No debate entre Trump e Biden, botão silenciador e Kristen Welker merecem elogios; por Heloisa Villela

Em sua cota de mentiras, Trump garantiu que nunca houve um presidente tão bom para os negros como ele. Não satisfeito com a assertiva estapafúrdia, arrematou: “não tem ninguém menos racista do que eu aqui”. Em frente à jornalista negra

Que diferença faz um botão de mudo… Com medo de ser silenciado, ou de perder mais pontos nas pesquisas, Donald Trump se apresentou bem comportado para o segundo e último debate entre os candidatos a presidente deste ano. E ao ficar mais calado, deu chance a Joe Biden de falar mais e mostrar as próprias fraquezas. A memória parece ser uma delas. Biden não é mais tão afiado como já foi um dia.

Nos primeiros 25 minutos do debate o assunto foi um só: pandemia. E só no fim da conversa ele se lembrou de trazer à tona a entrevista que Donald Trump deu a Bob Woodward, em janeiro, na qual deixa claro que sabia o quanto o coronavírus era perigoso, enquanto dizia à população que não era preciso se preocupar. Quase esqueceu de refrescar a memória dos eleitores que Trump passou meses mentindo para a população.

Nessa parte inicial ficaram bem claras as diferenças entre os dois. Trump defendeu a reabertura do comércio, das escolas e repetiu o mantra que adota desde que o número de casos começou a se multiplicar: “o remédio não pode ser pior do que a doença”.

A experiência pessoal do presidente com o coronavírus não serviu para ele se solidarizar com as famílias das mais de 222.000 pessoas que já morreram no país. Pelo contrário. Ele disse que pegou a doença, mas se tratou e logo melhorou. Também garantiu que o índice de transmissão de crianças para professores é muito baixo, por isso todas as escolas devem voltar a funcionar. Biden aproveitou. Olhou direto para a câmera, conversando com os telespectadores, e ironizou. “É, o índice de transmissão para os professores é baixo. Não tem problema… por favor!”

O democrata também marcou pontos quando o assunto foi a imigração. Lembrou que o governo Trump separou milhares de famílias na fronteira com o Médico. Essa semana saiu um estudo com o resultado de três anos dessa política: mais de 500 crianças ainda estão nos Estados Unidos, longe dos pais e talvez nunca mais os revejam. Grupos de direitos humanos e de ajuda a imigrantes estão procurando os pais na América Central, mas na hora de separar os menores dos adultos, os oficiais americanos não tomaram nota direito dos dados, dos endereços, da maneira de reunir as famílias novamente. “Vocês têm que ver como eles são muito bem cuidados!”, disse Trump. Tem que ser muito sem noção.

Mas, ele também marcou pontos jogando contra Biden a história do filho Hunter. Um tabloide de Nova York publicou documentos que diz terem sido retirados do computador de Hunter, deixado em uma loja de Delaware para um reparo qualquer. Ali, o funcionário teria compilado dados que foram parar nas mãos de Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York e atual advogado particular de Donald Trump. Na troca de emails entre Hunter Biden e parceiros de na Ucrânia e na China, existe a insinuação de que o filho usava a influência do cargo do pai para conseguir negócios e talvez até acertasse uma comissão para Joe Biden.

O democrata tinha resposta pronta. Negou envolvimento ilícito, garantiu que nunca recebeu dinheiro de outro país e devolveu a bola lembrando que essa semana os americanos ficaram sabendo que Trump tem uma conta bancária na China e pagou uma boa quantidade de impostos por lá, o que não fez nos EUA. Biden também lembrou que todo ano torna pública a declaração do imposto de renda dele e voltou a cobrar as declarações de Trump, que ele nunca apresentou. Mas nesse ponto ficou uma troca de acusações que não deixa ninguém com boa fama. Acho que os dois saíram perdendo.

Trump não podia passar sem uma quota de mentiras ou exageros inacreditáveis. O melhor de todos foi quando discutiu o racismo nos Estados Unidos. Ele garantiu que nunca houve um presidente tão bom para os negros como ele. Não satisfeito com a assertiva estapafúrdia, arrematou: “não tem ninguém menos racista do que eu aqui”. E olha que ele estava de frente para a jornalista negra que atuou como moderadora da conversa. Por sinal, Kristen Welker, da NBC, foi incisiva, educada e excelente entrevistadora. Quando os candidatos fugiram do assunto, ela voltou com novas perguntas, forçando respostas objetivas. No fim da noite, além do ameaçador botão do silêncio, foi quem mereceu os maiores elogios.

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Heloisa Villela

Correspondente da Fórum em Nova York.

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