quarta-feira, 30 set 2020
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Nasce o Partido do Povo nos EUA, alternativa aos republicanos e democratas, por Heloisa Villela

Cornel West defendeu o voto no democrata Joe Biden; para ativista e ex-senadora Nina Turner republicanos e democratas são duas cabeças de um mesmo dragão: um rosto neofascista e o outro neoliberal

Foram cinco horas de convenção online com alguns poucos vídeos muito bem produzidos, mas completamente diferentes dos que se viu nos shows políticos de republicanos e democratas. Não havia líder para ser enaltecido ou ego para ser afagado. O centro das atenções, nas imagens e discursos, foram os americanos de todas as cores, credos e culturas. Uma maioria ameaçada de despejo que encara o abismo do desemprego e as consequências da pandemia.

O Partido do Povo começa, agora, a se organizar em todo o país. Com mais de 7.500 votos, registrados por um aplicativo, a convenção decidiu criar o partido que pretende ser uma alternativa ao duopólio que reina no país desde sempre. Um dos discursos mais aguardados da convenção foi o do filósofo, autor de 20 livros, professor de Harvard, Doutor Cornel West. E ele deixou claro que o novo partido está aberto ao debate.

Ao contrário de vários ativistas e oradores, o Doutor West defende, este ano, o voto no democrata Joe Biden. Mas garantiu que está ouvindo a opinião divergente de irmãos e irmãs da nova legenda. Ele acredita que é necessário eleger Biden para evitar o pior. “Nesse momento, o fascismo está se consolidando, se cristalizando”, disse o filósofo que vê o Partido do Povo como uma força necessária para pressionar os democratas, se eles vencerem a eleição. “Um movimento para transformar o império americano em um espaço mais democrático”, afirmou.

West estava em minoria. Quem encerrou a convenção foi a ativista e ex-senadora estadual de Ohio Nina Turner. Ela descreveu os partidos democrata e republicano como duas cabeças de um mesmo dragão. Um rosto neofascista e o outro neoliberal. Para ela, é preciso matar as duas faces desse dragão para transformar a política americana e promover mudanças que hoje têm o apoio da maioria da população, como é o caso da criação de um sistema único de saúde (70% dos americanos aprovam e 80% dos democratas querem ver funcionando). Mas o item não entrou no programa de Joe Biden.

“Como podemos ter paz quando, no meio de uma pandemia, não conseguimos fazer o partido democrata mudar a plataforma?” perguntou Nina Turner. E prosseguiu: “Como podemos ter paz quando um homem negro é baleado pelas costas pela polícia? Como podemos ter paz quando pobres, trabalhadores e a classe média não conseguem sobreviver? Como podemos ter paz enquanto muita gente está afogada em dívidas só porque foi fazer faculdade?”

Para Nina Turner, já não é possível escolher entre um mal menor. Eleger um democrata como Joe Biden para evitar um republicano como Donald Trump. E o discurso de muitos eleitores que participaram da convenção fez eco ao que ela disse.

Boa parte dos organizadores do Partido do Povo participou da primeira campanha do senador Bernie Sanders a presidente. Um grupo dedicado que abandonou a convenção democrata, há quatro anos, em protesto, porque considerou que a máquina do partido impediu a vitória de Sanders. Na época, quando vi aquela quantidade de cabos eleitorais e delegados sentados em assembléia espontânea no corredor do centro de convenções da Filadélfia, achei que um novo partido nasceria ali mesmo. Mas aquela foi a semente principal do movimento que se concretiza agora.

Este ano eles tentaram novamente e outra vez se sentiram trapaceados quando Barack Obama, nos bastidores, comandou a desistência de todos os adversários de Joe Biden para garantir a vitória dele nas primárias.

Foi a gota d’água para essa turma. Ela chegou à conclusão de que não vai dar em nada tentar mudar o partido por dentro. “A influência do poder financeiro, que domina as campanhas, não vai permitir transformações que eles consideram essenciais: um programa amplo de defesa do meio ambiente que crie empregos e construa um país com energia limpa, o perdão das dívidas estudantis, um sistema único de saúde e o fim do financiamento privado das campanhas políticas. Essas são as principais bandeiras do Partido do Povo que começa, agora, a se organizar para disputar os espaços políticos nos Estados Unidos.”

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.