quinta-feira, 22 out 2020
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Covid contamina alto escalão do governo Trump, que se desespera com pesquisas; por Heloisa Villela

Se depender de Trump, o vírus só ganha espaço. É a imagem mais pertinente para um fim de governo nocivo nos mais diferentes aspectos

A Covid avança rapidamente no alto escalão do governo americano. Não podia ser de outra maneira. Se em público o presidente Donald Trump e seus assessores já não davam bola para o vírus, imagine na intimidade dos escritórios da Casa Branca. Em público, quando deveriam ao menos fazer uma cena, não usam máscara e se abraçam livremente. Foi o que se viu naquela famosa cerimônia, no jardim da Casa Branca, para apresentar a juíza indicada para a Suprema Corte. Nas imagens, a gente vê os hoje positivos para Covid circulando sem máscara, cochichando no ouvido de alguém, rindo bem de pertinho…

Não é à toa que já existem 11 pessoas infectadas e diretamente ligadas à festinha da juíza. E também não é por acaso que o governo se recusa a fazer o trabalho de checagem: ir atrás de cada um dos infectados, ver com quem estiveram, olhar as imagens novamente e alertar quem esteve com os pressentes que hoje já tiveram resultado positivo no teste do vírus. O Centro de Controle de Doenças até ofereceu ajuda para fazer o trabalho. A Casa Branca recusou. E até onde se sabe, não está fazendo nada.

Se depender de Trump, o vírus só ganha espaço. É a imagem mais pertinente para um fim de governo nocivo nos mais diferentes aspectos. Um populista que chegou ao poder prometendo trazer de volta os empregos perdidos ao longo dos últimos anos de globalização e que promoveu, na verdade, uma farra fiscal para o andar de cima. O corte de impostos que favorece a família Trump e seus iguais é o melhor exemplo para mostrar a que veio esse bilionário que não paga impostos e que, se tiver que explicar direitinho suas contas, talvez esteja devendo muito mais dinheiro do que ganha. Tadinho… Ele precisa dessa boquinha do corte de impostos para não pagar, acobertado pela lei.

Trump parece estar desesperado com o resultado das últimas pesquisas que começam a apontar a derrota do republicano. Assim que deixou o hospital e posou sem máscara na sacada da Casa Branca ele avançou para o Twitter e começou a disparar postagens freneticamente. Mandou suspender a negociação do novo pacote de estímulo com os democratas alegando que eles querem apenas injetar dinheiro nos estados que governam e pediram um volume absurdo. Os democratas queriam 3 trilhões de dólares. Como a negociação não andava, baixaram para 2 e pouco. O presidente disse que ofereceu, generosamente, um trilhão e seiscentos milhões. Quando os democratas bateram o pé, ele saiu em retirada. Mandou suspender as negociações no fim da tarde. Antes das 11 da noite, já acenava com a possibilidade de voltar às conversas. Tudo pelo Twitter.

Dizem os médicos que o corticoide Dexamethasona, que o presidente tomou no hospital, provoca variações violentas de humor e confusão. Será? Enquanto Trump se lança às últimas investidas para ver se sai da rabeira das pesquisas.

Um estudo do Hospital Infantil de Boston e do Departamento de Saúde Pública de Massachusetts mostra que existe uma relação direta entre as denúncias e pedidos de socorro apresentados ao Departamento de Segurança no Trabalho e as mortes por Covid.

Esse é o órgão do governo encarregado de investigar denúncias de riscos no ambiente de trabalho. E foi a agência que ignorou todos os pedidos de socorro de assalariados preocupados em voltar ao ambiente de trabalho em meio à pandemia.

Mas o que foi que o governo fez? Desprezou os alertas da ciência e reabriu a economia dando aos patrões a proteção da lei com uma medida que impediu processos contra os que forçaram a volta ao trabalho apesar dos riscos para a saúde. A Amazon admitiu que ao menos 20 mil empregados tiveram resultado positivo no teste da Covid.

O estudo de Massachusetts diz que 17 dias depois das reclamações dos trabalhadores houve um aumento significativo no número de mortes por Covid. E o número de inspeções no trabalho, durante os meses deste ano, foi reduzido em mais de 60%. O gráfico da agência, que é encarregada da segurança no trabalho, espelha exatamente o crescimento no número de mortes por Covid.

Aqui em Nova York, o enfermeiro Derrick Smith volta às manchetes. Ele ficou conhecido quando publicou, nas mídias sociais, há seis meses, as últimas palavras de um paciente que estava prestes a ser entubado e perguntou: “Quem vai pagar essa conta”?

Agora, ele disse ao jornal britânico The Guardian que continua chocado com a situação da saúde no país. Ele já viu vários pacientes deixarem o hospital, contra a recomendação médica, mais assustados com o preço do tratamento do que com o risco imposto pela doença. O congresso americano aprovou uma medida tornando gratuitos os testes de Covid. Mas na hora do tratamento, é cada um por si…

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.