sábado, 31 out 2020
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Eleições na Bolívia: Futuro não depende só das urnas, apontam especialistas

O jornalista Fabián Restivo, a cientista política Marília Closs e o diplomata José Crespo comentam sobre o cenário do país que vai às urnas no domingo, quase um ano depois do golpe que tirou Evo Morales da presidência

No próximo domingo (18), a Bolívia vai passar por uma eleição presidencial que pode recolocar o Movimento ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP) no governo cerca de um ano depois do golpe de Estado que sacou o ex-presidente Evo Morales do poder. No lugar dele foi colocada a ditadora Jeanine Áñez, que, sem qualquer respaldo constitucional, assumiu o posto por ser a segunda vice-presidenta do Senado. O pleito, que seria em fevereiro, passou por três adiamentos.

A última pesquisa eleitoral divulgada na data limite definida pelo Tribunal Superior Eleitoral (11 de outubro), feita pela Ciesmori, aponta uma vitória em primeiro turno de Luis (Lucho) Arce, o candidato do MAS, em razão de uma margem de 10,9 pontos percentuais. No levantamento, Arce tem 44,9% dos votos válidos contra 34% de Carlos Mesa, do Comunidade Cidadã. O terceiro colocado é o ultraconservador Luis Fernando Camacho, com 14,8%.

O cenário favorável ao partido de Morales apareceu também em pesquisa do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag), divulgada no dia 2 de outubro, onde Lucho registrou 10,4 pontos de vantagem na liderança. Pela legislação eleitoral boliviana, há duas formas de evitar uma “ballotaje” (segundo turno): o candidato atingir 50% dos votos + 1 ou consolidar uma vantagem de mais de 10 pontos percentuais para o segundo colocado.

Essa possível definição a partir da margem de 10 pontos traz a lembrança do pleito de 2019, quando Morales atingiu 10,5 pp. de vantagem. Na ocasião, a direita não aceitou o triunfo do ex-líder sindical e promoveu uma onda de violência com o apoio das Forças Policiais e a cumplicidade das Forças Armadas que forçou a renúncia de Morales. A alegação era de uma suposta fraude, sustentada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), mas desmontada por institutos estatísticos internacionais.

Será que o MAS consegue consolidar esses números no domingo? Há a possibilidade de uma fraude promovida pela ditadura de Jeanine Áñez? O MAS conseguiu se manter intacto mesmo com o golpe? É possível uma nova tentativa de golpe? As eleições podem terminar em novos episódios de violência? Para responder a essa perguntas, a Fórum recorreu a três pessoas que viveram ou estudam o que acontece na Bolívia. A avaliações os três se completa em diversos pontos, apesar de algumas ligeiras divergências.

Pesquisas

“O panorama é complexo. Acho que tem condições de ganhar no primeiro turno. E eu não sou otimista natural”, sentenciou o jornalista argentino Fabián Restivo, presidente da Fundação Pepe Mujica. Em entrevista à Fórum realizada antes do pleito de 2019, Restivo, que atuou na Bolívia por cerca de 20 anos e foi forçado a deixar o país com o golpe, deu uma mostra de seu “pessimismo”.

“Quem tinha certeza que o Evo ia ganhar no primeiro turno, que seria o lógico porque era como se não tivessem sequestrado o Lula, já está duvidando. Houve uma operação muito grande dos Estados Unidos”, dizia o jornalista na ocasião – semanas antes do golpe.

Se as expectativas hoje são distintas, a avaliação sobre a atuação estrangeira é a mesma: “É bem possível uma vitória em primeiro turno, mas também acho muito difícil os gringos fazerem um investimento tão grande para deixar o MAS ganhar essa eleição”. “

A cientista política Marília Closs, pesquisadora do Núcleo de Estudos Sociais e Políticos (NETSAL) e do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e doutoranda no IESP/UERJ, também enxerga a vitória como uma “possibilidade real” e ponderou que “alguns elementos tem que ser levados em conta”.

“É importante para o MAS que o segundo turno não ocorra, as chances são mais baixas; no primeiro turno, a oposição está fragmentada entre Mesa e Camacho. As pesquisas que hoje definem uma vitória em primeiro turno ou uma pequena margem para isso ocorrer, no geral, tendem a indicar um percentual menor para o MAS do que é na realidade porque eles tem uma base eleitoral de população rural e campesina muito grande e, no geral, as pesquisas não dão conta dessas pessoas”, detalhou.

O segundo elemento destacado por Closs é o fenômeno da retirada de candidaturas em prol de Mesa. Áñez e o empresário Tuto Quiroga, que aparecia nas últimas pesquisas com 3%, estão entre os desistentes. “A desistência das candidaturas dos campos da direita promove uma tendência de unificação da direita. É possível que decante o voto do Camacho para o Mesa, como voto útil”, agregou. “Essas tendências não nos dão maiores certezas. A gente não sabe totalmente como votam as população campesinas e quanto o Camacho ainda murcha”, explicou.

