Trump não larga o osso e, na Justiça, quer enfraquecer Biden ao máximo até a posse, por Heloisa Villela

Republicano quer manter a base mobilizada e segue fazendo jogo. No mundo real, o encerramento da contagem dos votos vai enterrando qualquer pretensão de Trump, que espera para o próximo fim de semana uma grande mobilização de apoio em Washington.

A concretude matemática dos números, nessa eleição, não tem a menor importância para quem perdeu no pleito. Foi apertado, não dá para falar em lavada, como muitos queriam, mas há um resultado. E ele está sendo questionado como forma de colocar em dúvida os quatro anos de governo que vêm por aí. A Pensilvânia custou a descobrir quem levou o estado, mas no fim das contas, Joe Biden selou a vitória com uma vantagem de 47.000 votos. A turma de Donald Trump continua a briga, na Justiça, para eliminar os votos que chegaram pelo correio depois do dia 3 de novembro.

Por que digo que a materialidade dos números não importa? Na Pensilvânia, da hora em que as urnas foram fechadas, na terça-feira, às 20h, até o prazo final para chegada dos votos enviados pelo correio, na sexta, às 18h, o estado recebeu cerca de 10.000 votos. Mesmo que todos eles fossem para o presidente derrotado Donald Trump, ainda assim, Biden venceria com 37 mil votos de vantagem. Gastar dinheiro com advogados e tempo com processos não é investir na possibilidade de virar o jogo agora, mas sim mais adiante. Desmoralizar Biden, forçar o novo presidente a entrar na Casa Branca o mais fraco possível, é a intenção.

Na Câmara, ele já perdeu espaço. Os democratas mantiveram a maioria, mas com margem menor. No Senado, tudo depende do que vai acontecer na Georgia, estado que merece muitas reportagens esse ano. Se a ex-deputada Stacey Abrams é a grande estrela dessa eleição, por ter mobilizado e organizado o voto negro no estado, a Georgia também produziu aberrações como a eleição de Marjorie Taylor Greene, a deputada que se popularizou por ser seguidora do QAnon. E ela já mostrou que é aluna dedicada na tática das conspirações. No Twitter, mostrou o número de votos que os três últimos candidatos democratas à presidência receberam pelo correio, com um número crescente de votos a cada quatro anos e o pulo grande nessa eleição da pandemia, para perguntar: não tem algo errado nisso? Um leitor mais paciente teve a paciência de responder: “Sim. As pessoas votaram pelo correio porque tem uma pandemia a todo vapor, matando dezenas de milhares de pessoas todo mês”.

Foto: Twitter (reprodução)

A Georgia, que deu ao Congresso essa deputada, também deu vitória a Joe Biden e vai definir quem fica com a maioria dos votos no Senado. Lá, o senador tem que alcança mais de 50% dos votos para vencer a eleição. E todo estado tem dois senadores. No caso da Georgia, nenhum dos dois assentos foi definido em 3 de novembro. No dia 5 de janeiro o estado vota novamente. São duas cadeiras do senado em jogo e elas vão definir se a maioria da casa fica com os republicanos, ou com os democratas. Até o momento, os republicanos têm 49 votos no senado contra 48 para os democratas. Se saírem vitoriosos nas duas disputadas, os democratas ficam com a maioria por um voto. Já os republicanos podem perder uma disputa e ganhar a outra, que ainda assim ficam com um voto a mais, assegurando a maioria. Promete ser a disputa mais cara da história do Senado norte-americano. Os dois partidos vão jogar tudo que têm em caixa e mais para garantir essas duas vagas.

Por isso também é tão importante manter a turma mobilizada, revoltada com a “roubalheira”. E não foi à toa que depois de asseguradas as eleições locais, os líderes republicanos começaram a sair da toca para dar apoio à briga aparentemente insana do presidente. Mitch McConnell ainda não sabe se continuará sendo o líder da maioria no Senado. Vai depender da Georgia. Porém, se reelegeu e está de megafone na mão, dizendo que o presidente tem todo o direito de contestar o resultado das urnas.

Enquanto isso, a turma de Biden segue como se nada estivesse acontecendo. Vão tocando os próximos passos para assumir a Presidência. E Trump insiste em manter as mãos no volante. Terminou a proposta de orçamento para o ano que vem, que só será apresentada em fevereiro, depois da posse do novo governo. Ou seja, está agindo como se fosse continuar no cargo. No sábado, os seguidores de Trump prometem aparecer em massa na capital. Marcaram um grande comício de apoio ao presidente derrotado, que vai reunir grupos como Proud Boys, vários matizes de supremacistas brancos, neonazistas, Oath Keepers, Three Percenters, Infowars, etc. Eles ainda não conseguiram produzir um nome unificado para o evento. Uns chamam de A Marcha do Milhão do MAGA (Make America Great Again, o slogan da campanha de Trump), Stop the Steal DC (Parem com a roubalheira DC), ou Marcha por Trump. Ao meio-dia de sábado, eles prometem ocupar Washington, mas algumas dessas promessas já terminaram em muito papo e pouca ação no passado. Vai ser um bom termômetro para entender a quantas anda o apoio ao trumpismo no país.

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Heloisa Villela

Correspondente da Fórum em Nova York.