quarta-feira, 30 set 2020
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Michael Cohen, ex-advogado de Trump, lança livro-bomba contra o presidente: “é um racista convicto”

Heloisa Villela escreve sobre a obra que mostra desprezo de Trump pelos negros e latinos

Donald Trump é racista, mentiroso, trapaceiro… Quem diz isso é o advogado e ex-faz tudo do presidente, Michael Cohen. E diz para a eternidade porque imortalizou as acusações e denúncias em um livro que chega às livrarias dos Estados Unidos na terça-feira (8). “Desloyal: a memoir” (em tradução livre poderia ser “Desleal: memórias”) é uma coletânea de denúncias feitas em primeira pessoa que narram conversas, projetos e manobras secretas das quais Cohen participou com afinco e foi parar na cadeia por conta de uma delas. Ele está cumprindo o restante da pena de três anos em casa, por causa da pandemia.

Um grupo de democratas chamado American Bridge (Ponte Americana) produziu e lançou uma propaganda eleitoral com Michael Cohen. De olho na câmera ele diz: “Não se pode confiar em Trump nem acreditar em uma palavra do que ele diz. Você não precisa gostar de mim mas por favor me ouça”. Essa é a parte difícil da história toda. Cohen foi condenado por mentir para o Congresso quando foi depor a respeito dos projetos imobiliários de Trump na Rússia, mas acabou admitindo toda a história da atriz pornô Stormy Daniels. Ela contou ter tido um caso extra conjugal com Donald Trump quando ele já estava casado com a primeira-dama.

Para evitar que o escândalo viesse à tona nas vésperas da eleição de 2016, Trump aprovou um pagamento de US$ 130 mil para calar a boca da atriz. E teria topado a compra do silêncio argumentando que se o segredo fosse revelado, ele teria que pagar muito mais à esposa. Michael Cohen cuidou do depósito e recebeu o dinheiro de volta em prestações, como se fossem honorários pelo trabalho de advogado. Agora, conta toda essa manobra, e muitas outras, no livro que é o assunto do momento na mídia americana. Se livro virasse resultado de eleição Trump estaria perdido. Mas nesta manhã de domingo, enquanto o assunto é destaque em quase todas as mídias liberais, não encontrei nem menção às memórias de Cohen na Fox News, a líder de audiência dos Estados Unidos, canal preferido dos conservadores.

Assim que Trump anunciou a decisão de concorrer a presidente, os três filhos mais velhos do clã teriam corrido ao escritório de Cohen para pedir que ele afastasse a ideia da cabeça do pai. Trump se lançou com um discurso racista, acusando imigrantes mexicanos de serem todos criminosos e estupradores. Por isso prometia construir um muro na fronteira com o México, para proteger o país. Os filhos temiam o estrago que as declarações do pai imporiam aos negócios da família. “Você precisa fazer meu pai suspender a campanha. Está matando a empresa”, teria dito Ivanka, a filha mais velha que hoje, junto com o marido Jarred Kushner, é conselheira do pai para todos os assuntos.

As 432 páginas de acusações e denúncias de Cohen dificilmente vão influenciar o resultado das urnas, mas darão muito assunto à oposição. Neste ano de protestos gigantescos contra o racismo estrutural da sociedade americana, que se expressa com força no comportamento da polícia, o livro garante que Trump é racista convicto. E tem um profundo desprezo pelo ex-presidente Barack Obama. “Ele só entrou na Universidade de Columbia e na Faculdade de Direito de Harvard por causa da porra da ação afirmativa”, teria dito Trump.

Segundo Cohen, o desprezo não é só por Obama mas pelos negros em geral. Em um trecho do livro, ele transcreve o que Trump teria dito: “me diga um país administrado por uma pessoa negra que não seja um buraco de merda. Mandela fudeu o país todo. Agora ele é um buraco de merda. Foda-se o Mandela. Ele não era um líder”. Cohen divulgou um vídeo pra o qual Trump contratou um ator negro para fazer o papel de Obama só para poder humilhar o personagem e demiti-lo na cena. E pelo que conta Cohen, o presidente não está nem um pouco preocupado com o eleitorado negro do país. Nem com os votos latinos. “Eles não são a minha gente. Nunca vou conquistar o voto latino. Assim como os negros, eles são muito burros para votar em Trump”.

O tratamento que o presidente costuma dar às mulheres já é conhecido do público. Em uma gravação divulgada antes da eleição de 2016 o mundo inteiro ouviu ele dizer que botava a mão nas partes íntimas de qualquer mulher quando bem entendesse. Na intimidade, não era diferente. Fazia comentários sobre o corpo da própria filha e não teria se furtado a falar sobre a filha de Cohen, na época com quinze anos: “olha só esse rabo! Adoraria ter um pouco dele”.

Trump foi alçado à presidência com o apoio decisivo dos evangélicos. É claro que o livro não poderia deixar de fora alguma cena que provocasse a ira desse grupo. Pois Cohen descreve uma reunião no Trump Tower, o prédio de luxo do presidente, na ilha de Manhattan, em Nova York. Líderes evangélicos rezaram com as mãos sobre a cabeça do então candidato. Depois que eles foram embora, Trump teria comentado com Cohen: “Você pode acreditar nessa besteirada? Você pode acreditar que as pessoas acreditam nessa baboseira”?
O livro não esconde a que veio. Termina dizendo: “você agora tem toda a informação de que precisa para decidir, por sua própria conta, em novembro”. Resta saber quem vai acreditar em quem até lá.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.