Antes de debate com botão silenciador, Trump convoca ex-Cambridge Analytica para “gritar” nas redes

Assustado com a possibilidade da derrota para Joe Biden, Donald Trump está ressuscitando a turma que ajudou na vitória de 2016

Vem aí um debate com botão silenciador. A comissão encarregada de organizar os debates presidenciais nos Estados Unidos decidiu mudar a regra e deu ao moderador do segundo e último debate entre Trump e Biden, marcado para esta quinta-feira, 22, um botão poderoso. Se um candidato tentar interromper o outro durante a réplica de dois minutos, o moderador vai poder colocar o microfone do mal educado no modo mudo. Tomara que mantenham aquela tela dividida o tempo todo para a gente ver a cara do candidato tentando falar sem ser ouvido. Promete ser uma cena das boas.

Nessa reta final, os números apertam, os discursos de Trump se tornam ainda mais inacreditáveis e os velhos companheiros de 2016 estão de volta em um esforço final para tentar virar o jogo. Esse é o quadro geral da campanha de Donald Trump à reeleição.

A última pesquisa Reuters/Ipsos, publicada na noite desta segunda-feira, dia 19, mostra que Trump e Biden estão novamente empatados na Pensilvânia, estado pêndulo fundamental nessa eleição. Biden aparece com 49% da preferência do eleitorado e Trump vem em segundo com 45%. Com uma margem de erro de 4 pontos, significa um empate técnico. Na semana anterior, os números eram piores para Trump: 51% a 44% em favor de Biden.

A pesquisa também indica que 15% dos eleitores do estado já votaram e que a margem de indecisos é mínima esse ano. Na Flórida, outro estado pêndulo decisivo, a situação é completamente indefinida. Pode resultar na vitória de qualquer um dos dois já que Biden aparece com 49% de preferência contra 47% para Trump. Outro empate técnico e bastante apertado.

No Arizona, onde os democratas nunca sonharam em levar a melhor (há 17 eleições, somente uma vez eles ganharam lá, com a reeleição de Bill Clinton), Biden está na frente com 50% contra 46%. De acordo com essa última pesquisa, garantidos mesmo para Biden, entre os estados pêndulo, são Michigan e Wisconsin já que a Carolina do Norte é outro empate técnico, com Biden um pouco na frente.

O presidente sabe que o maior inimigo eleitoral que enfrenta esse ano não é um democrata e sim um vírus invisível a olho nu. Deve ter sido por isso que atacou abertamente quem leva o vírus a sério e tenta, desde o começo dessa pandemia, impor um pouco de disciplina científica à uma Casa Branca cada vez mais negacionista.

Em telefonema com cabos eleitorais e organizadores da campanha, Trump chamou cientistas como Anthony Fauci, principal especialista da força-tarefa contra o coronavírus e diretor do Instituto Nacional de Saúde, de idiota. E ainda disse que só não demite Fauci porque seria uma bomba. Na verdade, não demite porque não pode. O cargo é conquistado por prestígio científico. Não é indicação da Casa Branca.

Nos comícios, Trump agora diz que o povo está cansado da Covid. Jura? E reclama que a imprensa só fala no assunto, para prejudicá-lo. Enquanto isso, o país passou a marca dos 220 mil mortos.

Assustado com a possibilidade da derrota, o presidente está ressuscitando a turma que ajudou na vitória de 2016. Segundo o site Politico, o presidente já acionou Brian Seidchik, que há quatro anos foi diretor da campanha no Arizona, e ouviu dele que a coisa está difícil por lá. Mas que no fim o presidente vai levar a melhor. Se é adulação ou informação, ninguém sabe. Mas se foi acionado, vai arregaçar as mangas nesses últimos dias.

David Bossie, um dos principais articuladores da eleição passada, embarcou para a Flórida para azeitar a máquina que enferrujou no estado, com brigas internas que ele vai apaziguar. Junto com Corey Lewandowski, Bossie formava a liderança da campanha de 2016.

Os dois foram afastados no período pós-eleitoral, quando a luta interna para ver quem se segurava no poder com o chefe se tornou intensa. Agora, os dois estão de volta dando as cartas.

Outro nome importantíssimo, que está na roda novamente, é Matt Oczkowski. Nada mais nada menos do que um ex-funcionário da Cambridge Analytica, a empresa que fechou as portas depois da denúncia de que usava dados pessoais de contas do Facebook para manipular a opinião pública.

Ele foi acionado agora para cuidar de quê? O esforço de campanha mais certeiro, com alvo mais claro, justamente como aprendeu na Cambridge Analytica. Resta saber se ainda dá tempo para virar o jogo

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Heloisa Villela

Correspondente da Fórum em Nova York.