terça-feira, 27 out 2020
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Trump X Biden: disputa fica longe da verdade pura e simples, por Heloisa Villela

Enquanto Trump estava na NBC, Biden podia ser visto na ABC, durante um town hall, um formato muito utilizado pelos políticos dos EUA no qual um jornalista faz perguntas ao candidato

O que você acha que Trump faria se tivesse mais uma oportunidade de rechaçar supremacistas brancos e grupos radicais de ódio, que promovem as teorias conspiratórias mais bizarras? Passaria batido. E foi o que ele fez na noite desta quinta-feira (15). Tentou sair pela tangente dizendo que não conhece o QAnon, uma turma que aparece sempre nos comícios do presidente com camisetas e bandeiras com a letra Q. Entre outras sandices, eles dizem que os democratas são uma agremiação de pedófilos satânicos que bebem o sangue de bebês sacrificados em rituais duvidosos.

Eu sei que dá vontade de rir imaginar que alguém defenda uma teoria assim. Mas o grupo está crescendo mais e mais por aqui e já tem cerca de 20 candidatos a diferentes instâncias do poder legislativo. As mídias sociais começaram a derrubar as páginas ligadas ao QAnon na tentativa de frear um pouco o crescimento dessa turma que o FBI considera um risco à segurança nacional. Na resposta à jornalista Savannah Guthrie, da NBC, Trump disse que não conhece o QAnon. Ela insistiu: “você conhece!”. E ele, descaradamente: “Não conheço”.

O ping-pong aconteceu em Miami, na Florida, durante um town hall, um formato muito utilizado pelos políticos aqui dos EUA no qual um jornalista faz perguntas ao candidato, diante de uma plateia de eleitores que também têm a oportunidade de questionar o político. Enquanto Trump estava na NBC, Biden podia ser visto na ABC fazendo a mesma coisa. Os dois tinham um debate marcado para ontem mas a comissão que organiza os eventos decidiu que ele seria virtual por conta da recente internação de Trump por covid. Ele se recusou e o debate foi cancelado. O segundo e último embate entre os dois acontecerá no dia 22, em Nashville, no Tennessee, estado onde a pandemia está avançando a passos largos. No espaço de uma semana, houve um aumento de casos da ordem de 50%.

Esse é o grande problema de Donald Trump. E o mais incrível é pensar que se não fosse a pandemia, ele seria reeleito com facilidade. Em um comício, esta semana, ele chegou a dizer: “imagine perder para um morto como o Biden”. Pois é. Ao que tudo indica, é para esse político morno, que pouco apareceu em público e quase não respondeu perguntas da imprensa, que ele está perdendo nas pesquisas. Um candidato que já teve diversas oportunidades de responder a uma pergunta simples: se for eleito, já que os republicanos estão colocando um juiz na suprema corte em plena eleição, ao invés de esperar o fim do pleito, ele vai aumentar o número de juízes na suprema corte? Ontem Biden se recusou a responder novamente. Disse apenas que os eleitores têm o direito de saber qual é a posição dele sobre o assunto e, portanto, vai esclarecer antes das eleições. É bom lembrar a ele que faltam menos de três semanas para o processo terminar.

Os dois candidatos enfrentaram jornalistas e eleitores afiados, com perguntas difíceis. Biden foi cobrado a respeito da lei anticrime que apoiou em 1994 e resultou no encarceramento em massa de jovens negros do país. Agora, disse que a lei foi um erro mas não assumiu responsabilidade pelas consequências. Nas mídias sociais, um assessor esclareceu que Biden estava criticando a lei que veio depois, em 1986, e criou sentenças mínimas fixas, que juiz algum pode modificar, para alguns crimes. Uma lei draconiana que impede o juiz de analisar a situação específica de um preso e decidir a sentença com base na realidade. Tudo ideia e proposta dos democratas da era Clinton.

Trump também foi evasivo ao falar da covid. Disse não se lembrar se havia feito o teste no dia do debate com Biden, como estava previsto na regra do debate, e afirmou não saber se teve os pulmões infectados pelo corona. No fim da noite, aconteceu o que já se esperava. O town hall de Trump foi mais movimentado, teve mais clima de confronto, enquanto o de Biden foi aquela coisa morta que muita gente agora define como a volta ao normal. O desejo de um pouco de tranquilidade. Se formos julgar pelo resultado de público na internet, o picolé de chuchu norte-americano continua ganhando: teve 507.445 mil visualizações no Youtube contra 153.660 para Trump. Isso sim vai deixar o ainda morador da Casa Branca furioso!

Os dois candidatos evitaram esse segundo confronto, o que talvez tenha sido melhor para a saúde do eleitorado. Mas quem entrou em uma batalha interna foi a rede NBC. Assim que o debate foi cancelado e Biden decidiu fazer o town hall na ABC, o presidente da NBC Noah Oppenheim ofereceu o mesmo horário a Trump. A briga interna tumultuou o alto escalão da empresa já que um lado considera que foi um presente ao aluno mal comportado. Trump ganhou de presente um horário gratuito para conversar com o eleitorado depois de se recusar a travar o debate virtual. Conversar como tantos de nós mortais estamos conversando hoje em dia. Foi tanta guerra interna que o presidente do Conselho do grupo NBCUniversal publicou uma nota esclarecendo que a decisão foi motivada, exclusivamente, por motivos de justiça, para dar a Trump o mesmo espaço que havia dado a Biden em outubro. Não foi uma decisão motivada por interesses empresariais. Decididamente, nesse ponto o empresário e os dois candidatos têm algo em comum: falar a verdade pura e simples não é o forte dessa gente.

Heloisa Villela
Heloisa Villela
Correspondente da Fórum em Nova York.