sábado, 24 out 2020
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Donald Trump já está se vendo no lugar que mais odeia: o de perdedor, por Heloisa Villela

Em público, Trump disse aos eleitores que se Biden vencer ele terá que deixar o país. É bem possível já que as declarações de renda dele estão nas mãos da justiça e o volume da dívida do suposto bilionário parece ser impagável

“É por isso que eu nunca fiz parte do trem do Trump”. Ben Sasse, autor da frase, é senador pelo estado de Nebraska. Em uma conferência telefônica com 17.000 eleitores e cabos eleitorais, ele também disse que o presidente não tratou a pandemia de Covid-19 como um problema a ser enfrentado e sim como uma crise de relações públicas. Imediatamente me lembrei daquelas entrevistas intermináveis na Casa Branca, quando Trump deixava cientistas, como Anthony Fauci, balançando a cabeça e procurando formas de desmentir o presidente sem contrariar diretamente as palavras dele.

Claro que Bem Sasse agora é assunto em todos os comícios do republicano. Trump se refere a ele como o pequeno Sasse, o menos inteligente de todos os senadores da república. Se o representante de Nebraska nunca esteve no trem de Trump, eu não posso garantir. Mas que muita gente está tentando desembarcar o quanto antes, não há dúvida. Especialmente os que estão lutando pela reeleição agora.

Mas, para estes, pode ser tarde demais. A Senadora Susan Collins, do Maine, é uma delas. Caiu na besteira de votar a favor da última indicação de Trump à Suprema Corte, o juiz Brett Kavanaugh, e perdeu muitos eleitores, com destaque para as mulheres.

Kavanaugh foi acusado de abuso sexual por uma ex-colega de faculdade. Ainda assim, foi presenteado com o assento na Suprema Corte porque os republicanos têm a maioria dos votos no Senado. Susan Collins prometeu, agora, que não vai votar a favor da super conservadora religiosa Amy Barrett. Mas não importa, Barrett tem a confirmação garantida e Collins… quem sabe. Segundo as pesquisas, vai ser uma batalha dura.

Nessa reta final, Trump viaja como louco para estados onde nem achou que precisaria brigar por votos. E tentou um golpe baixo que até os advogados do governo acabaram barrando. Queria enviar um cartão de desconto para compra de remédios, no valor de US$ 200,00, para 39 milhões de idosos do país – com uma cartinha assinada por ele, claro.

O advogado da Secretaria de Saúde pediu uma avaliação da Secretaria de Justiça para saber se não seria violar a lei eleitoral. Usar dinheiro público para conquistar os idosos, grupo que Trump dominava e agora está mudando de lado. Especialmente na Flórida. Ele continua prometendo o tal desconto nos comícios, mas o projeto já naufragou.

Faltam só duas semanas para a eleição terminar – porque ela já começou e mais de 10 milhões de americanos já votaram. A eleição por aqui é um processo com data de chegada. O dia 3 de novembro marca a reta final. Último dia para quem quiser votar. E o volume de eleitores que correu às urnas logo que pode mostra que são poucos os indecisos.

Os democratas ainda temem dizer que “já era” para Trump porque o susto de 2016 foi grande. As pesquisas erraram. Mas a diferença, dessa vez, é enorme. Hillary Clinton nunca manteve a liderança. Trump passou na frente dela, nas pesquisas, mais de uma vez. Já Biden ocupou a dianteira o tempo todo e só fez ganhar mais espaço.

Donald Trump já está se vendo no lugar que mais odeia: o de perdedor. “Já imaginou se eu perder? Vou ter que dizer: perdi para o pior candidato da história da politica”, perguntou aos eleitores em um comício essa semana. Ególatra número um do país, com certeza estava falando novamente com o espelho.

As apostas estão correndo: Será que ele vai aparecer na cerimônia de posse para formalizar a transferência do cargo? Em público, ele disse aos eleitores que se Biden vencer ele terá que deixar o país. É bem possível já que as declarações de renda dele estão nas mãos da justiça e o volume da dívida do suposto bilionário parece ser impagável. Queria ser uma mosca para ver a reação do chefão do Aprendiz ter uma lição rápida e violenta de humildade na hora em que o resultado das urnas for finalmente anunciado.

Os 30% de Trump
Mas a vitória de Biden não resolve problemas fundamentais da democracia americana. O maior deles é muito parecido com o que acontece no Brasil. Com mais de 218 mil mortos de Covid e um desempenho considerado o pior do mundo entre os países ricos, ainda assim Trump mantém um eleitorado fiel de cerca de 30% dos eleitores.

Como explicar essa margem sólida e inabalável? Se não fosse a catástrofe epidemiológica, ele estaria reeleito com facilidade. E aqui existem dois pontos importantes. Primeiro, décadas de propaganda a respeito das vantagens do neoliberalismo e da globalização que só trouxeram desemprego e empobrecimento para a classe média americana. E foi assim que Trump se elegeu. Fazendo o discurso contra a exportação de empregos, pelo nacionalismo e pelo isolacionismo. Sem falar na negação da ciência, mas vou deixar isso de lado no momento.

Trump pescou o sentimento da população. Na causa. Mas não ofereceu solução. Quatro anos depois, voltou ao Michigan no sábado e prometeu gerar 75 mil empregos no estado que tem várias fábricas abandonadas. Mas é um repeteco de discurso de um presidente que, no poder, não gerou os empregos prometidos.

O desemprego realmente caiu durante os três primeiros anos da administração Trump. Mas foi à base de empregos de salários baixos, daqueles que o sujeito tem que trabalhar em três lugares pra pagar as contas.

A classe política não permitiu, esse ano e há quatro anos, a apresentação de uma proposta diferente, de mudança de prioridades no sistema. De renovação da democracia americana através de um programa de distribuição de renda e melhoria da qualidade de vida com a criação de um programa de saúde público, investimentos na educação e no combate ao aquecimento global gerando empregos da chamada nova economia, ou economia verde.

Se essa mudança de paradigma não acontecer, os 30% que adoram Trump vão arrumar um substituto, talvez pior, para voltar à carga.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.