Debate Biden x Trump foi o que se esperava: um caos, por Heloisa Villela

Biden respondeu quando pode, interrompeu Trump menos do que foi interrompido e, me parece, marcou pontos com os indecisos quando cobrou respostas sobre o imposto de renda do presidente

Foi um caos! Justamente o caos que já se esperava. O presidente Donald Trump entrou no debate decidido a não deixar ninguém falar. Nem o moderador. O jornalista Chris Wallace teve que brigar para chegar ao fim das perguntas e por mais de uma vez repreendeu o presidente. Trump seguia falando sobre a voz de Wallace e, principalmente, sobre as respostas de Biden.

Durante todo o debate, a tela da transmissão ficou dividida. Os telespectadores viam exatamente o que estava acontecendo e qual era a reação e a expressão do rosto dos candidatos.

Biden riu bem mais do que franziu a testa. Foi com sorrisos e até quase gargalhadas que ele reagiu a quase todas as declarações que considerou absurdas ou mentirosas. Raras vezes falou olhando para o adversário político. Só abandonou esse script quando Trump se referiu ao filho dele, Hunter Biden. E aproveitou para dar uma alfinetada: “Se fossemos falar dos seus filhos ficaríamos a noite toda aqui”.

Donald Trump teve a oportunidade de condenar a violência de supremacistas brancos quando o moderador insistiu que ele denunciasse esses grupos acusados pela morte de dois ativistas antirracistas durante protestos em Kenosha, Wisconsin. Trump disse: “claro” e perguntou que grupos devia condenar. Biden citou o Proud Boys, uma conhecida organização de extrema direita.

Trump disse apenas: Proud Boys? Fiquem na retaguarda e aguardem! Nas mídias sociais, o grupo comemorou a resposta imediatamente.

Apesar da confusão, característica mais marcante desse primeiro debate presidencial, os dois candidatos tiveram a oportunidade de defender alguns pontos de seus programas e de fazer críticas contundentes um ao outro.

Quando a discussão girou em torno do voto afro-americano, Trump não perdeu tempo: lembrou ao eleitorado que Biden foi responsável pela Lei anticrime, de 1994, que resultou no encarceramento em massa dos negros. Mas se recusou a condenar os grupos supremacistas brancos. Apertado, falou que o grande problema do país é a esquerda, a Antifa. E Biden corrigiu: Antifa é uma ideia, não é um movimento.

Sempre que foi possível, Biden levou a discussão para a pandemia, para as mais de 200 mil mortes e falou olhando para a câmera, conversando com o público, como quando perguntou: “E você, está faltando alguém na mesa da sua cozinha?”, para lembrar o efeito devastador da Covid em milhares de famílias do país.

Trump também se dirigiu a eleitores essenciais quando o tema do bate-boca mudou para as manifestações no país, o policiamento e a violência. O presidente citou Pensilvânia, Wisconsin e Minesota como exemplos de estados que vivem hoje, disse ele, como se estivessem em uma cadeia, impedidos, pelos governadores democratas, de reabrirem negócios e escolas.

Esses três estados são fundamentais para a reeleição de Trump. Ele venceu na Pensilvânia na última eleição. Mas agora, segundo as pesquisas, está 9 pontos atrás de Biden.

O moderador Chris Wallace apertou Trump no quesito meio ambiente. Forçou o presidente a explicar se acredita na ciência que explica o aquecimento global como consequência da atividade econômica do ser humano. Trump não deu o braço a torcer e Biden aproveitou para falar nos incêndios em curso no Brasil. Criticou Trump por não ter feito nada, por não ter pressionado o governo brasileiro, e prometeu que se for eleito, o Brasil sofrerá consequências sérias caso não cuide das suas florestas.

No fim da noite, fica a pergunta: quem ganhou o debate? Segundo pesquisa da rede CNN, para os telespectadores foi Biden. Disparado. Mas Hillary Clinton teve resultado semelhante em 2016 e nas urnas, Trump levou a melhor. Ele provavelmente empolgou o eleitorado que já é fiel ao presidente. Fez a performance do brigão mal educado que cultiva faz tempo. E tem público cativo.

Biden superou as expectativas traçadas pelos republicanos. Eles disseram, por semanas, que o democrata não teria energia nem capacidade mental para aguentar 90 minutos de debate. Ele aguentou, respondeu quando pode, interrompeu Trump menos do que foi interrompido e, me parece, marcou pontos com os indecisos quando cobrou respostas sobre o imposto de renda do presidente, descreveu um país onde milionários e bilionários ficam cada vez mais ricos e a população em geral paga o preço. E, claro, voltou o tempo todo às mentiras de Trump sobre o coronavírus, que custaram milhares de vidas ao país.

Perdedor mesmo, só o moderador Chris Wallace, que tentou de toda maneira conter a pancadaria, sem sucesso. Da próxima vez, aconselho a darem um botão que torne mudo o microfone dos candidatos.

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Heloisa Villela

Correspondente da Fórum em Nova York.