quarta-feira, 30 set 2020
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EUA: Trump aposta no acirramento da tensão racial, por Heloisa Villela

Na tela da tevê a imagem estava dividida. De um lado, o presidente Donald Trump vistoriando uma das únicas lojas totalmente destruídas durante a primeira noite de protestos em Kenosha, Wisconsin. Do outro lado, parentes de Jacob Blake diante de um microfone, na rua, ao lado do reverendo Jesse Jackson, cercados de manifestantes. A disputa política dos Estados Unidos estava resumida ali, em uma foto. E o candidato democrata Joe Biden e a candidata a vice, Kamala Harris, não estavam presentes em cena alguma.

A cidade de Kenosha, em Wisconsin, não é Portland, no Oregon. A maior cidade do Oregon tem 664 mil habitantes, quase 50% da população do estado, e uma longa tradição progressista. Lá os democratas sempre vencem. Kenosha fica na fronteira sul do estado de Wisconsin e tem uma relação estreita com Chicago, Illinois, do outro lado. A população negra é pequena: apenas 5% dos mais de 160 mil habitantes. A cidade costuma eleger presidentes democratas mas Donald Trump venceu no município, em 2016. Foi a primeira vitória de um republicano em 44 anos. O que vai acontecer este ano é uma incógnita, como em tantos outros municípios do país.

E foi para marcar território e garantir mais quatro anos que Trump desembarcou na cidade na última terça-feira, sem máscara como sempre, acompanhado do ministro da Justiça e do secretário de Segurança Interna. Percorreu a quadra que foi chamuscada pelo fogo na noite em que todo mundo já tinha visto o flagrante de mais uma agressão inaceitável de um policial branco contra um corpo negro. Blake foi baleado pelas costas, a queima roupa, sete vezes. Já passou por várias operações no hospital e perdeu o movimento das pernas. Na segunda noite de protestos, um miliciano de 17 anos, de Illinois, entrou na cidade armado e matou duas pessoas depois de receber água e elogios da polícia.

O nome Jacob Blake não fez parte da cerimônia eleitoral do presidente. Ali só estavam os representantes da polícia e dos pequenos negócios da cidade. Na cabeceira da mesa, Trump reivindicou para si o título de defensor da lei e da ordem. No local onde Jacob foi baleado, o tio dele organizou uma festa comunitária para promover o cadastramento de eleitores. Muita gente aqui nesse país nunca se registrou para votar. E quem não está registrado não pode participar do pleito. As campanhas de registro acontecem todo ano. Em Kenosha, ficou por conta da família de Blake e ali, naquela quadra, o nome Trump também foi evitado. “Não temos nada a dizer ao homem laranja da Casa Branca”, disse Justin Blake, o tio.

O governador de Wisconsin e o prefeito de Kenosha convidaram Trump a permanecer em Washington. Mas ele não quis nem saber. Desconvidado ou não, apareceu na cidade assim mesmo. Quem não apareceu foi Joe Biden. Nem enviou Kamala Harris. E não apareceu por um motivo muito simples. Ele fica em cima do muro. Não abraça a dor dos manifestantes nem valida a violência da polícia. Tampouco condena o racismo flagrante no aparato de segurança. Não quer perder os votos dos uniformes azuis e assim arrisca desprezar os votos dos corpos negros e dos milhares que ocuparam as ruas durante todo o verão exigindo justiça para Jorge Floyd.

Trump sabe de que lado está. Cita sempre as palavras-chave carregadas de preconceito racial histórico: lei e ordem (os negros cometem os crimes), bairros sossegados (onde só moram brancos), “inner cities” (um nome menos pejorativo para guetos onde vivem os pobres e quase sempre negros). É Richard Nixon versão 2020. O principal assessor político de Trump tem Nixon como um ídolo. E o presidente está apostando em uma política antiga de acirramento da tensão racial. As pesquisas mostram que a maioria dos americanos apoia o movimento de justiça racial. Mas ninguém sabe que sentimentos ocultos essa campanha pode trazer à tona. Trump aposta no racismo não declarado de muitos eleitores. E vem ensaiando a jogada desde que foi eleito. Começou falando que os dois lados do conflito têm gente muito boa. Na medida que sentiu bater um vento favorável, se posicionou mais firmemente ao lado dos supremacistas brancos. Só o resultado das urnas vai dizer por onde anda, de fato, o sentimento da sociedade americana.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.