante de um vírus pouco conhecido, nós não temos medicamento efetivo, não temos uma vacina. Nesse sentido, sempre traz um certo risco e o que nós temos de medidas é adotar um controle sanitário internacional, em portos, aeroportos”.

“Nós estamos diante de uma doença com potencial muito grande de transmissibilidade. Estamos diante quase de uma pandemia. No momento, todos os casos tem relação com Wuhan ou com a China, mas a partir do momento que houver transmissão local dentro dos países estaremos diante de uma situação pandêmica”, alertou.

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Brasil

O infectologista ainda elogiou as medidas adotadas pelo Ministério da Saúde. “As medidas parecem estar sendo muito adequadas. O que nós temos de ter é uma restrição de áreas em que possam circular o vírus. Uma menina que veio de Wuhan, por exemplo, deve ficar em observação”, disse. “Tem que ser feita nesse momento uma vigilância estrita em portos e aeroportos em todo indivíduos procedentes dessas áreas infectadas”, completou.

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Carnaval

Caseiro ainda descartou que o carnaval possa ser catalisador de uma epidemia da doença, como tem circulado em redes sociais. “O vírus não tem asas, ele não é um vírus supersônico. A China é longe”, brincou. “Para o vírus chegar aqui ele precisa chegar por via de alguma pessoa transportando. Seria de uma enorme imprudência chegar um indivíduo que veio procedente de Wuhan, ficar em quarentena por 14 dias e começar a ter os sintomas só no Carnaval. Seria uma tragédia, né?”, disse ainda.

“Para imaginar a disseminação temos que imaginar o indivíduo chegando dessas áreas endêmicas. Esses indivíduos, independente de terem sintomas, devem evitar de se expor em áreas públicas. A vigilância é super importante”, completou.

Nesse sentido, ele concordou com a decisão do governo de não trazer brasileiros que foram infectados na China para o país. “Olha, eu diria que essa foi a única decisão prudente nesse segundo ano de governo Bolsonaro. Não tem o menor sentido deslocar um avião com o risco de trazer um individuo contaminado aqui para o país. Além disso, a China está muito mais preparada para lidar com esses casos do que a gente está. Eles serão muito melhor tratados lá”, declarou.

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Lucas Rocha

Lucas Rocha é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e cursa mestrado em Políticas Públicas na FLACSO Brasil. Carioca, apaixonado por carnaval e pela América Latina, é repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Revista Fórum e apresentador do programa Fórum Global

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