Ademais da questão da sub-representação das populações rurais, há nas pesquisas a ausência dos dados dos votos no exterior, como destaca Restivo. Na Argentina, por exemplo, votam 142 mil bolivianos, cerca de 2% do padrão eleitoral de 7 milhões de habilitados, segundo dados do TSE. Isso é o dobro do contingente de eleitores da província de Pando. No último pleito, a vitória do MAS foi esmagadora (82%) no país que hoje abriga o exilado Evo Morales. Em uma eleição em que cada décimo conta, não se deve minimizar o voto no exterior.

O diplomata José Crespo, ex-embaixador da Bolívia no México e ex-delegado do país na Unasul, também se baseia nessa questão da sub-representação nas pesquisas para fazer sua análise. Ele, inclusive, publicou um artigo na agência Pressenza analisando os números. Ao contrário de Restivo e Closs, ele é categórico em afirmar que o MAS “certamente” triunfará e aposta em uma vitória acachapante nas urnas, com mais de 50% dos votos no primeiro turno.

“Aprendi a perceber o sentimento e o espírito das pessoas nas ruas. A mobilização é tão importante como a que se viu em 2005. É uma mobilização não-forçada, natural. É uma mobilização poderosa. Acredito que em 2005 o movimento popular não estavam tão organizado. Há organização em populações rurais de menos de mil habitantes”, declarou.

“A possibilidade real é que aconteça uma materialização da mobilização popular com um triunfo contundente”, completou.

Mobilização pós-golpe

A Fórum também questionou aos entrevistados sobre a manutenção desse apoio ao MAS – que as pesquisas parecem indicar – mesmo diante do que ocorreu em novembro de 2019. Nesse ponto, as análises traçam uma cenário de retomada.

“Desde 2016, o MAS e a constelação ao redor dele – afinal ele é também um conglomerado de movimentos – já vinham fragilizados. Não só pelo plebiscito de fevereiro, mas por uma série de contradições internas, sobretudos àquelas ligadas a um caráter neo-extrativista. Contradições estavam sendo expostas”, destacou Closs.

Segundo a cientista política, setores à esquerda do MAS passaram a se aproximar das mobilizações do pós-golpe para denunciar o processo que vinha sendo conduzido por Áñez, como a Central Operária Boliviana (COB) e lideranças de povos originários oposicionistas desde 2006. “No pós-golpe, principalmente Julho-Agosto-Setembro com tentativas de reforma trabalhista e educacional, se formou uma unidade de esquerda forte”, disse.

Closs ainda explicou os dois elementos que utiliza para definir que o que ocorreu foi, de fato, um golpe: “ele não só se deu de forma absolutamente violenta e coercitiva com forças policiais, forças militares e forças milicianas com objetivo de ameaçar fisicamente um campo político e colocar no poder um grupo que não foi eleito e que possui traços racistas e classistas muito demarcados, mas também houve uma construção de narrativa baseada em um documento da auditoria da OEA absolutamente questionável”.

“Não sinto que o MAS perde capacidade de mobilização, mas é importante entender que o MAS são muitos: existe o da Assembleia Plurinacional, os movimentos campesinos e os setores urbanos. Não acho que em nenhum deles houve desmobilização”, analisou ainda.

Restivo também enxerga essa atuação distinta de cada um dos setores masistas no pós-golpe, mas é mais crítico quanto a esse processo. “O golpe desbaratou o MAS. Cada um fez o que achava que tinha que fazer, sem coordenação. Se formou uma desmobilização impressionante”, sentenciou.

Para ele, a reviravolta do movimento veio quando a Áñez anunciou que não iria mais concorrer à presidência. “A população sentiu aquilo como uma grande vitória. Até a medição real, diziam que a Áñez tinha 45% de aceitação, nunca davam abaixo de 40. Quando ela desistiu, a população enxergou como um triunfo. ‘Caiu, ela caiu’. Nesse momento, rearticulou-se a mobilização”, avaliou.

Por conta disso, Restivo, que criticou a campanha de 2019 naquela entrevista à Fórum, agora exalta a mobilização. “Estou vendo as mobilizações de campanha voltarem a ser o que eram no passado. 50 mil pessoas, 30 mil pessoas, 20 mil pessoas. As cidades tem no máximo 1 milhão de habitantes. Santa Cruz tem 1 milhão e meio. Em Cochabamba, que tem 600 mil, juntar 50 mil é uma puta de uma mobilização. Em São Paulo, seria como levar 6 milhões para rua”, declarou.

Crespo, que está otimista em razão dessa forte presença da população nas ruas, acredita que isso mostra que “o golpe não desmobilizou o MAS” e que, apesar do importante papel que desempenhou Morales, o movimento que se construiu é muito forte.

“Mesmo sem Evo, que está em refúgio na Argentina e vem sendo golpeado por uma campanha mentirosa, temos um resultado, ao menos, similar ao do ano passado sob o comando de lideranças ‘intermediárias'”, declarou.

