quinta-feira, 22 out 2020
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Trump apela a mulheres brancas de classe média: Não vou deixar que baixa renda construa casas perto de vocês

Em Johnstown, na Pensilvânia, Donald Trump fez um apelo abertamente racista às mulheres brancas que moram nos subúrbios

O script ficou de lado. Trump, no melhor estilo Trump, desfiou um arsenal de inverdades e exageros na tentativa de recuperar o terreno perdido na Pensilvânia. Em 2016 o estado foi decisivo para a vitória do presidente nas urnas. Esse ano, promete dar as costas a Trump. Ele desembarcou em Johnstown na noite de terça-feira preparado para a guerra eleitoral e vai manter o ritmo até o dia 2 de novembro, véspera da eleição, com um comício diário, ou dois, como será o caso da sexta-feira quando ele visitará a Flórida novamente e também a Georgia.

Johnstown é uma daquelas cidades do país que encolheram com a desindustrialização. O município produzia aço depois da Segunda Guerra Mundial. A indústria oferecia empregos de sobra. A população, que no começo do século XX, soma 67 mil habitantes hoje não chega a 21 mil moradores. Encolheu e ainda busca solução para os problemas econômicos. Quando visitei Johnstown, durante a campanha eleitoral de 2007, fotografei fábricas ainda abandonadas, cheias de poeira e teias de aranha para as quais ninguém encontrou algum uso. Segundo o censo de 2003, esse é o município do país que menos atrai novos moradores.

Mas é parada obrigatório dos candidatos. E foi cenário do comício da terça-feira (13). Sem máscara, como sempre, Trump deveria ter focado nos pontos que garantiram a eleição dele há quatro anos: democratas são marionetes de interesses globalizantes, exportam os empregos dos Estados Unidos, escancaram as fronteiras, querem tomar as armas do povo e banir Deus dos espaços públicos.

Indisciplinado como sempre, ele não se prendeu ao discurso preparado com antecedência e fez um apelo abertamente racista às mulheres brancas que moram nos subúrbios. “Me disseram que elas talvez não gostem do meu jeito de falar, mas meu negócio é a lei e a ordem. Garantir a segurança de vocês, de suas comunidades. Não vou deixar que construam casas para a população de baixa renda perto da casa de vocês”.

Durante a presidência de Obama, o governo adotou uma medida para ampliar a construção de casas para famílias de baixa renda nos subúrbios do país como forma de combater a discriminação. Nos Estados Unidos, a segregação dos bairros ainda existe e mantém uma cadeia de desigualdades desde os primeiros dias de vida de brancos e negros.

Nos subúrbios brancos, de renda mais alta, o imposto das famílias, destinado às escolas, garante instalações melhores e professores mais preparados. Nos bairros mais pobres, dominados pelas minorias, a arrecadação é menor e consequentemente, as escolas não têm o mesmo volume de recursos. Pois é… apenas um estado da federação arrecada todo o imposto municipal da educação e depois distribui igualmente para todos os distritos. Vermont, terra de gente estranha como o senador Bernie Sanders.

Trump terminou o apelo às mulheres brancas, de classe média, moradoras dos subúrbios com aquela delicadeza incrível: “posso pedir um favor a vocês? Mulheres do subúrbio, vocês podem gostar de mim? Eu salvei a porra do bairro de vocês, ok?”. Trump sabe que perdeu muito terreno com as mulheres, dos centros urbanos e dos subúrbios, com o comportamento esdrúxulo que teve durante o debate com Joe Biden.

O comício da noite de terça-feira estava cheio, como estarão todos os outros que o presidente já marcou. A turma de Trump é fiel. E animada. Mas ele não consegue renovar o mandato apenas com os devotos já convertidos. O presidente precisa atrair aquele eleitorado que não tem compromisso partidário e decide cada eleição dependendo do momento, da conjuntura, dos discursos.

É esse pessoal que está escapulindo do antes imbatível apelo do suposto milionário nova-iorquino – que agora ninguém sabe se é mesmo tão rico assim, porque as declarações de renda que vieram à tona mostram um empresário endividado até o pescoço, e nem nova-iorquino é mais.

Trump transferiu o título de eleitor dele para a Flórida. Mas corre o sério risco de perder até lá, no paraíso dos aposentados da costa leste, agora decepcionados com a resposta do governo à pandemia.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.