sexta-feira, 23 out 2020
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Recuperação de Trump da Covid-19 pode ser breve, já nas pesquisas é cada vez mais difícil. Por Heloisa Villela

O que esperar dessa Casa Branca quando Trump caiu doente? Outras mentiras, claro.

Entre mentiras e mentiras, segue a pandemia nos Estados Unidos, agora instalada no centro do poder. Os comentários, nas redes sociais, se multiplicam. Muitos votos de saúde e rápida recuperação para o presidente. Mas também as reclamações do tipo: “adiei meu casamento, não pude me despedir do meu pai que estava morrendo no hospital, mas a juíza Amy Barrettt teve a festa dela na Casa Branca”. No sábado, dia 26 de setembro, o governo americano reuniu mais de 150 pessoas no jardim da Casa Branca para apresentar a juíza que Trump indicou para o cargo vago na Suprema Corte. Nove pessoas sentadas nas primeiras fileiras da cerimônia já tiveram resultados positivos no teste da Covid esta semana. Chris Christie, ex-governador de Nova Jersey e um dos republicanos que preparou Trump para o debate com Joe Biden, é um deles e foi internado no fim de semana porque é asmático.

Nada de novo na Trumplândia. Do começo ao fim, a mentira e o descaso com a população em geral são a marca registrada desse governo. E como tudo isso vai pesar, agora, na eleição que está batendo na porta? E em 10 estados, já está acontecendo, com muita gente votando antecipadamente?

O presidente que em fevereiro dizia, por telefone, ao jornalista Bob Woodward que o corona era um vírus perigoso, transmitido no ar e letal, posava tranquilo diante das câmeras. Minimizava o risco de contaminação e garantia que o país não sofreria grandes perdas por causa do que na época ainda se chamava de epidemia. Mas a epidemia virou pandemia, as mortes se acumularam e ele continuou insistindo que máscara era só pra quem quisesse. O que esperar dessa Casa Branca quando Trump caiu doente? Outras mentiras, claro.
Primeiro, o real estado de saúde do presidente. Até agora ninguém tem certeza se ele está bem, se piorou, se já esteve pior. No dia em que foi internado, fim de tarde de uma sexta-feira, e o sábado seguinte acumularam um incrível desencontro de informações. Sean Conley se revelou o médico ideal desse presidente. Montou uma cena de cinema para apresentar o boletim médico do sábado de manhã. Cruzou a porta do hospital seguido de uma fila dupla de profissionais de saúde de jaleco e máscara. Para informar o público a respeito do estado de saúde do presidente não basta um, mas dez jalecos. Em seguida, ao que tudo indica, mentiu com a maior cara de pau e garantiu ao país que o presidente estava muito bem e não havia usado oxigênio.

Deixe estar que em seguida o chefe de gabinete de Trump chamou uns jornalistas de lado e despejou informações bem diferentes: nas 24 horas anteriores houve muita preocupação com os sinais vitais do presidente e as 48 horas seguintes seriam cruciais para se ter uma ideia a respeito do desenvolvimento da doença. E mais! Em entrevista à TV Fox admitiu que na sexta-feira, antes da internação, o nível de saturação do presidente caiu rapidamente e foi preciso, sim, usar oxigênio para estabilizar aa situação. Daí a decisão de levá-lo ao hospital.

Trump pode estar doente à vontade mas segue lutando pela permanência na Casa Branca. Em um vídeo de pouco mais de quatro minutos ele me pareceu controlar com cuidado o uso do ar para não tossir (ali por volta de um minuto e meio de fala) e não a energia costumeira. Mas fora isso, não parecia estar à beira de um tratamento mais rigoroso. Sintomático, sim. Estado grave, não. Ao menos na imagem. A campanha levou um dia e pouco para reagir mas já anunciou uma série de eventos virtuais, com gente graúda do partido e muitos parentes do presidente, até a quarta-feira, quando acontece o debate entre os candidatos a vice. Dali Mike Pence sai em campanha e já tem uma série de comícios presenciais marcados. Trump, segundo o comunicado da campanha, vai se juntar a ele assim que for possível.

Mas o que ele vai dizer daqui pra frente? O democrata Joe Biden estruturou a campanha dele toda em cima da pandemia, da falta de responsabilidade do Trump (nunca defendeu o uso de máscara, se recusou a usar uma, promoveu a cloroquina contra o resultado de todas as pesquisas científicas), da incompetência para lidar com algo inesperado (o governo americano nunca garantiu um fornecimento adequado de luvas, aventais, máscaras, respiradores mecânicos para os profissionais de saúde e deixou tudo, durante meses, por conta dos governadores) e da proposta desumana que tenta derrubar, em meio à pandemia, os poucos avanços que o país teve na saúde com o programa do governo Obama, apelidado de Obamacare.

Trump ainda não acertou um novo discurso. Meu palpite: vai tentar evitar o assunto pandemia. E quando se referir a ele será para falar da China, apontar o dedo, culpar o país por tudo que o mundo está passando. Joe Biden, assim que Trump ficou doente, retirou do ar todas as peças de campanha negativas contra o adversário. Mas já tinha a pandemia no centro da campanha e vai intensificar o discurso da necessidade de cuidados essenciais (distanciamento, máscara, etc.) e ressaltar a importância de dar ouvido à ciência. Acho cada vez mais difícil Trump se recuperar. Nas pesquisas. Do hospital ele pode sair em breve. Mas depois do primeiro debate, desastroso, a primeira pesquisa de opinião mostra que Biden abriu vantagem em dois estados essenciais: 7 pontos na frente na Pensilvânia e 5 pontos na frente na Flórida. O próximo debate ainda não foi cancelado.

O debate do dia 15 já era. Cai dentro da quarentena mínima de Trump. O do dia 22, quem sabe. Mas se acontecer, terá algumas diferenças radicais. Além de um dispositivo para silenciar o microfone de quem passar das medidas, duvido que organizadores e democratas aceitem dar início ao encontro como aconteceu no primeiro debate. Segundo o moderador Chris Wallace, jornalista da Fox, Trump chegou com atraso, sem o tempo necessário, e estipulado, para fazer o teste da Covid, como estava combinado. Toda a família dele se sentou para assistir ao debate sem máscara, apesar dos pedidos insistentes dos médicos do local. Qualquer mente um pouquinho mais cética, ou dada a conspirações, imagina imediatamente que o presidente talvez já estivesse infectado, e soubesse. O que elevaria o grau de cinismo e descaso de Trump para com os outros a um nível que nem os adversários mais criativos imaginavam.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.