quinta-feira, 22 out 2020
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Revelação das finanças de Trump desfaz imagem de milionário bem sucedido, por Heloisa Villela

Todos os presidentes apresentam voluntariamente suas declarações de renda há 47 anos. Trump foi o primeiro a quebrar essa regra. Mas agora o mundo pode ver graças ao furo de reportagem do New York Times

A queda de braço é antiga e o New York Times saiu ganhando na última rodada. Junto com a tevê a cabo CNN, o jornal é apontado como campeão das fake news pelo presidente Donald Trump. Em 2018 Trump até criou o prêmio Fake News para criticar a imprensa e foi comparado ao chinês Xi Jinping e ao turco Tayyip Erdogan no desejo de calar os críticos controlando a mídia e cerceando a liberdade de imprensa. Algo que ele faz sem leis, apenas manipulando a opinião pública. Na primeira campanha eleitoral ele conseguiu transformar eleitores dele em adversários agressivos dos jornalistas. Agora, quando o New York Times, depois de muito trabalho, teve acesso às declarações do imposto de renda do presidente, a reação só podia ser a que se viu em uma rápida entrevista na Casa Branca, na noite de domingo. “Fake News!”, atacou Trump.

O jornal usou um gráfico elaborado para dizer que fake é o bilionário que sempre fez papel de rico, na TV e na vida real, mas na verdade deve mais do que fatura no momento. Chamou Trump de loser (perdedor), um adjetivo que ele usa contra os adversários como uma das maiores ofensas possíveis. A reportagem do Times sugere que Trump manobrou um bocado para escapar do Leão americano. E provavelmente vai enfrentar uma conta milionária, nos próximos anos, por conta de uma dessas manobras. Então, aos números.

750 dólares. Isso foi tudo que Trump pagou a título de Imposto de Renda federal em 2016, ano da primeira campanha eleitoral. Em 2017, a mesma coisa. O Times promete publicar uma série de reportagens nas próximas semanas. A bomba que já explodiu, no fim da tarde de domingo, oferece munição de sobra para Joe Biden usar no primeiro debate entre os dois candidatos, nesta terça-feira. Faltam apenas cinco semanas para as eleições. E em muitos estados, os eleitores já estão votando.

Antes de dizer qualquer outra coisa, vamos botar esse valor em perspectiva. Em 2017, um adulto americano, solteiro, sem filhos, que ganhou US$ 18 mil depois de um ano inteiro de trabalho, pagou US$ 760 de imposto federal. Mais do que o presidente. E esse é um salário bem baixo. US$ 1.500 dólares por mês. A deputada de Nova York, Alexandria Ocasio-Cortez não perdeu tempo: “Em 2016 e 2017 eu paguei muito mais do que isso como garçonete. Ele contribuiu menos para nossa comunidade do que garçonetes e imigrantes indocumentados”, afirmou no Twitter.

Em 10 dos últimos 15 anos, Trump não pagou um centavo de imposto de renda federal porque declarou que gastou mais do que faturou. Mas agora, segundo o jornal, ele está na bica de quebrar. Está chegando ao fim uma batalha que ele trava com o leão americano há uma década porque recebeu uma restituição de US$ 72,9 milhões e a Receita contestou os números. Se perder a briga, Trump pode ser obrigado a devolver aos cofres públicos mais de cem milhões de dólares.

A papelada que o Times conseguiu aparentemente não está completa porque mostra o quanto Trump pagou, pessoalmente, em 2018 e 2019, mas não tem todos os itens da declaração. Já das centenas de empresas que formam o conglomerado que a família administra, a documentação é farta. São informações que Trump entregou ao Leão e comprovam que ele é dono de ativos que valem muito dinheiro. Mas não esclarecem qual é o valor da fortuna pessoal dele.

O advogado das Organizações Trump, Alan Garten, disse ao jornal que boa parte dos números divulgados está errada. Mas não foi além. A análise do jornal conclui que Trump gastou todo o dinheiro que ganhou com o programa “O Aprendiz”, no qual fazia o papel principal, comprando negócios, como vários campos de golfe, que hoje só fazem sugar dinheiro das empresas da família. Ou seja, repetiu, já mais velho, o mesmo erro do começo da carreira quando gastou o dinheiro que recebeu do pai e quebrou nos anos 90.

Em 2016 Trump contou vantagem. Disse que é inteligente porque tem a capacidade de se safar dos impostos. Mas os números deixam dúvidas se ele é esperto ou apenas um empresário ruim, que torra dinheiro sem avaliar a rentabilidade do negócio. Os campos de golfe e os hotéis da família perdem milhões de dólares todo ano. E não só agora, na pandemia. E dentro de quatro anos Trump se verá diante de uma dívida de mais de US$ 300 milhões que ele avalizou pessoalmente.

A justiça americana, ao que tudo indica, terá material suficiente para questionar o uso do cargo de presidente para enriquecimento pessoal já que, segundo o jornal, as propriedades de Trump passaram a receber dinheiro de lobistas, chefes de estado, gente que busca favores do governo. Os negócios, especialmente no resort Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, faturaram mais depois que ele se mudou para a Casa Branca.

Desde 1973 é praxe, aqui nos Estados Unidos, que os presidentes tornem públicas suas declarações de renda. Conhecer as finanças de Donald Trump foi o grande furo de reportagem do ano. Algo que outros presidentes apresentam voluntariamente. Ele foi o primeiro a quebrar essa regra tácita nos últimos 47 anos. Agora, graças ao New York Times, o mundo descobriu que Trump gastou US$ 70 mil só para arrumar o cabelo para os programas de televisão que fazia e declarou residências particulares e um jatinho como custos empresariais, para pedir descontos no imposto de renda. A filha Ivanka Trump também vai ter que explicar os mais de US$ 700 mil que a empresa dela recebeu a título de serviços de consultoria. Exatamente a mesma quantia que aparece no imposto de renda da empresa de Trump como remuneração a um consultor não especificado.

O debate entre Joe Biden e Donald Trump tem seis temas pré-definidos. E é logo no primeiro, sobre o histórico de cada candidato, que Biden terá a chance de usar todas essas informações para desfazer a imagem de milionário bem sucedido que Trump tentou construir ao longo das últimas décadas, apesar da falência escandalosa, nos anos 90, e de números que mostram um rico de fachada que, ao que tudo indica, não sabe administrar o que ganha.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.