quarta-feira, 28 out 2020
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Nasce o Partido do Povo nos EUA, por Heloisa Villela

No próximo domingo, convenção lançará a legenda com discursos de Nina Turner e Cornell West, críticos do programa neoliberal dos democratas

O grande teatro político americano, que acontece uma vez a cada quatro anos, está chegando ao fim. No dia 27, quinta-feira, termina a convenção do Partido Republicano, que aconteceu logo depois da convenção democrata. A fórmula é conhecida. As estratégias variam um pouco. E o país acompanha, pela televisão, a sequência de discursos descolados da realidade, os vídeos bem produzidos sobre a vida impecável dos candidatos, e aquele desfile de parentes ao microfone atestando a honestidade, o compromisso e as qualidades do candidato. Quando tudo isso terminar na quinta-feira, depois de uma breve pausa será a vez da convenção do Partido do Povo, o People’s Party, que ainda não existe mas será lançado no domingo.

Partidos nacionais, com chance nas eleições presidenciais até o momento, são apenas os dois velhos conhecidos. Mas existem vários outros nos Estados Unidos. O estado de Vermont, por exemplo, de onde vem o senador Bernie Sanders, tem seis partidos reconhecidos, com representação na câmara municipal: além do Democrata e do Republicano, existem o Montanha Ver, a União da Liberdade, o Libertário e o Progressista. No começo da vida pública, Sanders foi filiado ao União da Liberdade (Liberty Union). Depois se tornou um eterno independente.

O partido que mais cresceu no país, desde a eleição de Donald Trump, foi o Socialistas Democráticos da América (DSA _ Democratic Socialists of America) que nos anos 80 tinha apenas 5 mil filiados e hoje tem mais de 70 mil. As duas grandes estrelas do DSA são as deputadas federais Rashida Tlaib e a líder do esquadrão progressista no congresso, Alexandra Ocasio-Cortez, a ex-garçonete de Nova York que tomou Washington de assalto e se destaca nas sessões da Câmara. As duas são filiadas ao DSA mas concorreram pela legenda democrata. Jamaal Bowman, também em Nova York, arrebatou as primárias e desbancou Eliot Engel, que ocupava o cargo há 30 anos. Cori Bush foi ainda mais longe: conseguiu derrotar, nas primárias democratas, William Lacy Clay que, sucedendo o pai, garantia o cargo para a mesma família há 50 anos. Cori Bush foi sem-teto e se destacou durante os protestos do movimento Black Lives Matter em Fergusson, depois do assassinato de Michael Brown, em 2014. Jamaal e Cori também são filiados ao DSA.

No domingo, os americanos que se conectarem à transmissão online da convenção do Partido do Povo assistirão ao nascimento oficial dessa nova legenda que concretiza, agora, um momento que vem acumulando forças desde, pelo menos, 2016 quando o Sindicato Nacional dos Enfermeiros e o movimento O Povo por Bernie Sanders, organizaram a primeira convenção, em Chicago, decididos a repetir o evento a cada dois anos. A frustração com as manobras da turma de Hillary Clinton para impedir a indicação de Bernie Sanders a presidente, pelos democratas, naquele ano, levou muita gente a ver a necessidade de se organizar fora da camisa de força dos partidos tradicionais.

Em 2018 Sanders foi um dos oradores da convenção que também contou com a presença do cineasta Michael Moore, da escritora Naomi Klein e da ex-senadora do Senado estadual de Ohio Nina Turner. Um nome desconhecido dos brasileiros, mas muito familiar por aqui depois dessa última campanha presidencial. Nina foi uma das coordenadoras da campanha de Bernie Sanders e eletrizava os comícios como ninguém com a energia que esbanja nos palcos e nas entrevistas. E com o grito de guerra “Hello Somebody!”, uma tradição das igrejas batistas americanas que convida o público a participar, a ser parte ativa dos eventos. Nos comícios de Bernie Sanders, o público vinha abaixo quando ela pegava o microfone e chamava com força: Hello Somebody!

Este ano, na convenção que vai lançar o partido, Nina será uma das principais oradoras. Crítica feroz de Joe Biden e do programa neoliberal que os democratas insistem em implementar caso vençam as eleições, Nina terá uma companhia de peso na convenção do Partido do Povo. O filósofo e ativista Cornell West. Autor de livros, ensaios e manifestos, Cornell West também é ator e fez a trilogia The Matrix no papel de Councilor West. Deixo aqui a explicação que ele mesmo deu para participar do lançamento do novo partido: “Sim, nós temos que tirar a catástrofe neofascista da Casa Banca mas o desastre neoliberal que vai entrar tem que ser combatido com um movimento e um partido populares”.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.