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10 de maio de 2019, 19h26

Eleições Europeias: O Brexit e o paradoxo do voto europeu na Grã-Bretanha

Uma situação caótica de consequências imprevisíveis no plano nacional e internacional

Reprodução

Por Fabio Porta* / Tradução de Vinicius Sartorato**

A notícia é de alguns dias atrás: os eleitores ingleses votarão no próximo dia 23 de maio (e não no dia 26, como a maioria dos europeus) para escolher os 73 deputados que representarão a Grã-Bretanha no próximo Parlamento Europeu.

Uma situação paradoxal, que a distância de quase três anos do referendo de junho de 2016, que ficou conhecido como Brexit (a saída britânica da União Europeia), complica ainda mais o quadro político nacional e internacional que resultou no imprevisível êxito do referendo.

Depois de três anos, inclusive, primeira-ministra Theresa May não foi capaz de aprovar no parlamento inglês um modelo de saída gradual acordado com a União Europeia. A primeira consequência disso é que foi concedida aos britânicos uma prorrogação de seis meses (até 31 de outubro) para saída definitiva do bloco. Enquanto a Grã-Bretanha elegerá deputados que poderão exercer seus mandatos por poucos meses (se não por poucas semanas).

Uma verdadeira “composição de cores”, que confirma a insensatez e a precipitação da escolha do então primeiro-ministro David Cameron de convocar um referendo na convicção de reforçar a permanência da Grã-Bretanha na UE; instrumento que, ao contrário, se tornou um “boomerang” que surpreendeu a todos.

Para vencer o Brexit foram aos subúrbios das grandes cidades, ao interior da Grã-Bretanha e às pessoas mais velhas (muitos jovens, pelo contrário, abstiveram-se de uma votação que eles não entendiam e muitas vezes não concordavam); tratou-se de uma votação definitivamente influenciada por uma sutil campanha de medo espalhada pelas redes sociais por alguém que alimentou a idéia de um sentimento anti-europeu, temendo uma improvável “invasão muçulmana” no Reino Unido por ondas de imigrantes que chegam da África e do sul da Europa.

Uma espécie de manipulação encoberta, como demonstrado e denunciado pela socióloga e jornalista inglesa Carole Cadwalladr, autora de uma investigação com a qual ela mostra como, mesmo na ausência de imigrantes (e, ao contrário, na presença de benefícios diretos do financiamento europeu na economia) cidades inteiras do interior da Grã-Bretanha votaram a favor do Brexit, em resposta aos estímulos recebidos através das “redes” e aos consequentes medos construídos para alimentar o sentimento anti-UE.

Um mecanismo terrível que se repetiu com a eleição de Donald Trump nos EUA, na eleição italiana com a vitória do governo da aliança 5 Estrelas e Liga e também na eleição de Bolsonaro no Brasil; sob um sistema obscuro que em março de 2018 assumiu tons ainda mais perturbadores com a eclosão do caso “Cambridge Analytica”, empresa norte-americana ligada a Steve Bannon (estrategista principal da campanha de Trump), acusada de ter “roubado” milhões de informações confidenciais de perfis de usuários do Facebook em todo o mundo.

Para além da existência ou não de interferências sobre o voto, tanto a vitória do Brexit como a falta de um acordo no parlamento sobre os critérios da saída da UE são um fato; e, em particular, a eleição de 73 deputados britânicos que poderão influenciar o delicado equilíbrio do próximo Parlamento Europeu, começando com a escolha do novo chefe da Comissão Europeia (o chefe do governo europeu).

No contexto britânico, quem poderia se aproveitar dessa situação caótica poderia ser Nick Farage, o líder do Ukip, partido britânico de extrema-direita, ultra-nacionalista e explicitamente anti-europeu. Talvez, no entanto, vejamos o sucesso do Partido Trabalhista, de Jeremy Corbyn, em crescimento sobre os conservadores de Theresa May. Esse resultado poderia afetar diretamente o já precário equilíbrio do Congresso Britânico, provocando eleições antecipadas, que marcariam o fim do fracassado governo conservador.

Tanto em Londres como em outros lugares está sendo jogado um jogo que poderá repercutir com incerteza sobre o futuro do projeto de integração dos povos europeus, cada vez mais sujeitos ao ataque dos partidos soberanistas e nacionalistas de extrema-direita do continente.

 

*Fabio Porta é secretário do Partido Democrático (PD) Italiano no Brasil, ex-deputado do parlamento italiano (2008-2018).

 

**Vinicius Sartorato (@vinisartorato) é jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).


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