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27 de maio de 2019, 17h18

Eleições Europeias 2019: O que esperar para o futuro da Europa?

O resultado das eleições em si materializou um parlamento fragmentado, o que implicará a necessidade de um maior nível de diálogo e articulação entre os agrupamentos para aprovação de medidas cruciais como o orçamento europeu, mudanças climáticas e o controle das fronteiras.

Foto: TPCom

Por Beatriz Leandro* e Vinicius Sartorato**

A eleição para o Parlamento Europeu realizada na maior parte dos países no último dia 26 de maio marca o início de um novo ciclo para a União Europeia. Com a maior participação registrada desde 1979, foi perceptível o vigor eleitoral combinado com uma fragmentação política inédita.

Com mais de 400 milhões de eleitores, sendo a 2ª maior eleição democrática do mundo, só atrás da eleição indiana, o pleito elegeu mais de 700 deputados de 28 países do bloco. A participação dos eleitores superou a marca de 50%, em uma eleição facultativa, que há anos destoava das marcas nacionais. Na Bélgica por exemplo, mais de 88% dos eleitores foram votar. Esse fato, sem dúvidas, demonstrou o crescente interesse dos europeus sobre o futuro do continente, principalmente após o polêmico Brexit.

Entretanto, o resultado das eleições em si materializou um parlamento fragmentado, o que implicará a necessidade de um maior nível de diálogo e articulação entre os agrupamentos para aprovação de medidas cruciais como o orçamento europeu, mudanças climáticas e o controle das fronteiras.

A surpresa verde

Os jovens europeus (até 30 anos) constituem 20% do eleitorado. O crescimento dos partidos verdes está intimamente ligado à essa faixa da população: um em três jovens votaram em partidos que defendem a causa ambiental. Diferentemente das outras forças mais institucionais, os verdes tiveram outsiders puxando votos.

A campanha da jovem sueca Greta Thunberg, ativista da campanha em defesa do clima “Fridays for Future”, reverberou no continente. Toda sexta-feira ela ficava em frente ao parlamento sueco, na hora da escola, com o cartaz “Skolstrejk för klimatet” (Greve da escola pelo clima). O protesto se estendeu ao Parlamento Europeu e mais de 200 municípios se uniram com esse mote. Em fevereiro, na Bélgica, a revolta dos estudantes derrubou a ministra do meio ambiente, Joke Schauvliege.

Crescimento do nacional-populismo (extrema-direita)

O italiano Matteo Salvini, e a francesa Marine Le Pen saíram fortalecidos do processo eleitoral. O britânico Nigel Farage também se fortaleceu. Enquanto Le Pen liderou o pleito na França, o líder da Liga italiana venceu em casa e ainda mostrou-se como o grande articulador da tentativa de unificar extremistas no parlamento europeu.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, que está suspenso do Partido Popular Europeu (partido de Merkel e maior grupo político do Parlamento) devido à sua campanha anti-Bruxelas, deve se juntar aos extremistas.
Neste sentido, a unificação dos três agrupamentos de extrema-direita pode plasmar até o segundo maior bloco do Parlamento, aumentando significativamente o poder dos “eurocéticos”. Orbán, cujo partido Fidesz obteve 52% dos votos na Hungria, descreveu o resultado das eleições como “o início de uma nova era contra a migração”.

Crescimento liberal

Sob liderança do ex-primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, e do presidente francês, Emmanuel Macron, os liberais também conseguiram um crescimento importante de suas fileiras, em especial se garantindo como a primeira força política na Dinamarca, República Tcheca e Estônia. Mesmo sendo considerados de países secundários no bloco, o resultado dos liberais mostra uma tendência de crescimento da ALDE (Aliança Liberal), “roubando” eleitores moderados de direita e esquerda.

No Reino Unido, por exemplo, os estudos sobre transferência de votos mostram que os partidos tradicionais – Trabalhista e Conservador – perderam espaço para os Liberais-Democratas, os Verdes e em menor medida para o Change Party UK (independente).

Ainda que a maioria do Partido Trabalhista apoiasse o voto para permanecer na União Europeia (o campo “Remain”), o líder do partido Jeremy Corbyn demorou para se posicionar claramente sobre esta questão – e isso pode ter influenciado muitos eleitores.

