quinta-feira, 22 out 2020
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Enquanto Trump e republicanos se atrapalham, Biden cresce nas pesquisas, por Heloisa Villela

A pandemia chegou ao centro do poder e ao primeiro escalão do Partido Republicano. Internado, presidente dos EUA disse que aprendeu tudo sobre a Covid-19

Acho que Trump está desesperado. Ele entrou no primeiro debate decidido a passar uma imagem de força e confiança. Foi bem além disso. Reforçou o estereótipo de brutamontes mal educado e ao que tudo indica, foi tiro no pé. Duas pesquisas divulgadas no domingo mostram que o ponteiro da preferência eleitoral, parado há semanas no mesmo lugar, se moveu na direção do democrata Joe Biden. Na pesquisa NBC/Wall Street Journal Biden tem 14 pontos de vantagem. Nunca teve toda essa margem nessa pesquisa. O resultado da enquete New York Times/IPSOS é um pouco mais modesto. Ainda assim, melhor do que nunca. Mostra o democrata 10 pontos na frente. A vantagem de Biden, sólida há meses, estava sempre na média de 8%.

Trump acusou o golpe. Internado no hospital Walter Reed, em Bethesda, Maryland, ele disse que aprendeu tudo sobre a Covid-19 e no minuto seguinte comprovou que nunca foi mesmo um bom aluno, como disse a irmã dele que até prova fez para Donald. Depois da lição não aprendida, ele botou uma máscara de pano no rosto e foi dar uma voltinha de carro, com os vidros bem fechados, para acenar aos eleitores reunidos diante do hospital com bandeiras e cartazes. Azar do motorista e do segurança que tiveram que passar alguns minutos fechados com ele dentro do carro. O doutor James Phillips, do hospital Walter Reed, escreveu nas mídias sociais: “Todas as pessoas que estavam no carro durante essa voltinha totalmente desnecessária agora terão que ficar em quarentena por 14 dias. Elas podem adoecer. Podem morrer. Tudo pelo teatro político. Foram comandadas por Trump a botar suas vidas em risco pelo teatro. É uma insanidade”.

O descaso pelos “subalternos” é quase inacreditável. Na Casa Branca, dois funcionários que não têm contato direto com o presidente e nem com a primeira dama, tiveram resultado positivo no teste da Covid. Um assistente direto do presidente também. Finalmente, na noite de domingo, todos os funcionários da residência oficial do presidente receberam um e-mail instruindo a ficarem em casa se apresentarem sintomas da doença. Mas só se tiverem sintomas? De fato, é uma turma inteira de alunos relapsos. A recomendação dos cientistas é bem mais séria. Qualquer pessoa que teve contato com alguém infectado deve permanecer em quarentena por 14 dias!

As entrevistas nos programas políticos, na manhã de domingo, deixaram claro que não houve lição, aprendizado e nem haverá mudança de rota. Em vídeo de pouco mais de um minuto Trump afirmou “I get it! ” Ou seja, agora eu entendi, se referindo à Covid. Mas os assessores da campanha afirmaram, nas entrevistas, que não estão preocupados com a sequência de comícios que o vice-presidente Mike Pence vai enfrentar, no lugar do chefe, a partir da quinta-feira que vem, depois do debate com a candidata democrata a vice, Kamala Harris, na quarta. “Não podemos nos esconder desse vírus para sempre”, disse Jason Miller, assessor sênior da campanha. Mas também disse que conversou com o presidente por meia hora e que ele recomendou a todos os americanos que se cuidem, usem máscara, pratiquem o distanciamento social e lavem bem as mãos. O conselho chegou com apenas 9 meses de atraso e mais de 207 mil mortos no país.

Na última semana, o invisível e muitas vezes letal coronavírus já fez um estrago no Partido Republicano que os democratas não foram capazes de engendrar em quatro anos. A pandemia chegou ao centro do poder e ao primeiro escalão do partido que se curvou ao assalto de Donald Trump e agora racha diante da doença. Seis senadores republicanos estão em quarentena. Três deles já com resultados positivos no teste da Covid. Mitch McConnell, presidente do Senado, insiste em levar adiante a confirmação da juíza ultraconservadora Amy Barrett para a vaga na Suprema Corte. Mas já admite que o coronavírus pode atrapalhar os planos.

Na Carolina do Sul, o poderoso Lindsey Graham, senador que em 2015 chamou Trump de idiota, mas se tornou o cão fiel do presidente nos últimos dois anos (dizem que ele tem casos extraconjugais com rapazes de programa e apoia o presidente cegamente porque vive sob chantagem), se vê ameaçado na eleição para permanecer no cargo. O democrata Jaime Harrison está tecnicamente empatado com Graham nas pesquisas. Até ontem, seria impensável um negro democrata ameaçar a cadeira de Ghaham. Mas este ano as pesquisas mostram que até Biden pode sair vitorioso nesse estado historicamente republicano. E para a alegria dos democratas, as últimas pesquisas, feitas após o debate da terça-feira, apontaram outros avanços do democrata em estados essenciais para vencer nesta eleição. Na Pensilvânia, Biden agora tem uma vantagem de 7 pontos. E na Flórida, outros 5. Enquanto a equipe de Trump se atrapalha e apresenta informações desencontradas sobre a doença do chefe, os democratas colhem resultados positivos nas pesquisas de opinião.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.