Fraude e novo golpe

Nenhum dos três acredita em uma fraude eleitoral explícita. Restivo e Closs, inclusive, apontam que o mais importante não é, de fato, o resultado final.

Segundo o argentino, pode acontecer uma tentativa de manipulação do resultado de uma forma discursiva. “É muito difícil fazer uma fraude no sistema eleitoral da Bolívia, mas você pode fazer uma ‘picaretagem’, que pode acarretar em uma reação popular grande”, afirma.

Essa “picaretagem”, para ele, poderia ocorrer na contagem dos votos a partir da ordem das províncias na hora da apuração. Enquanto o MAS é mais forte em La Paz, Cochabamba e nas províncias ocidentais, a oposição vence na região oriental (menos indígena). “O problema não é quem vota, é quem conta. Se eles começam contando Santa Cruz, vai ficar até 3 da manhã pensando que o MAS perdeu. Pode haver um condicionamento, uma operação de comunicação”, explicou.

“Acho que esse governo de fato está apostando muito fortemente em incendiar o país. Há um mês estão mobilizando Exército, Policiais… A tensão nas ruas é grande. O ministro do interior, Arturo Murillo, falou essa semana aos militares: ‘vocês foram os grandes forjadores dessa democracia e temos um compromisso duplo: votar para não voltar a ditadura e tomar conta das urnas’. São eles que vão carregar as urnas… A Áñez também fez um gesto parecido”, declarou.

“A mesa está servida. Estão armando uma tempestade perfeita. Ninguém tem certeza de nada. Na Bolívia tudo sempre foi resolvido na violência. Tomara que dessa vez não seja. A possibilidade que o governo de fato coloque fogo no país é muito grande”, finalizou.

Closs vai na mesma direção do jornalista quanto ao possível desfecho sangrento e destaca que uma suposta não-aceitação do resultado não deve partir de meios institucionais, como ocorreu em 2019 com Mesa negando a vitória de Morales. Segundo ela, “o tom tem sido outro”, principalmente com uma vigilância internacional mais rigorosa. Além da OEA – que “não conta nada”, segundo a cientista política -, integrantes do União Europeia, do Parlasul, da Internacional Progressista e de outas entidades internacionais estarão presentes no país.

 “Tenho a impressão de que a não-aceitação vai se dar mais nas ruas do que pelas instituições, principalmente nos setores ligados ao Camacho e à Juventud Cochala, dos setores Orientais, da Meia-Lua”, alerta a pesquisadora.

“Eu acredito sim que pode terminar em episódios de violência. O que está em jogo no domingo não são só as urnas, mas o que vai acontecer nas ruas. Os massacres foram realidade em outubro e novembro de 2019, com os de Sacaba e Senkata, e a impressão que eu tenho é de um período muito tensionado. Já está tenso agora com grupos paramilitares atacando sedes do MAS. No último mês aconteceram ao menos 9 ações violentas contra espaços masistas. As urnas são apenas um dos elementos”, declarou.

Um pouco mais otimista, Crespo crê que o resultado das urnas pode abafar tentativas golpistas, mas vê um novo golpe sendo armado. “O governo, com Áñez e Murillo, tenta fragilizar o processo eleitoral nessa quase-ditadura. Há uma campanha aberta contra a potencial vitória do MAS e não é irreal pensar em um golpe dentro do golpe, que pode partir até mesmo por uma movimentação para impedir que as pessoas consigam votar”, declarou.

“Estão preparando um novo golpe, mas a possibilidade disso ocorrer depende muito da contundência da vitória [do MAS]. Se há uma vitória contundente, a possibilidade de uma reação violenta ou de acusações de fraude é menor. Não acredito que vá acontecer uma aceitação total do resultado e Arce teria que trabalhar para a construção de um espaço de reencontro entre os bolivianos, através do respeito à democracia. E isso não de constrói no dia seguinte”, avaliou.

Crespo, que diz acreditar que pode haver uma manipulação nas atas nos moldes da que foi alertada por Restivo, apontou que é importante haver uma vigilância nas mensagens que serão repassadas nas redes sociais para entender como as coisas vão ocorrer no país.

Meios de comunicação

Closs e Restivo também criticaram a abordagem da grande imprensa latino-americana sobre o que tem ocorrido na Bolívia. “Há uma tentativa clara de naturalização do golpe e do processo violento que aconteceu no ano passado”, declarou a cientista política. “A grande imprensa na Bolívia, no Brasil, na Argentina, tem grandes interesses e a informação deixou de ser uma questão social e passou a ser um negócio fabuloso”, sustentou o jornalista.

Crespo apontou que no México, onde ele segue vivendo, a posição firme do governo ajudou na consolidação do entendimento de que o processo de 2019 foi um golpe, mas avaliou que houve uma tentativa de “virada” no discurso promovida pela imprensa internacional e que hoje há um “equilíbrio” no que é divulgado pelos jornais. O país governado por López Obrador foi o primeiro a conceder asilo a Morales.

Lucas Rocha
Lucas Rocha
Jornalista da Sucursal do Rio de Janeiro da Fórum.