segunda-feira, 21 set 2020
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Dos EUA para a Colômbia e o mundo: Vidas negras importam, por Heloisa Villela

“Ser colombiano na Colômbia é como ser negro nos Estados Unidos”, dizia o cartaz empunhado por uma jovem, nas ruas de Bogotá, esta semana. Ao fundo, na foto, chamas no meio da noite, a rua tomada por manifestantes. Já são mais de 14 mortos nos protestos que se multiplicaram em diferentes cidades colombianas depois que a polícia matou o advogado Javier Ordoñez, pai de duas crianças, com golpes na cabeça que deixaram várias fraturas no crânio de Javier. A cena foi flagrada com um telefone celular, como aconteceu com George Floyd, nos Estados Unidos.

O jornalista Chris Hedges, que já foi correspondente do New York Times no Oriente Médio e também na Colômbia, lembrou, em um programa da RT (Russian TV) que a polícia nacional colombiana já recebeu mais de 140 milhões de dólares dos Estados Unidos para treinamento dos oficiais desde o ano 2000. A militarização da polícia lá, como aqui nos Estados Unidos, é um processo que já leva mais de dez anos e coloca em risco a população civil organizada. Segundo o senador da oposição, e escritor, Gustavo Bolívar, sob a fachada da luta contra os narcotraficantes, nos primeiros seis meses do governo de centro-direita de Iván Duque, 46 indígenas, 106 líderes sociais e 50 ex-combatentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) foram assassinados. Este ano já foram mortos 128 líderes de movimentos civis.

O levantamento da situação da violência na Colômbia, agora e nos últimos anos, foi documentado na página da Internacional Progressista, na internet. Uma organização recente, que vai promover o primeiro encontro mundial na sexta-feira, dia 18. Tudo online, claro, porque o encontro marcado em Reykjavík, na Islândia, foi reprogramado por conta da pandemia. E o mundo pós-pandemia vai ocupar lugar central nas discussões. Como garantir a implementação de políticas progressistas, como curar as dores do planeta do ponto de vista do clima, da tensão racial, da economia…

A Internacional Progressista foi criada de olho na necessidade de uma união mais ampla, no mundo, para fazer frente ao acirramento das desigualdades no planeta. A concentração de renda que esmaga a classe média americana há mais de 40 anos só é diferente do empobrecimento da maioria na Colômbia, ou no Brasil, em escala. A violência de departamentos de polícia cada vez mais militarizados, nos Estados Unidos, tem muito mais semelhanças com o que acontece nas cidades colombianas do que se imagina. Se é evidente, em Los Angeles, Nova York, Mineápolis e Portlland que ainda há muito o que fazer para garantir os direitos dos negros no país, o mesmo vale para os países da América Latina.

A elite do hemisfério, construído sobre a escravidão, tem uma dívida gigantesca e só vai encarar essa história se for forçada a se olhar no espelho. É o que o movimento Black Lives Matter está obrigando o país a fazer. A expressão Vidas Negras Importam nasceu em uma mensagem escrita por Alicia Garza, no Facebook, depois que o assassino do jovem Trayvon Martin, de 17 anos, foi inocentado na Flórida. George Zimmerman, um autoproclamado vigilante, se incumbia de garantir a segurança do condomínio onde morava e achou que aquele rapaz negro, que estava visitando o pai, dono de uma casa do condomínio, com certeza não podia ser morador do local. No confronto, matou Trayvon. Revoltada, ela terminou a publicação dizendo: “povo negro, eu te amo. Eu amo a gente. Nós importamos. Nossas vidas importam”. Em segundos, a ativista Patrisse Cullors criou a hashtag #BlackLivesMatttter, surgiu a página na internet e as conexões em todo o país só se multiplicaram.

Sete anos depois, a frase que virou movimento deu vida a uma organização que tem lideranças a caminho do Congresso, em Washington, mobilizou os americanos como não se via desde a guerra do Vietnã, e despertou a convicção de que é preciso ir além da fronteira dos Estados Unidos. Como o cartaz no protesto da Colômbia, essa conexão também já é explícita em manifestações no Brasil e na Europa. Por isso o site do BLM anunciou que o movimento está passando por mais uma virada. Criou o BLMGrassrootts, um braço da organização que vai dar apoio estratégico e financeiro a outras iniciativas pelo mundo. E convidou outros representantes do que chamou de família negra global a se cadastrarem porque a organização tem algum dinheiro em caixa e experiência acumulada para dividir.
São grupos distintos. Progressistas e ativistas do movimento negro. São lutas aparentemente diversas. Mas se encontram aqui nessa visão de que vai ser preciso uma aliança bem mais ampla para garantir a sobrevivência digna do ser humano nesse planeta.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.