quinta-feira, 22 out 2020
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A vitória de Biden pode provocar uma convulsão social nos EUA? Por Heloisa Villela

É um risco real que se tornou mais concreto, e fatal, quando milícias armadas, tratadas com respeito e coleguismo por vários departamentos de polícia, decidiram agir por conta própria e intimidar manifestantes antirracistas

O período pós eleitoral deste ano tem todos os ingredientes para ser um dos mais conturbados da história do Estados Unidos. E o presidente Donald Trump está fazendo de tudo para tornar a situação ainda mais confusa. Mas o tiro pode sair pela culatra. Trump quer resultados na noite da eleição, apesar de saber que muitos estados vão demorar a contar os votos enviados pelo correio. O que não entrou na conta do presidente foi o fato de que alguns estados com os quais ele contava para vencer podem apresentar um resultado negativo para os republicanos.

A Flórida é o melhor exemplo. Trump esperava repetir o resultado da última eleição e levar a Flórida, com o apoio dos latinos conservadores, até hoje anticastristas. Mas no último mês os idosos do estado, dominado por aposentados, começaram a abandonar o presidente. A Covid e o comportamento de Trump no debate podem ter selado a sorte dele e afastado a Flórida da conta de chegada republicana. As pesquisas não são definitivas. Dão margem de pouco mais de 3% para Biden. Mas, os institutos garantem que fizeram mudanças nos métodos esse ano para evitar o fiasco da eleição passada quando o resultado das urnas refutou os números das pesquisas. O fato é que a Flórida espera contar os votos quase todos na noite do dia 3 de novembro. E se apontar a vitória de Biden, o golpe mais duro, e definitivo, contra Trump já terá sido desferido.

Além da Flórida, ele pode ter outro resultado negativo, na noite da eleição, vindo da Carolina do Norte. Os estados que fecharam a conta a favor de Trump em 2016 podem demorar um bocado a apresentar os resultados. Michigan, Wisconsin e Pensilvânia vão precisar de alguns dias. Mas todas as pesquisas agora mostram Biden com boa margem de vantagem nos três estados. Os democratas estão investindo forte na organização da contagem de votos nesses estados, como Flórida e Carolina do Norte, que podem marcar o favoritismo de Biden já na noite do dia 3.

De qualquer maneira, o horizonte é de confusão. Se todas as pesquisas se confirmarem, Biden pode fechar a noite da eleição com 226 votos garantidos no colégio eleitoral. Ficariam faltando ainda outros 44. Ele tem toda a chance de encerrar o dia 3 bem mais próximo da vitória do que Trump. Mas vai ser preciso esperar pela contagem final. Por isso é tão importante garantir a contagem rápida na Flórida onde, se as pesquisas se confirmarem, Biden pode abocanhar uma bela fatia: 29 votos no colégio eleitoral.

A grande preocupação é garantir a calma no país. Muita gente teme o vácuo político e a possibilidade da violência. Se houver indecisão, vários dias sem um resultado, o perigo é que grupos armados pró-Trump tomem as ruas e os locais de apuração dos votos para provocar confusão e impedir a contagem.

É um risco real que se tornou mais concreto, e fatal, quando milícias armadas, tratadas com respeito e coleguismo por vários departamentos de polícia, decidiram agir por conta própria e intimidar manifestantes antirracistas. Os analistas mais radicais falam que o país pode rachar, partir para uma divisão e tentativa de criação de estados independentes. Acho remota a possibilidade. Mas a chance de conflitos em alguns pontos do país, isso sim me parece bem possível. E até provável.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.