sexta-feira, 23 out 2020
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Descontrole de Trump pode significar derrota iminente nas urnas, por Heloisa Villela

Esse é o país das teorias conspiratórias mais mirabolantes. E Trump alimenta tudo isso em proveito próprio. Duvido que ele acredite em alguma delas. Trump acredita em Trump. Promove Trump e se vê como um ser especial

Ao que tudo indica, seremos todos poupados de mais um telequete verbal por aqui. O último rendeu bons resultados aos democratas. Enquanto isso, a pandemia vai produzindo suas perdas: 470, 714, 925 e 950. Essas foram as mortes diárias por Covid país esta semana.

Mas foi preciso Donald Trump exibir toda sua agressividade abjeta em um debate sem discussão de ideias para que os números dele começassem a ceder nas pesquisas. Agora, os idosos da Flórida já estão votando contra o presidente e Biden também avança sobre o eleitorado republicano na Pensilvânia.

Esse mapa da Covid, com dados da Universidade Johns Hopkins, publicano no jornal britânico The Guardian talvez ajude a explicar a mudança dos números nas pesquisas eleitorais. Os estados em vermelho têm, agora, o maior número de casos per capta.

Estão nessa lista alguns estados onde Trump venceu em 2016 e agora perde nas pesquisas, como Arizona, Michigan, Pensilvânia e Flórida. Na Georgia, um estado tradicionalmente republicano, Trump tem apenas 1 ponto percentual de vantagem. Ou seja, está empatado com Biden. E no Texas, por incrível que pareça, o presidente tem apenas 5 pontos de vantagem. Considerando a margem de erro, é um empate técnico.

Em um ano para lá de atípico, pode acontecer uma lavada histórica. Seria o fim perfeito para a breve carreira política deste senhor que deu uma entrevista ontem, irado, quando soube que a comissão encarregada dos debates entre os candidatos a presidente havia se decidido por um embate virtual já que ele está com Covid.

Entre as coisas incríveis que ele falou em uma hora de entrevista à rede Fox, garantiu que se Biden for eleito, ele morrerá durante o mandato e Kamala Harris, “um monstro”, se tornará presidente. Juro que ele usou essa palavra. Para arrematar, disse não acreditar que esteja contagioso e que ele é um espécime físico perfeito. Dizer o que sobre quem dá esse tipo de declaração? Risco ou não para a saúde alheia, Trump já planeja um comício sábado (10) na Flórida, estado onde os idosos, que garantiram a vitória do presidente há quatro anos, estão debandando em massa para o bloco democrata.

O problema não se resume a Donald Trump. Ele não é um lunático solitário. Existem muitos outros que se viram espelhados nessa figura e juntos chegaram ao poder. Esse é o verdadeiro nó da questão que precisa ser desatado.

Essa semana, finalmente, o Facebook decidiu banir de vez da plataforma todos os grupos ligados ao QAnon, uma quase seita que se tornou bastante popular no último ano e tem cerca de 20 candidatos a cargos eletivos no país que apoiam abertamente essa turma alucinada que garante ter em Trump o herói da luta contra democratas pedófilos que bebem sangue de criancinhas.

Isso não é brincadeira. Eles literalmente acreditam nisso e agem com base nessas crenças.

Nos últimos minutos do primeiro debate com Joe Biden, Trump mandou um recado mais ou menos cifrado aos milicianos do país: “Estou pedindo aos que me apoiam que olhem com cuidado o que acontece nos postos de votação porque isso é o que tem que ser feito”. Ou seja, pediu confronto. Não quer eleições tranquilas e seguras.

Os analistas que estudam os grupos de ultra direita no país apostam que homens armados, prontos para a guerra, vão aparecer nos postos de votação para intimidar eleitores.

Ontem, o FBI prendeu um grupo de milicianos que planejava, há meses, sequestrar a governadora democrata do Michigan, Gretchen Whitmer, e julgá-la por traição. Parte do grupo preferia executar Gretchen na porta de casa e liquidar o assunto. O crime da governadora? Fechar negócios e escolas para proteger a população do coronavírus.

“Quando tomei posse, sabia que seria um trabalho difícil. Mas, honestamente, nunca poderia imaginar algo assim”, disse a governadora.

Na era Trump, tudo é possível.

Na Casa Branca, ele autoriza todas as iniciativas da ultra direita, sempre banhadas em mentiras e distorções da realidade que beiram o absurdo. Mas convencem muita gente. Esse é o país das teorias conspiratórias mais mirabolantes. E Trump alimenta tudo isso em proveito próprio. Duvido que ele acredite em alguma delas. Trump acredita em Trump. Promove Trump e se vê como um ser especial.

Segundo a sobrinha Mary Trump, que escreveu um livro sobre o tio baseado em depoimentos da família, e em especial o de uma das irmãs do presidente, Donald não suporta ficar doente. Para ele, é um sinal de fraqueza inaceitável. Deve estar se roendo todo agora que, além de ter sido diagnosticado, passou três dias no hospital para o país inteiro ver. E teve participação vetada em um debate presencial.

Dizem que o corticoide Dexamethazona, remédio que ele tomou e é ministrado apenas a pacientes em estado avançado da Covid, provoca grandes variações de humor e agitação. Como se não bastasse o temperamento intempestivo que já tem, pode ser que o excesso dos últimos dias seja consequência da química operando no organismo de Trump.

Mas, esse comportamento descontrolado que já provoca um deus nos acuda no partido republicano, seja o de um péssimo perdedor que avista uma derrota catastrófica logo ali na frente, a menos de 30 dias do julgamento definitivo: a resposta das urnas.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.