Para David Uzzell, professor emérito de Psicologia Ambiental da Universidade de Surrey, Inglaterra, o líder trabalhista Jeremy Corbyn “teve uma grande oportunidade de se posicionar abertamente após o fiasco do Brexit, mas recusou”. Por isso, para ele, os eleitores pró-Europa perderam a confiança e migraram para outros partidos.

Contudo, em outros países a esquerda mostrou ter bastante força.

Socialistas e democratas resistem

Segunda força no Parlamento Europeu, os socialistas e democratas (S&D) destacaram-se liderando as eleições na Suécia e também na Espanha, com a legenda do primeiro ministro Pedro Sánchez, PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), que ganhou com folga, atingindo a marca de 32%. E em Portugal, em tendência semelhante: em que o Partido Socialista de António Costa ganhou 33% dos votos.

Na Itália, o Partido Democrático – de centro-esquerda – garantiu o segundo lugar, à frente do governista Movimento 5 Estrelas. A arquiteta italiana Valentina Pierri, 37, credita a ascensão do Partido Democrático aos “desapontados” com os governistas. Contudo, ela acredita que “há uma insatisfação fundamental no país” que não deve ser ignorada, mas que, para ela, “só a direita foi capaz de captar com uma linguagem popular, preconceituosa e arrogante”.

Centro-direita perde, mas indicará o presidente da Comissão Europeia

Mesmo com a redução no número de parlamentares os “populares” de centro-direita provavelmente continuarão liderando o parlamento europeu, por ser a maior bancada.

Neste sentido, o possível presidente da Comissão Europeia deve ser o alemão Manfred Weber – aliado de Merkel, que minimizou a perda de cadeiras de seu partido e ressaltou o interesse recente dos eleitores pelo Parlamento Europeu.

Desafios de longo prazo

Weber vem destacando que a estabilidade econômica e política do bloco passa necessariamente pela liderança de seu partido. Faz questão de ressaltar os princípios democráticos universais, mas mostra que, indiretamente, será influenciado por extremistas.

Weber deve buscar um acordo entre as forças europeístas contra extremistas de direita. Em seu plano para Comissão Europeia, defende 12 propostas para uma Europa “Forte, Inteligente e Humana”.

Com destaque para o eixo “forte”, a maior parte das falas de Manfred Weber expressam o fortalecimento da proteção fronteiriça europeia; a transformação do departamento policial europeu (Europol) para um FBI europeu, com maior compartilhamento de informações; e um olhar mais estrito para entrada de novos membros, resguardando princípios básicos de Estados democráticos de direito – o que deve dificultar a entrada de países como Turquia e Ucrânia.

Há 40 anos, data das primeiras eleições europeias, o filósofo alemão Hans Jonas lançava sua obra prima “O Princípio da Responsabilidade”. Para fazer frente à degradação acelerada da natureza e das relações humanas, ele defendia uma nova ética, a da responsabilidade. Este seria o imperativo moral para a própria sobrevivência da humanidade e do meio ambiente.

O novo parlamento mostra o Partido Popular Europeu (de Merkel) com a maioria dos assentos (23,7%), seguido dos Socialistas & Democratas (20,4%) e da ALDE (Aliança Liberal, 14%). Os verdes têm 9,2% e a Esquerda Unitária/Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL) 5%. Esses seriam os chamados pró-Europa.

Já os três grupos de eurocéticos ou extremistas de direita, se unificados, finalizariam com 23% (Aliança Europeia dos Povos e Nações – EAPN, Europa da Liberdade e da Democracia Direta – EFDD e Reformistas e Conservadores Europeus – ECR) e já poderiam ser a segunda força do parlamento.

Será que o lado ético, verde e humanista – ecoando os jovens grevistas pelo clima aos barcos atracados de imigrantes – vai sobrepor “o lado da força” nos próximos anos?

Pela história da Europa contemporânea, que nasceu com a queda de um muro (de Berlim), edificar um novo muro – à prova de seres humanos – não nos parece uma boa ideia. Como diria o alemão Hans Jonas, somente uma nova ética – moral, ecológica – é capaz de proteger a civilização como a conhecemos.

 

*Beatriz Leandro é bacharel em Relações Internacionais (PUC-SP). Mestre em Direito Internacional Humanitário pela Universidade Internacional de Andalucía (Espanha)

** Vinicius Sartorato (@vinisartorato) é jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha)


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